O Professor critica a unificação das auto-definição das categorias censitárias de cor – pretos e pardos – que, agregadas, são indicativos de raça – negra – e apontam claramente o racismo brasileiro como fundamento da pobreza de expressiva parcela de afrodescendentes. Para ele, como delicadamente chama, isso é manipulação ideológica. Para exemplificar, cita até um exemplo correto, ao referir-se à Amazônia, onde há realmente a probabilidade de que na categoria pardo estejam incluídos também os descendentes de povos indígenas.
Convenientemente, esqueceu-se o Professor de nos informar, na sua longa diatribe, que no Censo 2000, os brasileiros que se auto-identificam como indígenas não ultrapassam a proporção de 0,43%, percentual infame, evidentemente, e resultante do genocídio e da discriminação racial, a mesma que o Professor veementemente nega (auto-identificaram-se como indígenas 734.127 pessoas no universo de 169.872.856 recenseados).
Assim, ainda que a categoria “parda” ocultasse todos os que se declararam indígenas, a proporção total não seria comprometida. Salvo para o uso manipulador, como bem o fez o Professor.
As informações da pesquisa Retratos da desigualdade são mesmo difíceis de serem digeridas. Elas batem no nosso rosto eurocêntrico, elas agridem nossa ilusória mentira histórica de democracia racial. É a prova inconteste de que a pobreza tem raça e cor no Brasil.
Ou, a contestação disso, Professor, leva-nos a inferir que o senhor, sociólogo e doutor em Geografia Humana, está confuso, da mesma forma que aqueles que fizeram parte do universo pesquisado pelo Instituto Perseu Abramo, em 2003, onde 82% reconheciam que existe racismo no Brasil, mas apenas 4% destes reconheciam-se como racistas, o que fundamentou a bela campanha Onde você esconde o seu racismo?
Quanto à questão regional sobrepor-se à questão racial, lamento, Professor, que com a sua formação, certamente brilhante, ignore os condicionantes históricos do desenvolvimento brasileiro e os privilégios da industrialização para o sul e sudeste maravilhas. Mas aqui também a situação do negro no mercado de trabalho é exemplar, levando-se em conta que a Fundação SEADE jamais poderá ser acusada de conluio petista ou seus técnicos de serem aliados da ministra Matilde.
Segundo pesquisa da SEADE, a distribuição das pessoas por raça e cor, segundo renda domiciliar per capita, indica que em 2004, na Região Metropolitana de São Paulo, a proporção de brancos que ganhava até 0,25 do salário mínimo era 3,3%, enquanto os negros eram 7,8%. No extremo oposto, pasme, Professor, enquanto 2% dos brancos ganhavam acima de 10 salários mínimos, não há negros nesse patamar. Consulte : http://www.seade.gov.br/produtos/idr/ren/ren_dom_03.xls
Outra coisa interessante é que o Brasil sempre estabeleceu políticas de cotas, inclusive para garantir o “branqueamento” da população. Foi assim com os suíços trazidos para fundar Nova Friburgo, com os imigrantes alemães, espanhóis, portugueses e italianos e para isto, historicamente, chamamos de contribuição européia para a nossa modernização.
No entanto, além de abafarmos totalmente a contribuição dos africanos e indígenas, hoje a maior parcela da sociedade uiva quando se fala em política de cotas para negros nas universidades. Aos negros – pardos e pretos, Professor – estão destinadas apenas as cotas negativas: maior proporção entre os miseráveis, os pobres, os analfabetos e os que ganham menores salários.
Não, não sou negra, não sou militante petista e sequer estou convencida que o Governo Lula leva a sério a questão racial. Mas acordo todos os dias convicta de que a eliminação da miséria no Brasil passa efetivamente pelo reconhecimento de que ao longo da nossa história, destinamos aos afro-descendentes a condição de cidadãos de segunda categoria. E que não haverá justiça, democracia, desenvolvimento e paz enquanto não assumirmos que não somos uma nação multiracial apenas para o que nos convém. É preciso abrir os porões, Professor.

Maria Adelina Braglia