A sua posição, por respeitável que seja – e é -, começa por ignorar o que você próprio advoga para discordar da posição que temos defendido.
A unidade e solidariedade negras, só inclui alguns? Não vale para nós da Afropress, nem para este que vos fala, seu editor?
Sim, porque o grau de ataques e baixaria de que eu e o veículo que represento temos sido alvos, deveria ter sido alegado antes para fazer cessar a beligerância e as hostilidades que beiram a injúria e a difamação, numa tentativa evidente de desqualificação do trabalho que, há sete anos, é feito voluntariamente por um grupo pequeno de jornalistas antirracistas e comprometidos com a luta por igualdade em nosso país.
O segundo ponto é que a sua afirmação relacionada à ministra Luiza Bairros é rigorosamente falsa.
Não temos, nem tivemos qualquer postura de ataque público às posições da ministra chefe até ela demonstrar o seu despreparo como agente pública e a se portar com um nível de truculência em relação a nós, comparável a de regimes ditatoriais.
Aos fatos:
1 – a despeito de editorial elogioso postado em 04 de janeiro/2011( https://www.afropress.com/editorialListLer.asp?ID=95), na primeira entrevista concedida, após meses de espera, a ministra, falando por telefone do seu gabinete, em Brasília, determinou à sua assessoria que a gravasse, sem qualquer aviso. Temos provas do afirmado, porque como tivemos prejuízo na captação do áudio, em S. Paulo, perguntamos a assessoria de Comunicação se haviam reproduzido trechos e, eis que recebemos dias após, o áudio completo e na íntegra da entrevista, o que equivale a confissão de que a mesma foi gravada sem o nosso conhecimento.
Essa é uma postura que rompe com a relação de confiança agente público profissionais de imprensa.
2 – em seguida a isso, todos os pedidos de entrevista foram sistematicamente recusados ou não respondidos pela equipe da senhora ministra chefe, inclusive uma em que, instada a falar sobre o episódio Bolsonaro, Bairros recusou-se a responder perguntas sob a alegação de que “sabia o que a Afropress queria…”. Tudo está registrado e pode ser encontrado em nosso banco de dados. Até o episódio em que, após deixar nosso correspondente em Nova York por duas horas esperando no Hotel Waldorf Astória, Bairros simplesmente não compareceu, nem justificou. Detalhe: a entrevista fora confirmada pela própria assessoria.
3 – fechando com chave de ouro, em outubro do ano passado, em um Encontro em Brasília, preparatório do Encontro-Ibero Americano que aconteceu em Salvador, a ministra chefe protagonizou mais um espetáculo de truculência e despreparo ao tentar enquadrar a Afropress, tentando “ensinar” como fazer Jornalismo, ainda que confessando de nada entender do assunto.
4 – esses são fatos que demonstram sobejamente a arrogância, o despreparo, a truculência no trato com a imprensa negra por parte da senhora ministra chefe e que só encontra defesa nos seus áulicos mais próximos.
6 – por outro lado, creio, sinceramente, você não sabe o que está acontecendo nos bastidores da SEPPIR nessa gestão. Não sabe que essa ministra, logo ao assumir, começou uma campanha de “desconstrução” de tudo o que os seus antecessores fizeram, incluindo a citada ministra Matilde, e rompendo, inclusive, com o princípio de solidariedade entre negros por você defendido.
7 – a senha pública para isso foi a famigerada campanha “Igualdade Racial, Agora é prá valer”, no que foi desautorizada, a tempo, pela Casa Civil da Presidência da República, que teria lembrado à ministra que o Governo Dilma é a continuidade do seu antecessor e não um Governo de Oposição.
8 – os fatos são fartos, e temos postado apenas não mais que 30% para preservar fontes temerosas da perseguição desencadeada para quem ousa pensar diferente. Sabe o companheiro que Bairros – apoiada apenas por um grupo restrito de Ongs afinadas com entidades que recebem apoio de fundações americanas – conseguiu a proeza de dividir até mesmo o segundo escalão da SEPPIR?
9 – então, o que você afirma de que temos tido “um comportamento sistematicamente negativo em relação a atual ministra da SEPPIR”, não encontra qualquer amparo, nem respaldo nos fatos.
10 – quanto a polêmica artificialmente gerada pelo ex-ouvidor seppiriano, que resolveu depois de anos e anos de uso e abuso da Afropress, nos eleger como inimigos (inclusive pessoais), apenas porque repelimos as suas tentativas de interferir em nossa linha editorial sobre a não cobertura da queda de Orlando Silva, insinuando a ligação deste Editor com o PC do B, é também absolutamente falsa e fruto da má fé ou de sua imaginação delirante.
11 – vejamos: não sou filiado ao PC do B, legenda a que estive filiado de 2007 a 2010 para ser candidato a prefeito de Cubatão e a deputado estadual. Aliás, desafio ao ex-ouvidor seppiriano, a provar as leviandades que vem transformando em bandeira de propaganda do seu próprio ego. Não estou filiado a qualquer partido e quer saber mais: não pretendo fazê-lo.
12 – durante o tempo em que estive filiado ao PC do B, foi o período de maiores conflitos com a corrente do Partido no movimento Negro, a Unegro, conforme poderá você mesmo verificar no banco de dados da Afropress, notadamente na Palavra do Leitor, precisamente porque jamais abrimos mão de nossa independência editorial que é um patrimônio construído à duras penas.
13 – também sempre que foi necessário estivemos em linha oposta a ação equivocada de negros nos Partidos políticos, sejam eles do PC do B, do PT, do PSDB, do PSTU, do PSOL, ou qualquer outro. E por uma razão simples: sem desconsiderar a importância dessa ação, não achamos que devamos submeter e subordinar a nossa pauta a agenda dos partidos que, no Brasil, tem um histórico de reprodução do racismo institucional. Veja matérias na Afropress e, inclusive, com os ministros antecessores da atual (Matilde, Edson Santos e Elói), que nunca nos trataram com a truculência e a arrogância que vem caracterizando essa gestão.
14 – para você que merece o nosso respeito (que o meu detrator gratuito e ex-ouvidor seppiriano confunde com vassalagem palavra que pode fazer parte do seu dicionário, mas estranha à minha postura, inclusive de vida), explico porque Afropress não cobriu a queda de Orlando Silva – o sexto ministro deste Governo a cair por denúncias de envolvimento em desvios de recursos públicos, sempre negados.
a) Orlando Silva jamais, ao que eu saiba, foi um quadro militante do Movimento Negro. Ao que me consta Orlando foi, sim, dirigente da UNE e, desde sempre, quadro do PC do B. Embora tenha participado eventualmente de uma ou outra reunião da UNEGRO nunca foi um dirigente nem militante dessa organização.
b) por que que razão deveríamos cobrir a sua queda, quando não fizemos o mesmo com Marina Silva e com Gilberto Gil? Também nestes casos, Marina e Gilberto Gil, são nomes que não saíram dos quadros do movimento negro. Esse é um critério editorial. Concorde-se ou não, é critério editorial do veículo.
15 – não consideramos que o simples fato de um dirigente ou político ser negro já o coloque no campo dos que lutam contra o racismo e pela igualdade. Temos diferenças políticas importantes neste aspecto. Você considera que Pelé, por exemplo, deva ser preservado porque é negro, provavelmente. Eu entendo que Pelé e outras figuras notáveis são a maior expressão de que a política de branqueamento no Brasil fracassou no plano físico, mas foi exitosa no campo ideológico e Pelé – para quem não há racismo por aqui – é o maior exemplo disso.
16 – então, meu caro, temos diferenças nisso, e ótimo que as tenhamos. Não considero que a cor da pele seja padrão de virtude para ninguém, que o digam os “capitães do mato”, que levavam os nossos antepassados aos pelourinhos da vida e, “mutatis mutandis”, continuam levando, não acha?
17 – cobrimos o “Caso Orlando Silva”, abrindo manchete, quando, com a sua saída, a Esplanada ficou vazia de um único ministro negro e isso é um fato jornalístico e político importante em um país, cuja população é constituída 50,7% de pretos e pardos.
18 – como vê, temos critérios. Não comecei ontem. Sou um lutador social desde os fins dos anos 70, na fundação do PT e determinados neófitos que pensam que “inventaram a roda” e que podem dar a última palavra em tudo, precisam descer do salto alto e da postura de arrogância e soberba. O pior é quando partem para tentativas toscas de intimidação, como fez a ainda ministra Luiza Bairros e como continua a fazer o ex-ouvidor seppiriano, na sua função tosca e patética de porta-voz desautorizado.
19 – não nos incomodamos com o alarido inconsequente, de meia dúzia arregimentada para bater palmas. Não tenho filiação partidária, não sou candidato a nada, não preciso do aplauso fácil como certos demagogos que precisam todos os dias de aprovação e de palmas para acalmar seus egos e melhorar seu senso de auto-estima.
20 – a Afropress é um veículo de informação. Há sete anos, que existe, graças ao trabalho de um número pequeno de jornalistas e colaboradores eventuais que não recebem um tostão. É trabalho voluntário. Não temos e nunca tivemos os generosos apoios de centenas e até milhares de dólares (em alguns casos) da Fundação Ford.
21 – por que será, hein, amigo Medeiros? A Fundação Ford não acha relevante o trabalho que fazemos, ou prefere apoiar os que fazem a sua linha, os afinados com a política dos EUA no trato da questão racial. Nada contra, mas vamos deixar claras as razões políticas e ideológicas que explicam tudo isso e tem nisso tudo seu pano de fundo.
22 – no mais, termino por registrar o seguinte: com pessoas sérias como você o debate e a divergência é bem-vinda. Discordo em gênero, número e grau que negros, quando ocupam cargos públicos adquiram imunidade à crítica. Essa é uma postura que vai na contra-mão de tudo o que defendemos, é puro “corporativismo de cor”. Estamos numa República, num Estado Democrático de Direito e agentes públicos, o nome já os define.
23 – por essa lógica, se justificariam todas as ditaduras. Não é porque o cidadão ou cidadã é negra que, no exercício da função pública, ele (a) junto com o cargo adquira blindagem à crítica e a fiscalização nos seus atos e atitudes como agentes públicos. Isso vale para a vida privada e nesse quesito falamos muito à vontade: me aponte nesses sete anos de Afropress uma única crítica a vida privada de quem que seja!
Vou ficando por aqui, despeço-me, lamentando tomar o seu tempo com tão longa resposta, mas que considerei necessária para que nos situemos no campo da troca de idéias e do debate respeitoso e não dos insultos pueris que nada acrescentam e a nada levam.
Com o abraço do
Dojival Vieira

Dojival Vieira