Salvador – As declarações do Corregedor-Adjunto da PM baiana, coronel Manuel Souza Neto, encarregado da investigação do caso de tortura da Mãe de Santo, Bernadete Souza Ferreira, no Assentamento D. Hélder Câmara, em Ilhéus, provocaram uma mudança de tom na reunião da Mãe de Santo e lideranças negras com o governador Jacques Wagner.
O coronel, em visita ao Assentamento na quarta-feira (10/11), garantiu que “tortura e intolerância não seriam provadas de jeito nenhum” e desdenhou a denúncia feita pela Mãe de Santo, afirmando que “na Bahia todo mundo é católico, mas gosta de um sambinha também”.
“Ele considera que religiões de matriz africana são um sambinha. Isso não dá prá aceitar”, disse Bernadete durante a reunião com o governador, segundo relato do Correio da Bahia.
De acordo com os participantes da reunião – entre os quais o coordenador do Coletivo de Entidades Negras da Bahia (CEN), Marcos Rezende – o governador teria considerado “desastroso” o comentário do coronel e anunciou ter nomeado uma delegada especial, sem revelar o nome.
A reunião, que havia sido acertada com o governador como um “encontro de aliados” (tanto que vozes independentes como o Secretário Nacional da UGT, Magno Lavigne, e advogados foram excluídas por Moacir de Jesus, marido da vítima e militante do PT, assim como a própria), acabou se tornando ato de cobrança – mais as declarações do coronel, do que a punição dos torturadores.
Mais humilhações
Bernadete relatou ao governador que, durante a visita de Souza Neto ao Assentamento, se sentiu ainda mais discriminada diante das declarações feitas por ele. Ela desmentiu indiretamente afirmações do próprio Wagner e do comandante da PM, Nilton Régis Mascarenhas, de que os acusados teriam sido afastados.
“Um dos PMS que me agrediu me mostrou um lugar, onde segundo ele, eu tive um ataque epilético, mas não tenho nenhum problema de saúde”.
Mascarenhas disse, ao final da reunião – realizada à portas fechadas e sem a presença da Imprensa – que os acusados, cujos nomes são mantidos em sigilo pela PM e pelo governador – estão afastados há cinco dias. Ele não revelou qual o ato do afastamento, nem se foi publicado no Diário Oficial do Estado.
Também participaram da reunião o secretário de Segurança Pública, Cézar Nunes – cujo afastamento tem sido pedido por lideranças como Hamilton Borges Walê, coordenador da Campanha Reaja ou Será [email protected] -, Luiza Barrios, Secretária de Promoção da Igualdade Racial (SEPPROMI) e o delegado chefe da Polícia Civil, Joselito Bispo.

Da Redacao