Longe de defender Fernando Collor. Mas, oferecer um espaço de tamanha importância a uma ‘ilustre senhora’ – único adjetivo possível para não ofender as profissionais do sexo, nem as presidiárias que cumprem penas em locais insalubres e que deveriam ser reservados a pessoas da estirpe da entrevistada – como Rosane ex-Collor é inconcebível, mesmo para os padrões da imprensa no Brasil. Não, eu não sou intolerante nem fundamentalista. Creiam-me.
Só me fiz, antes de escrever este artigo, a seguinte pergunta: Onde estava a possibilidade de notícia? O que foi dito de relevante para os rumos do país ou ainda que influencie a política de Alagoas? Ela (Rosane ex-Collor) agora é cristã, ganha R$ 18 mil de pensão… e está com inveja da amiga que recebe R$ 40 mil… Inveja não é pecado, gente?
Se eu ainda consigo associar ‘lé com cré’, a grande notícia da semana é a de que Collor é, em bom e rústico português, macumbeiro! E foi muito mal assessorado por uma espertalhona que, quando viu que o dinheiro da Casa da Dinda ia acabar, se bandeou para a Teologia da Prosperidade.
Gente, o único ritual de magia negra conhecido no Brasil é aquele trazido pelos negros, há pouco menos de 500 anos. O mesmo ritual que faz com que seus seguidores usem branco, deitem em esteiras, fiquem isoladas durante os preceitos religiosos, realizem sacralização de animais e que, em alguns momentos, precisem ir a cemitérios.
Esses mesmos rituais que são vilipendiados e perseguidos desde que o Brasil se entende por Brasil. A TV Globo não pode escamotear isso, por mais que não acredite em nossa capacidade crítica. Tenho certeza que os profissionais que conduzem a linha editorial da emissora não devem ter a pretensão de estarem acima das representações coletivas… para ficarmos só no básico.
Uma coisa é a conduta pública de pessoas públicas. A outra é o que essas pessoas acreditam na esfera privada. Até onde percebi, a ‘ilustre entrevistada’ não acusou o ex-marido de nenhum outro crime. Então, onde está a importância de seu conteúdo? Que ela está escrevendo um livro? Que foi ‘salva’ por Jesus? Ou que sua entrevista vai ajudar a conquistar os milhões de reais (ou dólares, euros, ienes… vai saber) que seu ‘ex’ sonega na pensão ou (quem saberá?) no Imposto de Renda? O Fantástico agora cobre divórcios e conversões religiosas? Mas, se Jesus a salvou de ser morta por um feitiço brabo – o mesmo que vitimou PC, o cunhado e tantas outras pessoas – conforme suas insinuações, porque ela tem medo de ameaças? Por que declarou que se acontecer algo a ela será culpa do Collor? Será que o ex-marido tem mãe de santo nova? Isso é uma batalha político-espiritual travada na arena pública da TV?
Nunca na minha vida pensei que escrevesse algo que pudesse ser interpretado como defesa de um político comprovadamente desonesto, cassado e que está em desacordo com tudo aquilo em que acredito na esfera política. Mas, se permitirmos que a conduta religiosa dos governantes seja apontada como qualificação fundamental para gestão pública estaremos caminhando para um destino sem volta. E, neste sentido, a TV Globo deu um grande passo em direção à teocracia.

Rosiane Rodrigues