Ontem, dia 04 de março, ficará na história como o dia em que mais uma vez, o Brasil declara guerra, através de seus militares contra uma população de brasileiros desarmados – as 50 famílias da Comunidade Rio dos Macacos-BA.
As famílias e cerca de 150 militantes do Movimento Negro baiano e de todo o Brasil, compuseram a barreira de resistência, frente à tentativa de repressão e invasão por 500 fuzileiros e da polícia baiana.
A gloriosa Marinha brasileira parece ter escolhido a sua guerra e os seus inimigos, armados até os dentes, portando carros de combate, fuzis, metralhadoras e tratores pretendiam, desalojar, expulsar e demolir as moradias desses brasileiros inimigos da pátria, “os subversivos”, pretos, pobres e suas moradias centenárias.
Foi um dia tenso, tudo se encaminhava para mais um massacre. Entre ameaças de invasão inevitável, dos militares, barrando e proibindo a entrada de solidariedade e a entrega de alimentos para os moradores.
Depois de muita negociação e resistência da comunidade e dos militantes presentes em apoio, a Marinha permitiu a entrada de uma comissão com os alimentos, mas os 150 militantes tiveram que se embrenhar por uma rota alternativa de quilômetros, para chegar à comunidade.
Durante todo o dia, os advogados do Movimento Negro e Social baiano, do Movimento Reaja ou Será Morto/Morta, do MNU de Lutas e da Frente Nacional em Defesa dos Territórios Quilombolas negociaram com o Ministério de Defesa, em clima de ameaça, um comunicado do Governo Federal que suspendia a “reintegração de posse”, por cinco meses, e que os militares se negavam cumprir. Negociação essa que só foi fechada no fim da tarde, com a desistência da Marinha.
Enquanto isso, a comunidade e a militância se ocupavam em barrar a ação de terrorismo de Estado, sob clima de tensão e medo.
O Histórico de ocupações, ameaças e massacres
Nos anos 1970, sob o regime militar, a Marinha ocupa algumas áreas habitadas por quilombolas, a centenas de anos, desde as imemoriais Guerra da Independência e do Paraguai, fugidos ao controle do escravismo ou por remanescentes de ambos episódios guerreiros. Estes brasileiros instalaram-se em quilombos com o de Marambaia no RJ, e em Macacos na Bahia.
O comando da Marinha, ainda hoje, julga-se uma força aristocrática, representantes das oligarquias monarco-escravista brasileira. Seu comando ainda é branco e sua tropa de subalternos são negros, mestiços e nordestinos.
Desde os episódios da Guerra da Independência, onde as Marinhas brasileira e portuguesa aos se avistarem fugiam ao confronto uma da outra, que os negros e indígenas baianos, negros aquilombados resistiram e venceram, expulsando as tropas fiéis a Portugal. A vitória do glorioso 02 de julho deve-se aos quilombolas, aos indígenas, aos capoeiristas baiano, não a Marinha, ainda hoje imperial (!???).
– Wikipédia. – “A Independência da Bahia[nota 1] foi um movimento que, iniciado em 1821 (mas com raízes anteriores) e com desfecho em 2 de julho de 1823, motivado pelo sentimento federalista emancipador de seu povo, terminou pela inserção daquela então província na unidade
nacional brasileira, durante a Guerra da independência do Brasil.”
Na Guerra do Paraguai, a vitoria custou a vida de 150 mil soldados negros, sequestrados nas ruas das grandes cidades, pelas autoridades e exercito de D. Pedro II, ou simplesmente trocados na base de dez negros para um filho das elites latifundiárias na época.
O custo da vitória foi o genocídio, de negros brasileiros e de índios paraguaios, para livrar a América do Sul de ambos os povos. José Júlio Chiavenatto em seus livros “O Negro da Senzala à Guerra do Paragua” e “A Guerra do Paraguai”, denuncia o desaparecimento de 1 milhão de negros
no levantamento estatístico de 1870, comparado com o anterior de 1860.
Não foram as estratégias da Marinha aristocrática, nem o comando branco do assassino comandante, que substituiu o Duque de Caxias na guerra, o francês Conde D´Eu , mas a estratégia das elites de então, que dizimando índios paraguaios e negros, nus, famintos e
desarmados e indígenas, nos quais os comandos não confiavam, enfrentando artilharia inimiga com lanças e facas.
– Wikipédia – No terceiro período da guerra (1869-1870), o genro do imperador Dom Pedro II, Luís Filipe Gastão de Orléans, Conde d’Eu, foi nomeado para dirigir a fase final das operações militares no Paraguai, pois buscava-se, além da derrota total do Paraguai, o fortalecimento do Império Brasileiro. O marido da princesa Isabel, Conde d´Eu, era um dos poucos membros da família imperial com experiência militar, já que na década de 1850 participara, como oficial subalterno, da campanha espanhola na Guerra do Marrocos. A indicação de um membro da família imperial pretendia diminuir as dificuldades operacionais das forças brasileiras, problema agravado pelos muitos anos de campanha, pela insatisfação dos veteranos e pelos conflitos, políticos e pessoais,
que se alastravam entre os oficiais mais experientes.
Célia Maria Marinho, confirmou esse propósito, em seu livro “Onda Negra Medo Branco”, esmiuçando a estratégia de branqueamento -, discutido pelas elites nos parlamentos do Império durante todo o século 17. O triunfo militar do Império no Paraguai, não passou de uma “Vitória de Pirro”, no estrito sentido militar, pelo alto custo de mortos brasileiros, entretanto, eficiente para a estratégia e pretensões políticas das racistas oligarquias monárquicas, de eliminação do maior contingente possível de negros.
Em seguida, as muito eficientes Forças Armadas brasileiras, provocam um novo genocídio, no Estado da Bahia, contra sertanejos mestiços, indígenas, pretos e pobres, dizimando mais de 30 mil sertanejos de Canudos.
– Wikipédia. – Guerra de Canudos ou Campanha de Canudos,[1] foi o confronto entre o Exército Brasileiro e integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do
estado da Bahia, no nordeste do Brasil.
Vinte dois anos após a Abolição, em 1910, a Marinha do Brasil, ainda torturava seus marujos com açoite, uma pratica abolida em 13 de maio de 1888. Abolida em termos, pois continua praticada nos distritos policiais, e transformada em ciência durante a vigência da ditadura militar de 1964.
João Cândido Felisberto, marinheiro negro gaúcho, herói da Revolta da Chibata e seus companheiros, provaram a inteligência e a capacidade técnica e de comando, demolindo a cadeia de comando, e dominando os quatro principais navios de guerra da época (a Marinha era a melhor equipada força de então).
Após dias de revolta, um acordo firmado com o Governo da República, que com a deposição de armas e a entrega dos navios ao almirantado, seriam abolida a chibata, aumentado os soldos, e anistiados os revoltosos.
João Cândido e os companheiros foram traídos pelo Governo e pela Marinha, sendo desterrados a maioria dos marinheiros para a Amazônia, presos e assassinados asfixiados, a maioria das lideranças e João Cândido preso, submetido a perseguição eterna, inclusive depois de morto, por essa força elitista.
Nenhum Exército ou força militar do mundo, tratava ou trata seus homens ou mulheres, com tortura e castigos corporais, e os lutadores que conquistaram a dignidade, aumentando o valor da tropa, deveriam ser reconhecidos como bem feitores pela instituição. Até hoje a Marinha não reconhece o feito heróico que deu dignidade a essa força.
O governo Lula concedeu anistia e reconheceu o heroísmo de João Cândido e seus companheiros, mas nada fez contra a resistência da Marinha que se nega promovê-lo a patente máxima de Almirante (o Almirante negro da música de João Bosco); e conceder à família uma
indenização pelas punições e perseguição injustas sofridas e pelo banimento deste bravo militar do povo.
Mas não, o comando da Marinha soberbo e orgulhoso demais das suas guerras, não reconhece a grandeza dos que fizeram sua história, e preferem fazer guerra contra homens, mulheres, velhos e crianças negras. Parece ser esse o grande legado dos bravos homens dessa Força Armada do Brasil, pós-João Cândido. O mundo há de saber disso.
05/03/2012
O título original do artigo é “Rio dos Macacos: mais um crime da Marinha Brasileira contra os negros pobres desarmados.

Reginaldo Bispo