E se o poder simbólico devido à posição social, étnico-racial e geográfica de quem guia o evento reconhece e legitíma uma linguagem brancocentrada, fazendo-a parecer legítima aos olhos da democracia racial, o que predomina é a indiferença a diversas companhias teatrais de atores e atrizes negros de diversas partes do país, que não tem lugar no Riocenacontemporânea.
Pouco esforço tem sido feito por esses setores no sentido de pluralizar racialmente e geograficamente as produções culturais exibidas em eventos desse porte. Os responsáveis pela gestão de eventos culturais pouco (ou nada) se preocupam em elaborar e discutir uma democratização estética que inclua companhias negras fora dos fóruns usualmente delimitados. Algumas vezes dá-se a possibilidade aqui ou ali de apresentação ou financiamento de alguma “companhia étnica”, no entanto o que é, mas comum é ver grandes artistas criticarem e desqualificarem a política nacional de cultura e se beneficiarem com grandes investimentos de estatais e ministérios.
Mas para se planejar a pluralidade estético-racial e regional das linguagens contemporâneas no âmbito teatral é preciso ter o que os nossos “doutos ignorantes” não têm: a consciência de sua branquitude, ou seja, a “branquitude enquanto guardiã silenciosa de privilégios”. E esses indivíduos fazem com que o riocenacontemporânea, estimule, assim, a “investigação e a especulação cênica”, só que, uma especulação e uma investigação exclusivamente brancas. Pelo que pude ver das edições anteriores o evento mencionado foi sempre assim. Transformado em Totem da agenda teatral do Rio de Janeiro o Riocenacomtemporânea não conseguiu incluir no rol de suas investigações, apesar da injeção midiática e financeira, conceitos/idéias que contemplem os 45,5% da população negra do Rio de Janeiro. Nesse ponto, urge que a Petrobrás instaure comissões, exigindo de eventos como o Riocenacontemporânea “o máximo de diversidade nos perfis de seus participantes, a fim de que se possa garantir um olhar abrangente e generoso sobre a grande diversidade (…), contemplando a diversidade étnica e regional da cultura brasileira, procedentes de todas as regiões do país” (conforme descrito na página). No entanto, não nos sentiríamos representados em uma comissão 100% BRANCA, gostaria ver entre os avaliadores a mesma diversidade étnica e regional que se pretende alcançar na escolha das atividades culturais financiadas.
Para que estes investimentos culturais correspondam à diversidade nacional, não basta que se aumente o orçamento destinado aos projetos culturais. Tornam-se imprescindíveis estabelecer metas de seleção e critérios de cotas étnicas-raciais e por região.
Nesse sentido, eventos como o Riocenacontemporânea, se não forem prospectivos, dialogando com a pluralidade étnica e regional das linguagens correm o risco de serem contemporaneamente arcaicos e esclerosados, fechados em seus olhares etnocêntricos e presos à suposta conexão Rio-São Paulo-Europa.
O Estado como legítimo mediador da cultura e principal financiador deve comprometer-se com a tarefa democrática de combater o racismo que persiste na sociedade e nas instituições, jogando luz sobre os interesses, ações e mecanismos de exclusão conscientes ou inconscientemente praticados pelos grupos racialmente dominantes.

Lenora Louro e Rogério José