Entretanto, muitos dos que vêem aqueles pés muitas vezes arrastados e aqueles acenos com os chapéus de palhinha talvez não lembrem que, antes eles, vinham à frente de suas agremiações, como heróis fundadores que são, orgulhosos, num gestual que simbolicamente dizia: “Vejam! Todo o esplendor de que vocês desfrutarão agora, fomos nós que semeamos, com nosso suor e nosso sangue; para oferecer hoje a vocês, respeitável público!”
Pois Seu Manduca é um desses heróis. Dançou dança de velho nos Turumbambas da Barafunda, um cordão de péssima fama no Morro do Pinto; saiu como porta-machado no Flor do Lavradio, ainda no tempo dos ranchos; pintou os canecos no Macaco é o Outro, um bloco endiabrado; saiu no Deixa Malhar ainda rapazinho; afrontou as convenções sociais no Faz Vergonha de Vila Isabel; e, bem mais tarde, lastreado em toda essa experiência e em todo o seu talento, fundou, com um grupo de vizinhos leopoldinenses, o G.R.E.S. Aliados da Capelinha.
Hoje, Seu Manduca sai (“quem, desfila é soldado”, costuma dizer) na Velha Guarda da escola que ajudou a fundar. E chova ou faça noite enluarada, todo ano lá está ele, terno completo ou casaca, conforme o enredo; chapéu chile, coco ou cartola, de acordo com o tema; gravata borboleta ou plastron, consoante a época da trama; luvas e bengala, se o enredo pedir; e, em qualquer circunstância, sapatos feitos sob medida e aquela elegância inata, sóbria, natural, que é o dom maior de todo e qualquer sambista dos bons tempos.
Antigamente, Seu Manduca vinha na frente, com mais onze colegas, de porte e história semelhantes aos seus. Formavam ao seu lado, todo ano, próceres como Ernane Feijoada, Paulo Carvoeiro, Tião Miquimba, Sebinho, Antônio Bagunça, João Cabeça de Pombo e outros. De uns tempos para cá, entretanto, a grande parada do samba passou a exigir menos fleugma e mais performance; menos cadência e mais acrobacias; menos tradição e mais espetaculosidade. Aí, Seu Manduca e seus camaradas, entre os quais incluem-se algumas respeitáveis senhoras, como Rita Fuzarca, Jupira Moleque e Léa Formiga, foram passados lá para o último setor.
Entretanto, seja atrás ou à frente do cortejo; seja na pista ou na concentração; seja na avenida ou na escola; o carnaval, mais que o samba, funciona para Seu Manduca como uma catarse, uma válvula de escape, uma ponte de safena. Porque, no fundo, ele é uma tristeza só, em seus 85 anos de vida, 70 e tantos anos de recreativismo, 3 de viuvez e 25 de aposentadoria.
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Este texto, abertura de “Uma furtiva lágrima”, texto ficcional publicado no nosso “Vinte Contos e Uns Trocados” (Ed. Record, 2006), vai aqui postado em homenagem à memória de Baiano, João Laurindo, Edivar, Nescarzinho, Noel Rosa de Oliveira, Carlinhos Pepé, Seu Geraldo do Caxambu, Paulo Carvoeiro, Tio Ernani Feijoada, e outros saudosos companheiros da Ala dos Compositores e da Velha-Guarda dos Acadêmicos do Salgueiro, escola-de-samba da qual fizemos parte, de 1963 a 1989.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes