Salvador – Os casais de Salvador terão mais uma programação para esta segunda, 12, quando será celebrado o Dia dos Namorados. Será um ato lúdico promovido pelo Instituto de Mídia Étnica, no horário do pôr-do-sol (das 17 às 19h), no romântico ambiente do Passeio Público, Campo Grande, onde acontecerão intervenções artísticas, música e muita poesia.
Com a Campanha “Neste 12 de junho, Reaja ao Racismo, beije sua preta ou seu preto em praça pública”, o Instituto quer chamar atenção para a invisibilidade de casais negros na publicidade, principalmente neste período de grandes propagandas alusivas ao Dia dos Namorados.
A frase foi escolhida pelo Instituto de Mídia Étnica para estimular que vários casais se beijem em público, representando um repúdio à invisibilidade dos casais, atores e modelos afrodescendentes, que historicamente não são mostrados nas peças publicitárias e nas produções áudio-visuais, como filmes e novelas. Além de dar visibilidade e reforçar a identidade cultural dos negros que, em Salvador, constituem 84% da população.
Para o Instituto de Mídia Étnica, a má representação dos negros pela mídia reflete o racismo arraigado na sociedade brasileira desde o período em que os negros foram escravizados. Assim como naquela época, hoje, os afrodescendentes ainda são tratados como coisas, seres invisíveis e sem sentimentos. “Normalmente discutimos nossa representação no mercado de trabalho, nas universidades, mas quase nunca discutimos nossa afetividade, nossa subjetividade. Essa campanha, pioneira no Brasil, representa a auto-afirmação de uma maioria que existe, consome, ama, beija e namora”, diz Paulo Rogério Nunes, diretor executivo do Instituto de Mídia Étnica.
Saúde Negra
Uma dos parceiros do Mídia Étnica na realização do ato é o Grupo de Trabalho Saúde da População Negra, da Prefeitura de Salvador, que vê a questão da auto-estima negra como um problema de saúde pública. “A invisibilidade, a não aceitação e as imagens deturpadas propagadas pela mídia comprometem diretamente a saúde mental de homens e mulheres negras, que passam a desenvolver diversas patologias, como a depressão. Além do que, as imagens racistas alimentam a falta de cuidado e o desrespeito com a população negra, gerando violência física, principal causa de morte dos negros”, afirma a sanitarista Denise Ribeiro, coordenadora do GT Saúde da População Negra, que acaba de lançar um diagnóstico dos aspectos da saúde da comunidade afrodescendentes de Salvador. Um dos dados do diagnóstico mostra que, de 2000 a 2005, dos óbitos por causas externas, 54,24% foram por homicídios. Desse total, 86,07% das vítimas foram pessoas negras. “Propagandas que nos colocam em posição de inferioridades e novelas sobre a escravidão massificam imagens de negros apanhando e sendo humilhados, o que fortalece a violência contra a população negra. Em contrapartida, a mídia não gera imagens de amor e afetividade entre nós”, completa Paulo Rogério Nunes.
Poetas negros
“Neste 12 de junho reaja ao racismo. Beije sua preta ou seu preto em praça pública” é uma adaptação de um poema de Landê Onawalê, poeta negro e ex-militante do Movimento Negro Unificado – MNU, que na década de 80 publicou o poema “Reaja à violência racial, beije sua preta em praça pública”. Sucinto, porém, incisivo e revelador, o poema expressa a necessidade do combate às agressões raciais e de gênero e à valorização da população negra. “A Campanha chega 18 anos depois, mas, lamentavelmente, ainda necessária”, afirma o poeta, que terá outras poesias recitadas no evento, ao lado de outros poetas negros, como os contemporâneos Limeira, Conceição Evaristo, Cuti, Elisa Lucinda, Hamilton Borges e os antológicos Cruz e Sousa e Luiz Gama. No ato, não faltará também a poesia dos blocos afros de Salvador, que exaltam em suas músicas a negritude, a herança africana e a beleza negra.
Música, arte, encontros, afagos, flores, carinhos e declarações de amor. Quem ama terá um dia perfeito. Tão completo que usará o romantismo da data para comemorar o relacionamento amoroso e ao mesmo tempo, refletir sobre o amor universal e o respeito ao próximo. Mesmo que esse próximo não tenha a cor, raça ou etnia propagada e estereotipada há séculos por uma sociedade racista.
O Instituto de Mídia Étnica é uma organização do movimento negro que reúne jornalistas, publicitários(as), cineastas e graduandos(as) nos cursos de Comunicação Social e tem como objetivo desenvolver projetos e pesquisas nas áreas de mídia e etnicidade, buscando uma apropriação das Tecnologias da Informação e Comunicação por parte da comunidade negra.
A discussão do Instituto de Mídia Étnica acontece no momento em que o poder público brasileiro tenta definir mudanças reparatórias em setores da sociedade civil como educação, saúde, mercado de trabalho e comunicação através do Estatuto da Igualdade Racial. E dentro das ações de inclusão da população negra nestes espaços, está a iniciativa do Instituto de Mídia Étnica.

Da Redacao