Dia 20 de novembro, Dia da consciência Negra!!! Nesse dia morreu Zumbi dos Palmares (1695), guerreiro, último líder do quilombo dos Palmares, símbolo da resistência negra contra o ataque dos bandeirantes, chefiados por Domingos Jorge Velho. Esse quilombo, o maior da América Latina, chegou a ter mais de 6 mil moradores.

O Dia de luta, hoje feriado em algumas localidades, não foi dado por acaso! Já na década de 1970, ativistas ligados a um grupo de quilombolas situado no Rio Grande do Sul passaram a reivindicar a celebração do Dia da Consciência Negra no Brasil na data de 20 de novembro. Em 1978, surgiu o Movimento Negro Unificado (MMU) no País, que passou a promover uma série de ações para pensar a consciência negra e lutar contra o racismo no Brasil.

Graças ao movimento, o Dia da Consciência Negra tornou-se uma data lembrada todo ano como representativa da luta da população negra. A data foi restabelecida pelo projeto lei número 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003 e, desde então, graças as lutas do movimento negro, passou a ser feriado em algumas cidades do Estado de São Paulo e em outras localidades do Brasil.

 A cidade de Santos/SP chegou a ter três quilombos em seu território e ao mesmo tempo, palco das lutas, discursos e jornais abolicionistas, estampa em sua bandeira, em latim, a qualificação de “terra da liberdade” em homenagem a esses abolicionistas e aos escravizados que aqui buscaram sua liberdade, fugindo das senzalas das fazendas do café das terras roxas paulistas.

  Bom, esse é o histórico e deveria ser o ideal. 

   Na cidade de Santos/SP, em pleno fim de semana do feriado de 20 de Novembro de 2021, passamos a celebrar o dia do imigrante branco!!!! Vejam o site oficial da cidade nos links https://www.santos.sp.gov.br/?q=noticia/passeios-do-festival-do-imigrante-prometem-viagem-no-tempo-no-centro-historico-de-santos e https://www.turismosantos.com.br/?q=pt-br/festivaldoimigrante.

 No dia de luta pela igualdade racial, de marcha por direitos, de combate ao racismo em todas as suas matizes e espectros, a cidade de Santos, numa tentativa de “aproveitar o feriado para levar turistas ao centro histórico”, celebra o Festival do Imigrante! Sim, o imigrante branco, trazido pelo Estado Brasileiro antes e depois da Abolição da Escravatura de 13 de maio de 1888, com o intuito de substituir a mão de obra negra escravizada, relegando a toda a massa de população negra e afrodescendente um papel de “reserva”, de cidadão de segunda categoria, marginalizado, sem acesso ao estudo, aos empregos e ocupações de maior destaque e criminalizado pela “vadiagem”!

Didáticamente, vale relembrar que esses imigrantes brancos, da Itália, Polônia (a maioria mulheres), Espanha, França e Portugal (os dois últimos em menor número) foram escolhidos a dedo pelo Estado Brasileiro, com o intuito direto de “branquear” a população brasileira pela via da miscigenação, nos termos da, então, ciência da Eugenia.

O termo “Eugenia estava previsto, inclusive, nas Constituições Federais do Brasil de 1889 até 1945, pseudo ciência, pretendia com base em estudos e falácias, impor a ideia de supremacia da raça branca, levando ao holocausto da segunda guerra mundial e ao nosso racismo a brasileira.

Ou seja, no dia da Consciência Negra, estamos vendo a cidade de Santos, a dita “terra da liberdade” (?) levar ao centro histórico (palco das lutas abolicionistas e por onde discursaram e passaram personagens como Luiz Grama, José do Patrocínio, Rubem César e tantos outros, local de abrigo e transbordo para os quilombos do Jabaquara, do Pai Felipe e do Santos Garrafão), uma extensa programação festejando a culinária, as bandeiras, a manifestações culturais e a vinda do imigrante branco europeu pós abolição?

Não há desculpas que justifiquem essa escolha de data e programação! Em pleno Novembro Negro, onde há décadas a cidade NUNCA teve uma programação tão grande ou mesmo uma série tão extensa de eventos no centro histórico ou na cidade para o Dia da Consciência Negra, relegado a um palco e poucas atrações na Praça Palmares, nada pode justificar esse tipo de “ação turística”, exceto a vontade de “branquear” e se apropriar do feriado!!!!!

Mais do simples apropriação cultural (que já é, por si só, abominável), Santos/SP busca ressignificar o feriado, na medida em que aproveita a folga e a vinda de turistas da capital paulista (em sua maioria), para difundir a ideia de que o 20 de novembro é o dia do imigrante (branco, claro), dando amplo destaque na mídia e com extensa programação ao Festival do Imigrante, sem sequer citar os demais eventos da cidade e da região dedicados a consciência negra, a identidade negra e afrodescendente ou, ainda, dos eventos de luta e reivindicação de direitos efetuados, em sua maioria, pela sociedade civil e pelo movimento negro em suas várias vertentes.

Já vimos esse filme! A Apropriação cultural de datas específicas já ocorreu na cidade de Santos/SP, que transformou o 9 de julho, de dia da revolução constitucionalista de 1932 (feriado estadual), no dia do café, no mesmo centro histórico, firmando programação por anos seguidos para “atrair” turistas para o feriado prolongado!

Como no exemplo do 9 de julho, vejo o Festival do Imigrante branco no dia de hoje e amanhã como uma sobreposição de eventos para apagar a memória de Zumbi e o porquê do feriado, trazendo de dia uma atração turística sobre os brancos e nada sobre os negros ou Zumbi, relegando a luta contra o racismo, a contribuição do negro e a própria memória do sacrifício de Zumbi, Dandara, Ganga Zumba e todos os escravizados em 340 anos de escravidão negra no Brasil a um segundo plano!

Somemos isso ao avanço do racismo em nosso país, ombreado pelos fatos de que, em pleno 2021, o racismo tomou conta de nosso país, a Fundação Palmares pode se tornar Fundação Princesa Isabel, os racistas no futebol brasileiro, onde se perdoou os retirados ataques racistas, em especial, pelo presidente do Conselho deliberativo do Brusque, Júlio Antônio, ter chamado o jogador Celsinho, do Londrina, de “macaco” em 28 de Agosto, em partida válida pela série “B”, devolvendo a pontuação a equipe.

Hoje é dia de luta, reflexão e ação! A cidade de Santos/SP, que anteriormente já teve como secretário-adjunto de Turismo, Adilson Durante Filho, flagrado num áudio num grupo de diretores do Santos Futebol Clube numa fala racista, a transcrever: “pardos e mulatos brasileiros são todos mau-caráter”, entre outras afirmações, mostram que a secretaria de turismo da cidade não é ré primária nesse tipo de ação que configura, salvo melhor juízo, mais um ato de racismo estrutural.

No dia da consciência negra, Santos vai celebrar a vinda do imigrante branco!!!! ZUMBI, DANDARA, MARIGHELLA e o ALMIRANTE NEGRO se reviram nos túmulos! Esse é o resumo da ópera, mais um ato de racismo estrutural na chamada terra da liberdade.

Só podemos concluir que ainda teremos muito o que lutar para viver o sonho de liberdade e igualdade estampado no discurso de Martin Luther King, de 28 de agosto de 1963. Teremos muito que marchar para concretizar as reinvindicações da primeira marcha da igualdade racial, onde 30 mil pessoas marcharam no dia 20 de novembro de 1995, em Brasília. Santos/SP, 2021, mostra que pouco avançamos nesses 26 anos!

Flávio Viana – Pesquisador do assunto, o advogado, professor e historiador Flávio Viana Barbosa, que também é membro da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra e da Comissão da Igualdade Racial da OAB-Santos.

Crédito da foto: Diário do Litoral