O teatro circundante absorve-nos numa inefável sintonia com sirênicos sons e cambiantes texturas de cores, capturados e eternizados – feito arena de ressonância – no catártico palco que nos faz oscilar em freqüência e pinceladas tangidas pela História: para descrevê-lo seria necessário fixar o relâmpago (..)”, como diria o célebre Brás Cubas machadiano…
A febre, num átimo, revive a “Casa Grande, completada pela senzala” (Gilberto Freyre); a “Casa Grande e sua sombra projetada sobre a senzala” (Raymundo Faoro); “as mãos e os pés” (Pe Antonil, 1650-1719) e Capitães-do-mato; Sinhôs e Sinhás; Coronéis e Guarda Nacional; Conde do Pinhal (1827-1901) e Visconde Cunha Bueno (1830-1903); o Prudêncio de episódio insólito do clássico de Machado de Assis (1839-1908) e Manoel Candido de Oliveira Guimarães (?1826-1881), proprietário da versão são-carlense do mercado do “Valongo” (mercado de escravos no Rio de Janeiro) – a Faz Babilônia; Zumbi e Pai João; Caifases e “Petroleiros”; Guerra do Paraguai e Voluntários da Pátria (1865-1870); Luzias (Partido Liberal) e Saquaremas (Partido Conservador); Republicanos e “barretes frígios de coar café” (Raul Pompéia, 1863-1895); “Mães Pretas” e “Partus Sequitur Ventrem”; Lei do Ventre Livre (1871) e “batalha em torno dos túmulos” (1885) (Joaquim Nabuco, 1849-1910); Navios negreiros e “pipas de água salgada” (Pe Lopes Gama, 1791-1852); Lei Feijó (1831) e Lei Eusébio de Queirós (1850); Luis Gama (1832-1882) e Antonio Bento (1843-1898); “polvo com seus milhões de tentáculos” (Monteiro Lobato, 1882-1948 ) e “grãos de topázio e rubi” (Osório Dutra); “Neoaristocracia do Café” (Gilberto Freyre) e “II Civilização do Café” (Caio Prado Jr, 1907-1990); tumbeiros e comboios de Caeteté (Província da Bahia); “Rua do Valongo” e Faz Babilônia; Negros-do-mato e Quilombo; Sesmaria do Quilombo, Rio Quilombo e Faz Quilombo; ” sucedâneos fisiológicos das máquinas” (Florestan Fernandes, 1920-1995) e “infeliz herança” (Princesa Isabel, 1849-1921); Barão de Cotegipe (1815-1889) e Rui Barbosa (1849-1923); Condessa do Pinhal (1841-1945) e Balbina; Alexandrina Melchiades de Alckimin (?-1878) e Joaquina; Fazenda Santa Eudóxia e Fazenda São Roberto; João Candido Gomes (?-1896) e Sabino Soares Camargo (1836-1904); D.Pedro II (1825-1891) e Visconde de Taunay ( 1843-1899); o feitor Felício (?1845-?) e os “figurantes mudos” (Sérgio Buarque de Holanda, 1901-1982 ); “Ingleses do Sr Dantas” (Barão de Cotegipe, 1815-1889) e “Junta do Couce”; a casinha da “mãe preta” ainda existente (certamente uma raridade !) na “Casa do Pinhal” …
Acodem-nos a régua e o compasso do “mestre de Apipucos” – Gilberto Freire – que, discorde-se ou não de suas conclusões, disponibilizou instrumentos de grande valia para empreender-se estudos sobre a questão:
“(..) Nas Casas Grandes foi até hoje onde melhor se exprimiu o caráter brasileiro, a nossa continuidade social. No estudo de sua história íntima despreza-se tudo o que a história política e militar nos oferece de empolgante por uma quase rotina de vida; mas dentro dessa rotina é que melhor se sente o caráter de um povo. Estudando a vida doméstica dos antepassados sentimo-nos aos poucos nos completar; é outro meio de nos sentirmo-nos nos outros – nos que viveram antes de nós, e em cujas vidas se antecipou a nossa. É um passado que se estuda tocando em nervos, um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos (..) “.
E há ainda muitos destes monumentos no município: Faz Santa Eudóxia, Faz Santa Maria, Faz São Roberto, Faz Santo Antonio, Faz Itaguaçu, Faz São Joaquim, etc. etc.. constituindo um notável patrimônio histórico !.
Nas notas do posfácio de “A Marcha – Romance da Abolição” que tem como tela a epopéia dos caifases liderados por Antonio Bento de Castro e Souza e o processo final de entropização da “enorme muralha mongólica da escravidão” (Rui Barbosa), a pena e tinta de Afonso Schimdt (1890-1964) apreende e captura o sentimento que perpassou a elaboração de “Documentos para uma história da escravidão em São Carlos do Pinhal”, filtrados aos Acervos da Cúria Diocesana, Fundação Pró-Memória e Cartórios de São Carlos: “(..) Quando comecei nas canastras da História, encontrei tanta coisa bonita que até fiquei com pena de estragar o assunto (..)”.
Nestes documentos a presença do escravo no cotidiano de São Carlos do Pinhal. É este o receio que ainda nos assoma quando empreendemos o estudo sobre a versão carlopolitana da Casa Grande & Senzala.
E, mais, urge autor afortunado de “rica e iluminante palheta”, como diria Monteiro Lobato, no trato das palavras, provido de instrumental curtido, lavrado e destilado no exercício literário e capaz de avançar nas trilhas abertas por Rubens Amaral (1890-1974) em Terra Roxa (1934) que tem como tela de fundo uma versão são-carlense da ” II civilização do café”.
A saga em território que em tempos pré-colombianos, reza a literatura, foi trilhado por guaianás e caiapós (bilreiros); região que, informa a tradição – e acusam os topônimos Sesmaria e Rio do Quilombo, Ribeirão dos Negros – teria no último quarto do século XVIII homiziado um nicho quilombola de cerca de 120 almas; de posseiros e sesmeiros; das Sesmarias do Monjolinho, Pinhal e Quilombo; da “Fazenda de Criar” do consórcio (1816-1824) de Nicolau Pereira de Souza Vergueiro (1778-1859) e Brig Luiz Antonio de Souza Queirós (1760-1819) à “marcha do incêndio verde” (Ary Pinto das Neves); das “máquinas de carne e osso” (Lopes da Gama) de todos os rincões do Império consumidas no valongo carlopolitano; do trânsito da baronia à fazenda capitalista; do “cafezal da senzala ao cafezal da colônia” (Warren Dean); do “complexo senhorial-escravocrata à ordem social competitiva” (Florestan Fernandes), enfim, de um microcosmo da História do Brasil que precisa ser conhecido e divulgado como patrimônio e capital social são-carlense (sem Pinhal desde 1908) é um trabalho que urge.

Marco Antonio Leite Brandão