Itapecerica da Serra/SP – A demonização dos cultos de matriz africana fazem parte da cultura que sedimenta a estrutura da sociedade brasileira e que atende ao interesse da elite econômica que se beneficia da supremacia racial. A opinião é do jornalista, licenciado em Letras, bacharel em Direito e sacerdote Walmir Damasceno, 51 anos, o Tata Kwa Katuvanjesi, iniciado há 40 anos no Candomblé-Angola e fundador do ILABANTU –Instituto Latino Americano de Estudos Tradicionais Bantu.

É dessa forma que ele explica o fato de grande parte dos negros brasileiros – paradoxalmente os de menor renda e que estão abaixo da linha de pobreza – engrossarem os cultos evangélicos, especialmente, os que satanizam as religiões de matriz africana.

“Vemos aí um processo de descaracterização do sujeito e, embora estejamos falando da realidade brasileira, é de conhecimento público a rápida e crescente expansão das igrejas evangélicas em países da África. Depois de tanto ouvir que as práticas adotadas por seus ancestrais eram demoníacas, estes povos acabaram por incorporar esta noção como sendo verdadeira, criando aí uma ruptura com suas próprias origens”, afirma.

Para discutir esses e outros temas, o jornalista e sacerdote realizará o Seminário “Conversa de Terreiro: Ressignificando a História e a Cultura Africana e Afro-Brasileira na Escola", no próximo dia 08 de março, das 10 às 19h, em Itapecerica da Serra.

Ele é o coordenador geral do Seminário que tratará de temas como “Perseguição aos cultos afro-brasileiros uma nova espécie de holocausto?” que terá na mesa a professora Rosiane Rodrigues, jornalista, com especializaçãoem História do Holocausto pelo Museu Yad Vashen (Jerusalém, Israel), pós-graduada em Educação para as Relações Étnicorraciais e Mestra em Antopologia pela Universidade Federal Fluminense. Rodrigues é colunista de Afropress. (Confira a programação abaixo)

Segundo Damasceno, a forte presença entre evangélicos negros que satanizam o candombolé nas suas várias vertentes deve-se ao “pouco acesso à educação de qualidade, uma vez que as escolas formam força de trabalho e não pensadores ou formadores de opinião”

“Se juntarmos isto com a falta de conhecimento sobre suas origens, sua identidade e, é claro, a pressão social, teremos aí cidadãos propensos a aceitarem como verdade o que lhes é impostos de forma tão veemente, disfarçados sob as promessas de “vidas vitoriosas e prósperas”. Afirmou.

Veja, na íntegra, a entrevista concedida pelo jornalista e sacerdote ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress – Qual o objetivo da Conversa de Terreiro e da escolha desse tema especificamente?

Walmir Damasceno – O projeto “Conversa de Terreiro” surge da necessidade de diálogo e, sobretudo, de mobilização por parte dos povos de religiões de matriz africana, não somente abrangendo questões relacionadas ao âmbito religioso, mas também discutindo questões relevantes, tal como o combate ao racismo e a discriminação ainda intrinsicamente ligados a nossa sociedade atual.

A Lei 10.639/03, que determina a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no ensino fundamental e médio, nas escolas públicas e privadas, foi sancionada em 2003 e hoje, onze anos depois, percebemos que embora exista, a lei não é cumprida, ou é de forma superficial e desinteressada.

Basta olhar os livros de história, em que o negro é colocado, em sua maioria, apenas como “escravo”, ignorando-se a sólida contribuição dos povos oriundos da África na constituição identitária do país.

Casos como o dos 13 alunos evangélicos do Amazonas, que se recusaram a fazer um trabalho escolar sobre a cultura afro-brasileira, alegando que o trabalho fazia apologia ao “satanismo e ao homossexualismo”, ou do aluno de uma escola pública de São Paulo, praticante do Candomblé, perseguido pela professora evangélica (embora o proselitismo religioso nas unidades estaduais seja vetado) e pelos colegas por se recusar a participar das orações impostas em sala de aula, apesar de inaceitáveis, continuam acontecendo todos os dias.

Daí a necessidade de mobilizar a sociedade e discutir esse assunto de suma importância, por entendermos que a educação é uma poderosa ferramenta na formação de cidadãos conscientes.

Afropress – O Instituto recebeu algum apoio de alguma instituição para realizá-lo?

WD – Esta é uma ação totalmente autônoma por parte do ILABANTU/ Nzo Tumbansi. Aí reside outro grave problema que atinge grande parte dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana: a falta de apoio.

Grande parte das mobilizações realizadas pelos povos de terreiro, movimentos negros ou quaisquer grupos que reivindiquem seus direitos é enxergado pela sociedade preconceituosa como sendo uma “busca por privilégios”, noção essa totalmente deturpada, uma vez que estas mobilizações não aconteceriam caso vivêssemos em uma sociedade justa e igualitária. As mobilizações cumprem aí um papel importante, mostrando que existem, sim, demandas é que se faz necessário dar-lhes a devida atenção.

Afropress – Como tirar esse tema do nosso círculo restrito e torná-lo acessível a toda a sociedade, que ainda vê as religiões de matriz africana com certa estranheza?

WD – Aqui temos várias questões. Primeira: Dizer que a sociedade enxerga as religiões de matriz africana com “certa estranheza” é ser, no mínimo, muito generoso! Sabemos do processo ao qual os povos trazidos forçosamente de sua terra para serem escravizados foram submetidos ao longo dos anos, em que sua identidade, sua crença e suas origens foram inferiorizadas, agredidas e desrespeitadas. Por conta das perseguições, os praticantes das religiões de matriz africana permaneceram ocultos, escondendo-se dos olhares acusadores. É claro que é importante que esse tema se torne de conhecimento público da sociedade em geral, mas antes disso é preciso que nós, povos de terreiro, tomemos consciência de que não precisamos mais viver na clandestinidade e que sim, temos papel importante na construção de uma sociedade mais igualitária. Não é fácil competir com os perseguidores, donos de grandes veículos de comunicação, motivados muito mais pelos retornos financeiros do que por suas convicções religiosas. Desta forma, para que se criem estratégias mais abrangentes, é preciso uma apropriação maior do tema por parte de todos nós.

Afropress – Como explicar a expressiva presença de evangélicos entre os negros mais pobres, especialmente, e, em contrapartida, a grande quantidade de pais e mães de santo brancos?

WD – Da mesma forma que o racismo que constitui grande parte da estrutura da sociedade brasileira foi composto por ideais que a elite economicamente dominante estabeleceu através da chamada “supremacia racial”, a demonização dos cultos de matriz africana cumprem também este papel. Vemos aí um processo de descaracterização do sujeito e, embora estejamos falando da realidade brasileira, é de conhecimento público a rápida e crescente expansão das igrejas evangélicas em países da África. Depois de tanto ouvir que as práticas adotadas por seus ancestrais eram demoníacas, estes povos acabaram por incorporar esta noção como sendo verdadeira, criando aí uma ruptura com suas próprias origens.

É um grande ciclo, muito mais amplo do que as simples estatísticas. Grande parte da população afrodescendente brasileira tem pouco acesso à educação de qualidade, uma vez que as escolas formam “força de trabalho” e não pensadores ou formadores de opinião. Se juntarmos isto com a falta de conhecimento sobre suas origens, sua identidade e, é claro, a pressão social, teremos aí cidadãos propensos a aceitarem como verdade o que lhes é impostos de forma tão veemente, disfarçados sob as promessas de “vidas vitoriosas e prósperas”. É claro que não devemos generalizar, afinal de contas não são questões axiomáticas. O mesmo se aplica aos pais e mães de santo brancos.

É impossível apontar com precisão os motivos do crescente número de sacerdotes brancos em religiões de matriz africana, porém, considerando que a África seria “o berço da humanidade”, há de se crer que eles tenham se conscientizado acerca de sua ancestralidade, comum a negros e brancos.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

WD – Muito se tem avançado no tocante ao combate ao racismo, mas há de se considerar que ações isoladas nunca terão a força de um trabalho desenvolvido em longo prazo. Conscientizar desde a infância sobre estas questões de certo minimizará os estragos já causados por longos anos de preconceito. Encerro com uma das célebres frases de Tata Madiba (Nelson Mandela), que traduz com maestria, de forma simples e direta, no que cremos e o que nos motiva: "Ninguém nasce odiando outra pessoa devido à cor de sua pele, á sua origem ou ainda á sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E, se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar".

Confira a Programação:


CONVERSA DE TERREIRO: RESSIGNIFICANDO A HISTÓRIA E A CULTURA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA NA ESCOLA

DIA: 8 de março de 2014

HOrário: das 10h às 19h

Comunidade Tradicional de Matriz Africana Bantu – ILABANTU

Rodovia Armando Salles, 5205 – Recreio Campestre – Itapecerica da Serra/SP

Programação:

10 horas – Abertura Tradicional

Coordenação Geral:

Walmir Damasceno – jornalista, especialista em Relações para Educação Etnico-Raciais e Africanidades, graduado em Direito pela Universidade São Marcos (SP), fundador do Instituto Latino Americano de Tradições Afro Bantu(Ilabantu), Assessor de Politica de Promoção da Igualdade Racial do Gabinete do Prefeito de Itapecerica da Serra/SP

10:15 horas – Conferência Especial: Marga Janete Stroher – Assessoria de Direitos Humanos e Diversidade Religiosa – Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos- Secretaria de Direitos Humanos/Presidência da República

10:30 horas – Mesa 1 – Perseguição aos cultos afro-brasileiros uma nova espécie de holocausto?

Coordenadora: Veridiana Machado – Makota Maiangansi – Terreiro Tumbansé/ Salvador-Ba. – Mestranda em Psicologia na FFCLRP/USP

Professora Mestra Rosiane Rodrigues, jornalista, com especialização em História do Holocausto pelo Museu Yad Vashen (Jerusalém, Israel), pós-graduada em Educação para as Relações Étnico-Raciais e Mestra em Antropologia pela UFF/RJ.

Mesa 2 – Saúde Pública e o Povo-de-Santo

Coordenadora: Dra Eunice Kitamazi N ganga – Médica Sanitarista

Professor Deivison Nkosi – Professor, Graduado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Santo André (2005); Mestre em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina do ABC (2010) e Doutorando em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFSCAR (PPGS-UFSCAR). Tem experiência nas Áreas: Relações Raciais e Racismo com ênfase em Educação Para as Relações Étnico-Raciais e Saúde da População Negra; Já atuou em projetos de Prevenção às DST/AIDS, Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, Combate ao Racismo Institucional, Africanidades e Movimento Hip-Hop.

11:00 horas – Apresentação Cultural – Kwê Mina Odan Axé Boço Dá-Hô – Mãe Sandra de Xandantã

11:30 horas – Mesa 3 – Experiências escolares no ensino das religiões de matriz africana

Coordenador: Professor Mauricio Mutadiamy Santos – Instituto de Educação Mwana Zambe

1. Professor Doutor Otair Fernandes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ/Campus Nova Iguaçu, Professor Adjunto do Departamento Educação e Sociedade (DES), Coordenador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Leafro/UFRRJ), Grupo de Pesquisa Educação e Relações Étnico-Raciais (GPESURER), Pet/Conexões de Saberes: dialogando e interagindo com as múltiplas realidades e saberes da Baixada Fluminense/RJ.

2. Professora Rachel Rua Baptista Bakke Doutora em Antropologia pela USP, o título do trabalho é Na escola com os Orixás o ensino das religiões afro brasileiras na aplicação da lei 10.639.

3. Professor Milton S. Santos – Doutorando em Antropologia Social, UNICAMP.

12:30 horas – Almoço Tradicional

13:00 horas – Apresentação Cultural Grupo Deodara

Mesa 4 – O espaço sagrado e profano nas religiões de matriz africana

Professor Jonathan Marcelino Graduado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (2010). Mestre em Geografia Humana/política pelo Programa de Pós Graduação em Geografia Humana do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo USP (2013). Ex- pesquisador/associado ao programa CNPQ (2010-2013). Atualmente é professor do departamento de Geografia e História da Universidade Anhanguera Educacional (SP), e professor de Geografia efetivo da Rede Municipal de Educação de São Paulo lotado nas unidades educacionais EMEF Jornalista Millôr Fernandes, e EMEF Zulmira Cavalheiro Faustino. Experiência na área de Geografia, com ênfase em Geografia Social, e Geografia dos Movimentos Sociais atuando principalmente nos seguintes temas: Ativismos Urbanos, Mobilização política, organização das cidades, e ordenamento do espaço urbano. Estudos com abordagem em questões étnico-raciais, Geografia e Ensino com foco na articulação das Leis 10639/03 e 11645/08, Geopolítica do Continente Africano, território e territorialidade negra, e Diáspora Africana.

Mesa 5 – O olhar antropológico sobre as Religiões de Matriz Africana

1. Professora Patrícia Ferreira e Silva mestre em Antropologia Social (USP), pesquisadora do CERNe (USP).

2. Professor Edson Kakolo, Engenheiro (Universidade Jean Pieget, Benguela, Angola), Membro da Sociedade Tradicional Chaya Kokue, Saurimo, Lunda-Sul/Angola.

Mesa 6 – Os estudos bantos no âmbito dos estudos de africanidade religiosa no Brasil

Professor Doutor Sérgio Paulo Adolfo, professor assistente da Universidade Estadual de Londrina/PR – Taata Kisaba Kiundundulu, do Nzo Tumbansi, Conselheiro do ILABANTU.

 

Da Redação