Declarando-se – com a mesma ironia do célebre “pé na cozinha” do então presidente Fernando Henrique – um afro-descendente sem “melanina suficiente” para receber “as proteções que a maioria das minorias hoje desfruta no Brasil”, o sempre jovial Nelsinho nos faz refletir sobre o problema que é a classificação etno-racial neste país “desracializado”.
Enquanto, aqui, o grau de descendência africana se mede quase que sempre pela cor da pele (a ponto de algumas pessoas, apesar das evidências familiares, se autodeclararem “brancas”, como o fez o fenomenal craque Ronaldo, pouco tempo atrás), nos EUA, como lembramos repetidas vezes, qualquer pessoa com um mínimo de africanidade em sua herança genética, é um negro.
E foi essa objetividade, embora chocante para a realidade brasileira, que levou os afro-descendentes de lá, efetivamente uma minoria, a ter clareza quanto ao alvo de suas reivindicações por igualdade e promoção social, e a chegarem à mobilidade ascendente que, em termos gerais, conquistaram.
Nascido na alta classe média urbana brasileira há 64 anos, Nelson Cândido Motta Filho, ao que sabemos, teve todas as oportunidades e jamais encontrou barreira em sua trajetória de sucesso. É jornalista, escritor, compositor, produtor de discos e de shows, e, ao que supomos, um homem rico.
Por seu histórico familiar e pelas características da sociedade brasileira, as possibilidades de ele nascer com “melanina suficiente” seriam ínfimas. Mas se, por um acaso, ele tivesse nascido negro, no Brasil, antes de tudo, ele não seria parte de uma minoria. E sua vida, mesmo iniciada em berço esplêndido, certamente não seria assim tão plácida (grandes jornais, editoras fortes, projetos sempre viabilizados); e ele, aos 64 anos, com certeza, não seria tão “lindo, leve e solto” como é.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes