Quando se pensa em representação partidária, são membros filiados a partidos. No Conselho da Criança e Adolescente, Tutelar são pessoas ou entidades com tradição nestas áreas. Quando se pensa em OAB, vem a cabeça, Advogado. Até em instancias mais simples é possível ver a organização e legitimidade. Por exemplo, Conselho de escola, tem representantes de alunos, pais, professores, especialistas e funcionários.
No entanto, no Movimento Negro Campineiro, quem aparecer primeiro é nosso representante, indo contra todo o significado exposto acima. Existe um percurso natural e democrático – primeiro você apreende, ensina, acerta, erra e depois com o acúmulo de seus erros e acertos, se transforma em referência. Entendo que o processo em Campinas é diferente: quem nos representa não constitui ou constituiu história no movimento negro.
Que referências são estas que transformam o movimento negro em Inércia Negra, pois os que se dizem representantes não se movimentam? A velha cara racista da última cidade a libertar os negros escravizados e suas estratégias de omitir a história do negro. Aparece sempre uma pessoa do nada para construir, como se não tivéssemos construído nada. E depois de um periodo desaparencem sem deixar vestígio e sem construir nada. É absurdo, em pleno século XXI, negros serem representados por brancos.
Em Campinas, por exemplo, até hoje a Lei Federal 10.639/03, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei 9394/96) não foi implementada e quando a Secretaria de Municipal de Educação é questionada, sua resposta é: temos o Projeto MIPID, coordenado por 5 professores da rede municipal, para desenvolver o trabalho de racial.
Trabalhei em mais de 10 escolas da Rede Municipal de Campinas, que nunca ouviram falar de MIPID; sabiam que tinha professores há mais de quatro anos liberados para trabalhar com a questão racial, no entanto, nunca apareceram nas escola em que trabalhei. Enfim, nenhum programa minimo racial substitui a Lei 10.639/03, apenas a discriminação cordial, e para esta discriminação ocorrer é necessário cúmplices.
Quando se questiona o Governo sobre a falta de visibilidade do negro nas administrações municipais, eles indicam a CEPIR. E Secretários de Governos, por que não há negros? Por isso a necessidade de um Conselho com postura e atitudes governistas, partidária e sindicalista, este tipo de Conselho não é propositivo e sim controlador do movimento negro.
Como dizia meu excelente Prof. Luis Carlos de Freitas, ” É a armadilha do sistema”. Quando esta discussão é destacada, qual a velha-nova estratégia, os mais inexpressivos e sem compromissos com nossa comunidade se colocam como porta-vozes para tentar desviar a questão politica, sempre remetendo ao campo pessoal. Mas, no caminho pessoal a argumentação e fundamentação são fracas, sem sustentação, sem fundamentação.
Diante disso se escondem, desaparecem e silenciam. E isso é a nível nacional. Vejam os fatos do genes, das cotas, da Ministra Matilde, quando começamos a responder com fundamentações prática e teórica, eles encerram a discussão.
A discussão racial no Brasil não passa pelo gene, mas pelo político. Eu sei que muitos de nós estamos cansados, às vezes desanimados, com a interferência e traição de partidos políticos, sindicatos e governos. Mas, vejam o quanto construimos. Colocamos nossa discussão em pauta internacional, existe uma preocupação nacional positiva e negativa, mas existe. Não se pode ignorar mais nosso poder de mobilização como movimento negro e tudo isso é fruto de nosso trabalho.
Lembram de meados dos anos 80 e início de 90? Como era difícil discutir a questão racial e eram uma dúzia que fazia esta discussão aqui em Campinas, chamados de radicais e, creio que nas décadas anteriores deveria ser pior ainda, segundo relatos de meus pai, mãe, avô, avó. Construímos nesta cidade. Quantos formamos nesta trajetória e quantos continuamos formando? Tudo isso por sermos radicais, que significa: ir a raiz da questão, ao fundo da história, nas entrelinhas. E vem um qualquer dizendo que quer construir, já está construído. Quero ampliar e, desta vez, não quero nenhuma Princesa Isabel tirando o brilho de nossa conquista. É pedir muito?
Os representantes dos judeus, italianos, japoneses, só para citar algumas comunidades, são representados por pessoas de tradição destas comunidades. E por que nós temos que ser tão abertos? Eu tenho divergência com algumas lideranças negras, nem por isso eu vou negar a história de luta destas, assim como tenho minhas divergências profissionais e acadêmicas, nem por isso sou expulso do trabalho ou da universidade.
Assim como Lula tem divergência com FHC. Temos que discutir nossas questões, assim como outras comunidades discutem, internamente, sem presença de estranhos que não compreendem nossa questões. Nossos conselhos não são espaços de aprendizagem para eles e que na maioria das vezes estão em nossas reuniões para nos fiscalizar. Aprendizagem é no movimento, na luta do dia a dia, não em Conselhos. Briga tem no congresso, no senado, nos governos. Por que sempre que chega um sindicalista ou militante de esquerda dizem que só brigamos?
Eu não me lembro de nenhum fato de agressão fisica em nossas reuniões. Mas lembro disso no congresso, governos, sindicatos, senado, tudo documentado em jornais e pelos telejornais. E mais uma vez alerto: estamos ficando em minoria em nosso próprio Conselho. Não estou aqui criticando branco por cor da pele, mas sim, pela ideologia. Critico os brancos assim como os negros que caem de para-quedas neste Conselho e em nosso movimento e sua ideologia branca caquética, arcaica e desconstrutora.
A questão do negro é de responsabilidade nacional, mas o movimento negro é nosso, é negro. Se outras comunidades preservam suas intimidades políticas, culturais, por que não podemos preservar a nossa? Qual é o nosso medo?
Uma vez eu e Chiquinho da Boa Vista, em uma conversa com o Prof. Florestan Fernandes, tínhamos posições diferentes da dele e ele respondeu mais ou menos assim: “vou pensar por este ângulo, vocês tem razão em discordar. Eu não posso sentir o que vocês sentem, posso ser solidário”. Esta frase é fundamental para mim, e compreendi sua grandiosidade. Eu não posso falar pelos indios e mulheres, mas ser solidário e apoiar sua luta, pois, a dor que este grupo sente é diferente da minha e não há porque duvidar ou dar versões da dor que não se conhece. Fui excluído do Conselho da Comunidade Negra de Campinas, e todas entidades conselheiras presentes ou não na reunião da exclusão, são responsaveis. Silêncio…
Diante de um processo em que um dos conselheiros definiu muito bem, “sindical”. Sem direito a processo, defesa, argumentação. Resolvido em menos de uma hora, de forma colonial, autoritária. Meu decoro foi: querer ser representado por negros e negras com história e tradição. Este é o nosso país, o negro sempre é culpado e sem julgamento. Alguém se lembra do Presidente Lula ir a TV e defender a então Ministra Benedita da Silva ou a atual Ministra Maltide, como fez com o Senador Renan Calheiro e com outros envolvidos com escândalos politicos?
Em nenhum segmento a pessoa chega como liderança, liderança é fruto da história e não de indicação. Mas aqui em Campinas é diferente. E apesar de admirarem meu trabalho, como colocado diversas vezes, extrapolo e me transformo em racista e criador da divisão racial, praticando decoro no Conselho por querer ser representado por negros e negras com história e tradição. O crime que ocorreu com o garçon em São Paulo atacado por Punks e com a senhora trabalhadora doméstica e o jovem negro atacado no posto de gasolina no Rio de Janeiro, não tem fundo racial? Quem criou a divisão favela asfalto? Quem impede o acesso do negro na Universidade Publica? Quem transmite e ensina a intolerância racial? Onde esta o negro na mídia?
Por que não existe este tipo de critica a comunidade que tem bairros próprios, mantem a língua estrangeira, atividades fechadas? Por que temos que ser abertos?
Acabou a fase “sim sinhô, não sinhô”. Temos urgência em discutir e apoiar o Estatuto da Igualdade, que é uma luta sim, do Movimento Negro. E creio que só através de politicas públicas e compensatórias para nossa comunidade conseguiremos construir um número maior de lideranças com pensamento autônomo de sindicatos, partido e governos, seja ele de esquerda ou direita. Lideranças que, com compromisso com nossa comunidade, saberão que chegaram a tal posição graças à luta de mais de 500 anos de uma comunidade. E para isso temos que mobilizar nossa juventude, nossa comunidade, discutir no Conselho, com nossa bandeira, não bandeira emprestada. Nossa bandeira.

Carlos Kiss