Desde as primeiras manifestações de protestos, ocorridas na cidade de São Paulo, liderados pelo Movimento Passe Livre, que a atuação das Polícias Militares, vem sendo fortemente questionada em todo o país, e por quase todos os envolvidos, e em alguns momentos até mesmo por membros das próprias corporações.

Ora agindo com brutalidade e violência, ora literalmente cruzando os braços, como se estivessem a dizer “está vendo aí o que acontece quando nós não batemos”, esta atuação errática e oscilante intrigava a todos. E claro, muita gente passou a desconfiar que a violência e a baderna nas manifestações só interessavam a quem desejava desqualificar e inibir a presença da juventude, que  de forma anárquica e espontânea manifestava sua insatisfação contra “tudo isto que está aí”.

Pois bem, após insistentes denúncias dos mais variados grupos de manifestantes, descobriu-se, com fartas provas, que muitos dos chamados “vândalos” eram na verdade agentes policiais infiltrados. Mais que isto, que participavam ativamente das depredações, agressões e até mesmo atentados aos seus próprios colegas de farda.

Até aí, tudo bem, esse é o chamado trabalho de contra espionagem, que em todo e qualquer conflito se faz presente, ainda mais, quando afeta os governantes.  Mas, com a ampliação e intensificação das manifestações e a entrada dos jovens da periferia nos protestos, as coisas se complicaram mais ainda e a face bruta da discriminação, racismo e preconceito com que setores do Estado brasileiro tratam seus cidadãos se mostrou na plenitude.

Neste sentido, dois fatos chamaram a atenção: o primeiro, o assassinato de 10 jovens no Complexo da Maré, quando, imaginando-se iguais aos jovens brancos da zona sul carioca manifestavam-se pelas ruas dos bairros, cometendo as mesmas bobagens que os chamados Black Blocks, vem fazendo no centro da cidade.

Mas dessa vez, o resultado foi bem diferente: em vez de balas de borracha, sprays de pimenta e bombas de gaz lacrimogênio, foram violentamente atacados com balas de verdade e sumariamente assassinados pelos agentes do Bope, além da invasão de inúmeras casas, espancamentos dos moradores e um verdadeiro toque de recolher na região.

Como justificativa, para a violência das suas ações, a polícia os acusou, imediatamente, de serem traficantes, como se traficantes (se o fossem) não tivessem direito a serem presos, julgados e condenados, se for o caso.

Mas, outro fato, gravíssimo, veio por a nu a prática criminosa com que a Polícia Militar do Rio de Janeiro, age no seu dia a dia. O sumiço do ajudante de pedreiro, Amarildo Dias de Souza. Detido, para averiguações na Unidade de Polícia Pacificadora, da Rocinha.

Confundido com um possível traficante, o pedreiro, simplesmente desapareceu, após prestar depoimento e provar que era um trabalhador honesto e pai de seis filhos. Tomados de indignação, sua família, vizinhos e parcela significativa dos jovens manifestantes e inúmeras entidades e instituições de defesa dos direitos humanos, literalmente botaram a boca no mundo e usando as redes sociais desnudaram a falácia com que o governo do Rio de Janeiro, vem enfrentando a questão da segurança no estado.

A campanha que começou com o “Cadê o Amarildo?” ganhou força, correu mundo e colocou o Governo carioca na parede.

Embora esta seja uma prática corriqueira nos bairros pobres e carentes do país, em que os órgãos de segurança do Estado são os senhores da vida e da morte, (fazendo o mal, sem distinguir a quem) seqüestrar, assassinar e sumir com o corpo, é nada mais, nada menos do que terrorismo de Estado, seja quando é cometido contra jovens idealistas da classe média, como no período da ditadura militar, seja contra pobres trabalhadores, como ocorreu na Rocinha.

Por isto, que afirmei, em artigo recente, neste mesmo espaço, de que ou a sociedade adota medidas sérias e profundas para a reestruturação das Polícias Militares no país, ou estaremos pondo em risco o estado democrático de direito, tão arduamente conquistado.

Neste sentido, o caso do Amarildo é tão emblemático, que sua família e a sociedade como um todo, não tem mais dúvidas e não mais reivindicam o retorno do trabalhador ao lar, querendo saber, apenas, quem o matou. E convenhamos, é ou não, segredo de polichinelo, identificar quem prendeu, matou e sumiu com o corpo do Amarildo?

Axé

Toca a zabumba que a terra é nossa!

* O artigo foi retirado do Blog do Zulu, do Portal Terra, e é postado em Afropress com autorização expressa do autor.

Zulu Araújo