Em entrevista à Afropress, Jurema, 48 anos, fundadora e coordenadora geral da ONG Criola – Organização de Mulheres Negras do Rio – afirma que sua participação na disputa pela presidência do Conselho, no mês passado, foi uma vitória em ocupação de espaço, mas que este não é o final da luta.
O CNS é um órgão permanente que integra a estrutura do Ministério da Saúde e é formado por representantes do Governo, prestadores de serviços, profissionais de saúde e usuários.
“A presença negra no CNS só se justifica pela lutas negras por jutiça, igualdade e pelo fim do racismo. É isso que nos leva e nos mantém por lá. O racismo não acaba pelo voto nem pelo reconhecimento individual. Assim, a luta vai continuar. Agora é hora de seguir em frente e nos prepararmos para as próximas disputas – que não serão por posições, mas por resultados”, acrescenta.
Leia, na íntegra, a entrevista à Afropress
Afropress – Como foi o processo da eleição para o CNS? Como encara a sua derrota por apenas quatro votos para o atual presidente, que foi reeleito?
Jurema Werneck – Foi um processo que envolveu algumas etapas, apesar do curtíssimo prazo em que foram realizadas. A primeira, envolveu a decisão das organizações negras e de mulheres que atuam de forma mais próxima ao tema da saúde, em propor meu nome para a disputa. Uma decisão que não é simples de ser tomada entre negras e negros, ou entre outros grupos,comumente tão descrentes em relação às possibilidades de avanço que temos.
A segunda etapa, quase paralela a essa, envolvia as entidades de usuários (as) do SUS presentes no Conselho, também descrentes, porém desejosos de mais espaço e respeito. A terceira etapa, envolveu as conversas com outros setores de gestores, trabalhadores e da sociedade civil. Tudo em muito pouco tempo. Mas de forma muito bacana e construtiva.
A derrota foi por quatro votos – esta foi a quantidade de votos que não conquistei e que me dariam a vitória. Parece pouco – e de certa forma é. O que traduz uma conquista importante em credibilidade e apoio, uma vez que a representação de usuários (as) do SUS, em especial, uma mulher negra, é cercada de preconceitos. Que, como vimos, em grande medida foram superados em favor de um projeto comum. Estes quatro votos a menos servem também para apontar que temos ainda barreiras a superar. Mas já caminhamos, e isto é bom.
Afropress – Quais eram as suas propostas para o Conselho Nacional de Saúde e como poderão influenciar neste novo momento, uma vez que foi eleita para a Mesa Diretora?
Jurema Werneck – As principais propostas das entidades representativas de usuários (as) do SUS são pela defesa da lei e da Constituição, que garantem o SUS público com obrigações de ser para todas e todos, a partir de medidades de equidade e participação. O que implica reiterar o não que a 13° Conferência Nacional de Saúde e o próprio Conselho nacional deram às propostas de fundação estatal de direito privado, e ainda, de privatização da saúde. E incluía ampliação do sentido de participação democrática, significando mais espaço para as propostas, interesses e necessidades de usuários (as) na agenda do CNS por razões óbvias: somos nós que vivenciamos, de forma mais grave, as insuficiências e dificuldades do sistema. E
mais, a ampliação dos canais de diálogo com a sociedade, com conselhos de saúde nos diiferentes níveis. Buscando, de forma ativa, ouvir também a voz de quem ainda não tem voz nos conselhos de saúde e no SUS como um todo.
Tais pautas farão parte dos debates da mesa direitora e da ação do CNS, não apenas aravés de mim, mas de todas as representações de usuários (as) no conselho.
Afropress – Quais serão os próximos passos no sentido de fazer com que as políticas públicas de saúde levem em conta a presença da população negr ano processo?
Jurema Werneck – Os próximos passos tem a ver com a ação dentro do conselho – aprofundar as ações da Comissão Intersetorial de Saúde da População Negra e do prórpio CNS, e seu diálogo com a gestão. Uma primeira agenda refere-se ao orçamento da saúde para 2010, que não contempla as metas da Política de Saúde da População Negra.
Além da pressão sobre a gestão federal,que terminou 2009 sem atingir qualquer meta proposta pela Política para o período 2008-2009 e nem apresentaou, até o momennto, quanquer justificativa para isto. E também temos que agir do lado de fora, nos caminhos que a sociedade civil sabe muito bem, que o movimento de mulheres negras e movimento negro já estão trilhando e precisam amplliar:pressão, mobilização pela implementação da Política em estados e municípios; disseminação de informações, qualificação de quadros, etc etc. Devemos continuar fazendo política: a defesa de nossos interesses e do que é, por direito, nosso. Não abrir mão da mobilização permanente…2010 será um ano delicado, e temos que ficar atentos (as).
Afropress – Faça as considerações que considerar pertinentes.
Jurema Werneck – Creio que é preciso deixar a mensagem de que tivemos uma vitória em ocupação de espaço, mas que este não é o final da luta. A presença negra no CNS só se justifica pela lutas negras por jutiça, igualdade e pelo fim do racismo. É isso que nos leva e nos mantém por lá. O racismo não acaba pelo voto nem pelo reconhecimento individual. Assim, a luta vai continuar. Agora é hora de seguir em frente e nos prepararmos para as próximas disputas – que não serão por posições, mas por resultados.

Jurema diz, em entrevista à Afropress, que é preciso preparar as próximas disputas.