A população negra representa 54% da população no Brasil. No entanto, passados 128 anos, desde a assinatura da Lei Áurea, continuamos sofrendo as consequências dos mais de 350 anos de escravidão, onde fomos submetidos à perda da nossa identidade, da nossa religiosidade, da nossa cultura e da nossa história. 

Independentemente das circunstâncias em que vivemos, sejam nos regimes mais democráticos ou nos menos democráticos, em todas as épocas, os afrodescendentes brasileiros, sempre foram os primeiros a pagar a conta.  

A elite dominante branca, acostumou-se a imputar aos mais pobres a necessidade destes se sacrificarem para a busca de uma saída menos traumática para toda a nação.

E a história se repete.

Mais uma vez, a "sociedade brasileira" impõe a sua pauta, empurrando-nos "goela abaixo" a necessidade da adoção de “medidas heterodoxas” para o combate do déficit orçamentário e do aumento da inflação.

Implementam mudanças na previdência, flexibilização das leis trabalhistas, terceirização, privatização, limitação do percentual de beneficiados nos programas sociais etc.  

Assistimos de camarote a volta dos velhos nomes da política, as mesmas oligarquias, os mesmos coronéis, os mesmos representantes daqueles que exercem verdadeiramente o poder, controlando a produção, os meios de comunicação, que representam a parcela mais rica da sociedade, usufruindo de privilégios desde que esta nação foi saqueada das mãos dos seus verdadeiros donos: a população indígena.

Em tese, tudo isso acontece no momento em que nós, negros e negras deveríamos estar no melhor momento da nossa representação e organização política.

Até recentemente, estávamos representados pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), que havia alçado o patamar de ministério e que, no entanto, voltou a se tornar secretaria, mediante a necessidade política de redução de despesas.

Tínhamos um CNPIR (Conselho Nacional da Promoção da Igualdade Racial) extremamente atuante, além de participarmos de outros, que dialogavam transversalmente com a temática racial, representados pelas entidades mais atuantes e representativas do movimento negro, com várias lideranças que se reuniam periodicamente em Brasília para debater questões consideradas de fundamental importância para a superação das desigualdades raciais no Brasil.

Continuamos representados por entidades fortes, em vários sindicatos, nas federações, nas confederações e também em algumas das centrais sindicais. 

Na sociedade civil, a nossa força de organização alcançou um patamar elevadíssimo, com o fortalecimento das Organizações Não Governamentais (ONGs). 

O movimento negro está representado nas grandes capitais e também nos principais municípios, através de entidades que atuam historicamente na defesa dos interesses da população negra do país.

Diante deste quadro altamente positivo, onde está o nosso poder de reação?

Qual a capacidade de luta que temos, frente às iniciativas que estão sendo tomadas pelo atual governo?

O nosso grito de “Fora Temer”, será manifestado em que momento? Em qual situação?

A elite dominante branca apresentou a sua pauta, quando ressaltaremos a nossa?

Não seria o caso das nossas maiores lideranças, dos diversos movimentos buscarem uma pauta única para darmos corpo a nossa reação, exigindo o respeito às nossas conquistas, a manutenção dos nossos direitos e a retomada do debate das nossas políticas? 

A construção da nossa trajetória, as nossas lutas e as nossas origens, atestam coerentemente a nossa opção de continuarmos seguindo os passos de Zumbi dos Palmares. 

Repudiando, em alto brado, qualquer tentativa histórica de se repetir a capitulação de Gangazumba. 

 

Marcos Benedito