S. Paulo – “Como pode um vigilante não deixar um cliente entrar no banco, atirar em um cliente? Se fosse um loiro, podia ter gritado na agência que entrava. Como ele é negro, grande, acharam que era um assaltante”, o desabafo indignado é de Vanda Soranso, 60 anos, mulher do aposentado Domingos Conceição dos Santos, de 47 anos, baleado ao tentar entrar em uma agência do Bradesco na quinta-feira (6/05) em S. Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo.
O aposentado usava um marca-passo e apresentou um documento que comprova sua condição – e a impossibilidade de passar pela porta-giratória que bloqueia metais – ao vigilante do banco. Após uma discussão, o segurança sacou a arma e atirou na cabeça do aposentado. O funcionário do banco foi preso.
Constrangimentos e humilhações contra negros nas portas giratórias dos bancos tem sido frequentes, o mesmo ocorrendo com episódios de violência e até mortes, como ocorreu com o ex-jornaleiro Jonas Eduardo Santos de Souza, assassinado na porta de uma Agência do Itaú, no centro do Rio, no dia 22 de dezembro de 2.006, às vésperas do Natal.
Jonas era cliente do Itaú havia 10 anos e foi executado com um tiro no peito pelo segurança da Protege, a serviço do banco, Natalício Marins, depois de uma discussão fútil ao ser barrado na porta giratória.
Atendimento precário
Domingos foi levado inicialmente para o Hospital Tide Setúbal, que é público. No local, não havia neurologista disponível para atendê-lo. A família, então, acionou o plano de saúde. Entretanto, a remoção só foi liberada sete horas depois.
A mulher do aposentado desmentiu a assessoria de Imprensa do Banco Bradesco, de que o banco estaria auxiliando a família. “Ninguém do banco veio nos procurar. Eles podiam ter ajudado a fazer a remoção mais rapidamente. Só às 17h apareceu uma assistente social do banco, que perguntou do estado de saúde dele para o médico e foi embora. Depois, ninguém falou mais nada”, disse.
Segundo o Bradesco, uma assistente social foi colocada à disposição para acompanhar a família do aposentado.
Vanda contou que os médicos do Hospital São Camilo, para onde Domingos foi transferido, disseram que a demora na remoção e na realização de uma cirurgia prejudicaram o estado de saúde já delicado do aposentado.
Cirurgia
Ele passou por uma cirurgia na noite de quinta, e está internado em estado grave e coma induzido. De acordo com Vanda, os médicos disseram que seu marido corre risco de morte. “O médico descartou a possibilidade de ele acordar. Agora é só esperar.”
A mulher do aposentado contou que ele colocou o marca-passo depois que soube ser portador da doença de Chagas, o que tornou a ida a agências bancárias, um problema. “Às vezes olhavam feio para ele, porque a carteirinha é só um papel com um carimbo do hospital. Mas ele sempre conseguiu entrar. Chamavam o gerente e eles liberavam”, conta.
O aposentado recebeu a notícia de que havia conseguido a aposentodoria por invalidez há apenas dois meses e ontem foi a agência para receber pela primeira vez.
Dia das Mães
Segundo a família, Domingos estava muito feliz com a aposentadoria e planejava trocar o carro da mulher. “Ele foi todo feliz ao banco, porque agora era um dinheiro definitivo. Antes não dava para pensar em entrar em uma prestação”, contou Vanda, que trabalhava em banco antes de se aposentar.
Animado, Domingos tinha se programado para passar o fim de semana cozinhando – foi chamado pela igreja que a família frequenta para cozinhar na festa de Dia das Mães. “Ele já ia amanhã [sábado] adiantar o almoço. Ele sempre gostou muito de cozinhar, ficava feliz da vida, se sentia realizado”, contou a mulher.
Casados há 28 anos, os dois moram em São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo, próximo à agência onde ocorreu o crime. Um dos dois filhos do casal ainda vive com os dois – Vanda também tem outras duas filhas de um primeiro casamento.
Agora, a família vai adequar sua rotina à do hospital. Nesta quinta-feira, o plano era passar a tarde no local para fazer as visitas à Unidade de Terapia Intensiva (UTI), na hora do almoço e no início da noite. “A gente sempre acha que isso só acontece na casa dos outros e vem e acontece com a gente”, desabafa.

Da Redacao