Rio – Depois de mais de 12 horas de julgamento o vigilante da empresa Protege, Natalício de Souza Marins, que executou com um tiro no peito, o jornaleiro negro Jonas Eduardo Souza Santos, 35 anos, foi absolvido por quatro votos a três. Os jurados – seis homens e uma mulher – acataram a tese de que o acusado teria atirado em legítima defesa. “Isso foi tão abalante quanto a morte dele”, reagiu Josué Souza, irmão da vítima.
O crime ocorreu no dia 22 de dezembro do ano passado. Jonas, cliente há 10 anos da agência, tentou entrar no banco e foi barrado na porta giratória. Quando conseguiu entrar, depois da interferência do gerente da agência, envolveu-se numa rápida discussão com o segurança, que também é negro, sendo fuzilado com um tiro.
O caso provocou grande repercussão pelo fato de as portas giratórias dos bancos, acionadas por controle manual, terem se transformado em um eficiente meio de discriminação, especialmente contra pessoas negras, quando tentam ter acesso a agências bancárias.
A mãe e o pai de Jonas, respectivamente, a dona Manuela e “seo” Antonio, respectivamente de 65 e 68 anos, acompanharam o julgamento desde as primeiras horas da manhã e saíram arrasados do Tribunal. “Meu pai e a minha mãe estão arrasados. Todos estamos arrasados. Foi como se tivessem matado nosso irmão de novo”, afirmou Josué, acrescentando que “antes mesmo do juiz lê a sentença amigos e familiares do assassino já estavam comemorando”.
O promotor do 2º Tribunal do Júri, também não se conforma e já entrou com recurso pedindo novo júri. “A sociedade, através desse júri legitimou ali que os seguranças podem matar quanto houver discussão nas portas giratórias”, afirmou. Rangel acredita que o Tribunal de Justiça do Rio deve anular o julgamento e determinar a realização de novo júri.
Tensão
O julgamento se deu em clima tenso desde as primeiras horas da manhã. Por volta das 07h30, chegaram vigilantes colegas do assassino na Protege, vestindo camisetas brancas com os dizeres. “Vigilante Natalício, trabalhador. Assassino, não!”.
Segundo o irmão da vítima, a Protege e o Itaú contrataram cerca de 20 seguranças para impressionar os jurados. “Pudemos presenciar, inclusive, que alguns deles foram indo embora, à medida que podiam sacar o dinheiro depositado na conta, correspondente ao dia de trabalho”, denunciou Josué.
Enquanto a sala do Tribunal ficava cheia de vigilantes em defesa do assassino, do lado da vítima apenas familiares do morto estiveram presentes, com camisetas pretas com os dizeres “Justiça por Jonas”. Nenhuma liderança do movimento negro que, logo após a morte chegou a paralisar por um dia a agência onde ocorreu o crime, esteve presente. “O Movimento Negro não estava presente. E claro, a pressão da opinião pública, sobre jurados, em casos desse tipo sempre tem influência no julgamento”, acrescentou.
A Afropress não conseguiu localizar nenhum dos integrantes do Fórum de Entidades criado, no Rio, para acompanhar o caso do jornaleiro morto na Agência do Itaú, para que falem sobre as razões da ausência no julgamento.

Da Redacao