Por que tocamos nesse assunto quando muitos parecem deslumbrar-se com uma presença tímida de negros, nenhuma mulher, no primeiro escalão do Governo do Estado mais negro do Brasil, de apenas três nomes numa constelação de habilidades administrativas, políticas e intelectuais. Alguns até mandarão parabéns ao governo, e nós nessa insistência em tratar do tema da segurança publica.
Tocamos nesse assunto por que temos a responsabilidade política de falar que existe um processo de genocídio em curso patrocinado pelo Estado e que precisamos todos, Governo e Movimento Social, parar a matança. Que o Estado não pode colocar uma força armada e autorizada nas ruas para nos combater e abater como se fôssemos baratas.
A presença da polícia nas comunidades de maioria negra compara-se à presença da Gestapo ou SS nos guetos de Varsóvia sob ocupação nazista. O requinte é esse: Nazista.
Nos porões dos distritos policiais o caos abre suas feridas e fede: prisões arbitrárias, celas superlotadas, péssimas condições de higiene, investigações baseadas em tortura e ameaças como elemento de prova. Grupos de extermínio que circulam com o aval da polícia, quando não é o próprio policial fazendo um bico, matando, fazendo faxina étnica nos guetos baianos a cada corpo apresentado ao dono do armazém. Tudo cruel desumano e degradante.
As entidades dos chamados direitos humanos em silêncio observam, de seu panóptico embaçado e de suas torres de dados pesquisados entre nossos prantos, a contagem dos corpos retro mencionados, corpos pretos… As ONGS dos direitos humanos não choram, tabulam o cadáver para o próximo relatório da financiadora. Nós não reivindicamos nenhuma política de Direitos Humanos universalista para estancar o sangue que jorra de nossas comunidades, temos provas concretas de que se trata de um problema estrutural que direciona todo aparato do Estado para nos enfraquecer e destruir: trata-se de racismo.
Parece não haver saída, mas temos que insistir em nossa luta pela vida. É o que nos resta, temos que reagir à violência racial.
O novo Secretário de Segurança Pública apresentou um esboço de seu plano de trabalho em reportagem a uma emissora de TV baiana. Serão instaladas câmeras de vídeo no Pelourinho para proteger os turistas – aliás, foi com esse desejo torpe e voraz de proteger uma turista européia que o policial militar padrão tentou mostrar serviço ao comandante Santana nas praias de Ondina, pisando a cabeça de um homem negro, com base em uma simples suspeita. Ele, o policial, vai pagar sozinho o preço que deveria ser cobrado de toda a corporação que tem já introjetada uma cultura e um padrão de violência em suas abordagens à população negra.
Isso, o Governador Jaques Wagner, comandante em chefe das forças armadas, Ops… Ato falho! Quer dizer, das polícias, militar e civil, terá que se revirar para encontrar um meio de eliminar o arraigado de suas tropas.
Sugerimos que seja chamado imediatamente um debate público com a sociedade, as instituições e o movimento social para traçarmos um outro modelo de segurança que atenda interesses do povo, da massa e não apenas a defesa do patrimônio de poucos.
O Governador precisa assumir publicamente que o Estado Baiano é racista e que mata negros. O Governador precisa apoiar uma CPI dos grupos de extermínio tão ardorosamente pleiteada pelo deputado Yulo Oiticica do PT e obstruído pelo governo passado. O Governador precisa ouvir nossas vozes nas ruas, pois é lá que estaremos permanentemente mobilizados esperando que a república não caia sobre nossas cabeças, como a matança de Canudos. Ainda que já possamos contabilizar os mortos dessa guerra genocida e racista contra pessoas desarmadas que somos nós, sempre de frente, olho a olho com Tánatos. Portamos uma espada de Ogum que de tudo nos protege.

Hamilton Borges Walê