SÃO LUÍS/MA – A Polícia Civil do Maranhão prendeu nesta segunda-feira (27/12), quatro funcionários do Grupo Mateus, acusados de tortura psicológica, ameaças e cárcere privado de um homem negro acusado de furtar dois quilos de frango.

A vítima, de nome Raimundo, foi mantida por quatro horas dentro de um almoxarifado da rede do Grupo, em Santa Inês, interior do Maranhão.

Foram presos os fiscais de prevenção de perdas do supermercado Lucas Rocha e Levi Araújo, o vigilante Willamy Antonio e e o subgerente do supermercado, Wellington Rodrigues.

Ainda ontem, o juiz de plantão decidiu conceder a liberdade provisória dos funcionários por não terem antecedentes criminais.

PRISÕES

A empresa é uma das maiores redes varejistas de alimentos do Brasil, com mais de 50 estabelecimentos nos estados do Pará, Maranhão e Piauí.

O dono, Ilson Mateus, é considerado um dos homens mais ricos do Brasil, segundo a Forbes, com fortuna estimada em R$ 20 bilhões.

Raimundo, de 35 anos, havia comprado dois quilos de frango, às 8h de ontem, e saía com a sacola com o produto e a nota fiscal, depois de pagar pelos itens no caixa.

As imagens da câmera de segurança do supermercado flagram a abordagem de um segurança no momento em que o homem deixava o supermercado.

VÍTIMA

A vítima foi conduzida por uma escada até o setor de gerência do supermercado. Lá, foi fotografado e levado ao almoxarifado, nos fundos da loja.

Segundo o relato prestado na delegacia da cidade, ele foi algemado e amarrado com um pedaço de fio metálico a uma barra de ferro por ao menos quatro horas. Nesse período, foi ameaçado por seguranças, inclusive com arma de fogo, para que confessasse um suposto furto.

“Os funcionários, em vez de realizarem o procedimento legal de acionamento da Polícia Militar ou da Polícia Civil, para que ele fosse conduzido e autuado pelo crime de furto, o que eles fizeram foi amarrá-lo, praticar tortura psicológica e ainda tortura física, porque ele foi mantido amarrado em uma barra de ferro, em pé, por quatro horas”, disse o delegado Allan Santos, de Santa Inês.

Segundo o delegado, pelas imagens, é possível ver que a vítima carregava duas sacolas, uma delas com o frango e outra com itens diversos – não é possível constatar, no entanto, que esses objetos tenham sido furtados do supermercado ou se já estavam com o homem.

“Na versão oficial dele [a vítima], ele informa que não praticou nenhum tipo de furto. Ele diz que se dirigiu ao açougue, pediu dois quilos de frango, saiu e pagou os frangos. Há até a nota fiscal que foi fornecida por um dos presos, e estava no bolso dele”, afirmou o delegado.

CÁRCERE PRIVADO

Somente por volta das 14h Raimundo foi solto pelos funcionários levando apenas o frango. Ele foi para casa e, em seguida, registrou um boletim de ocorrência. Policiais civis foram até o supermercado e levaram os envolvidos à delegacia.

TORTURA

“Chegamos ao supermercado e encontramos as pessoas que ele [Raimundo] apontou como autores dos crimes. Havia mesmo um almoxarifado, que era usado para depósito de eletrônicos. Também encontramos, na sala de monitoramento de vídeo, a algema utilizada, e, no local onde ele apontou, encontramos o fio elétrico cortado utilizado para amarrar a algema na estrutura metálica onde ele ficou”, completou.

Segundo a polícia, diante dos elementos encontrados e do pouco tempo entre a denúncia e o horário do fato, houve a caracterização de flagrante e os funcionários foram autuados por tortura e cárcere privado, e depois encaminhados à Unidade Prisional de Ressocialização de Santa Inês.

Em relação ao suposto crime de furto direcionado à vítima, a polícia diz que ainda precisa de investigação.

“Mesmo que tivéssemos a informação que ele praticou efetivamente o furto, não poderíamos dar a voz de prisão porque não havia mais a situação de flagrante devido o lapso de tempo entre o suposto fato e a denúncia.”

Em relação à justificativa do Grupo Mateus, a polícia afirmou que não há prerrogativa legal para manter uma pessoa presa até que possa pagar por produtos furtados e que o correto seria a empresa chamar a polícia para conduzir o suspeito à delegacia.

REINCIDENTE

Não é a primeira vez que um caso de truculência de seguranças do Mateus é registrado na polícia.

Em julho, Jacqueline Debora Costa de Oliveira, de 42 anos, denunciou que foi torturada dentro do Mix Mateus do Araçagy, em São Luís.

A cliente relatou que apanhou porque foi confundida com uma integrante de uma quadrilha de roubo de produtos, mas nada foi encontrado em sua bolsa. O caso ainda é investigado.

CRÉDITO: COM INFORMAÇÕES DO UOL