Berlim/Alemanha – Mais do que um time com 11 craques que conseguiu o feito de ser penta-campeão do mundo, a seleção brasileira que venceu a Croácia por 1 a 0, é a cara de um Brasil que só é visível no futebol e no carnaval: dos 11 jogadores titulares, apenas dois – Lúcio e Kaká – não são negros (pretos e pardos).
Os outros nove titulares – Dida, Cafu, Juan, Roberto Carlos, Emerson, Zé Roberto, Ronaldinho, Adriano e Ronaldo – todos são negros e, alguns deles, como Roberto Carlos, Cafú e Ronaldinho Gaúcho, têm sido alvo de racistas nos estádios europeus.
O jogo no Estádio Olímpico de Berlim, inaugurado por Hitler em 1.936, no auge do nazismo para marcar a superioridade da raça ariana, foi assistido por cerca de 1 bilhão de pessoas, transmitido pela TV para mais de 200 países em todo o mundo. O gol saiu aos 43 minutos do primeiro tempo de um chute forte de Kaká de fora da área.
O time brasileiro entrou com o peso de franco favorito para chegar ao hexa por todos os analistas. Apesar de vencer, entretanto, o Brasil não jogou bem. Só com a entrada de Robinho em lugar de Ronaldo, o fenômeno, o Brasil passou a tocar a bola, escapando da pressão da Croácia que criou pelo menos duas boas chances de empatar a partida. O próximo jogo do Brasil será no domingo às 13h, quando enfrentará a Austrália, em Munique.
Um pouco de história
A presença negra nas equipes brasileiras, inclusive na seleção, hoje está naturalizada. Porém, nem sempre foi assim: a abertura dos times para negros poucos anos após a Abolição da Escravatura, em 1.888, não foi bem visto pela elite racista. O futebol, importado da Inglaterra, era um esporte reservado aos filhos das famílias ricas.
A primeira equipe a contar com negros foi o Bangu, do Rio de Janeiro, em 1.906. A Liga carioca chegou a baixar portaria proibindo, depois revogada.
Em 1.923, o Vasco da Gama, tornou-se a primeira equipe a vencer um campeonato estadual com uma equipe mista, formada por negros e operários, o que também desencadeou reações e até mesmo tentativas de mudança das regras.
De lá pra cá a presença negra no futebol foi crescendo e naturalizando-se, porém, as resistências ainda são visíveis, como pode ser constatado em declarações como a do humorista Chico Anysio à “Revista Veja” da semana passada. “Eu não confio em goleiros negros”, numa referência ao episódio da derrota do Brasil para a seleção uruguaia, na Copa de 1.950, quando o goleiro Barbosa – negro – foi estigmatizado como responsável pela derrota.
Apesar de amplamente majoritária em campo, a presença negra no futebol pára por aí: a seleção nunca foi dirigida por um técnico negro e cartolas são 100% brancos.
O Estádio Olímpico de Berlim, com capacidade para 75 mil pessoas, reinaugurado oficialmente em julho de 2.004 e que deverá servir de palco para a final no dia 9 de julho, testemunhou em 1936, o fracasso das teorias da supremacia branca, defendidas pelo regime nazista, quando Jessé Owens, o negro norte-americano ganhou quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos fazendo o ditador exibir sua contrariedade com a derrota.

Da Redacao