O Selo – institucionalizado pela Prefeitura, por meio do decreto municipal 47.911/06 – começou a ser concebido em julho do ano passado, no âmbito da Comissão Intersecretarial de Monitoramento e Gestão da Diversidade, que presido na Secretaria do Trabalho. A Comissão é encarregada de implementar o GRPE – Programa de Fortalecimento Institucional para a Igualdade de Gênero e Raça, que está sendo executado em S. Paulo, graças ao Protocolo de Intenções firmado entre a OIT, Governo Federal e Prefeitura paulistana, com vigência até dezembro de 2.008.
De saída, recusamos a idéia de prêmio, o que limitaria o seu alcance à umas poucas empresas que tem alguma iniciativa no campo da diversidade. Também rejeitamos a idéia de certificação, ou auditagem, optando pelo conceito de reconhecimento. Para ter o Selo, as empresas e organizações devem, simplesmente, assumir – como fizeram as 38 que o receberam no evento do Dia Internacional de Luta contra a Discriminação – compromissos efetivos com a valorização e promoção da diversidade, apresentando diagnóstico da situação em que se encontram negros e mulheres e planos de ação a serem implementados, no período entre março e outubro de cada ano.
Após esse período encaminharão relatório, e é com base no parecer sobre esses Relatórios emitido por um Comitê de Gestão, integrado pelo Poder Público, empresários, entidades sindicais e organizações do terceiro setor, que a Prefeitura decidirá quem deve continuar podendo usar o Selo no exercício seguinte.
Se tivéssemos optado pela premiação, teríamos esgotado aí as possibilidades. Iniciativas com o formato de Prêmio, como o Pró-Equidade da Secretaria das Mulheres da Presidência da República, embora louváveis, partem da idéia de que, primeiro as empresas devem fazer, para depois serem reconhecidas. Ou seja: o conceito é premiar, que é um conceito excludente. Quem premia, castiga, eis a lógica.
Numa sociedade em que o mito da democracia racial – embora abalado – ainda é muito forte, não é difícil prever o que acontece: pela lógica da premiação um número reduzidíssimo de empresários “avançados”, se reúnem anualmente para receber prêmios. A maioria ignora esse tipo de iniciativa, quando não torce o nariz.
Ao apostar no conceito do reconhecimento, convidando as empresas e a sociedade a aderir à estratégia de superar os indicadores que colocam negros e mulheres na base da pirâmide social, tornando palpável e visível o compromisso pelo qual demonstram tanto apreço – o de zelar pela responsabilidade social – inovamos. Sim, porque, como é possível que, ao mesmo tempo em que se apresentam como campeãs em responsabilidade social, empresas não dêem à mínima para os indicadores da discriminação contra negros e mulheres?
Os primeiros sinais de que acertamos, já podem ser sentidos. A adesão ao processo de construção do Selo envolveu dezenas de organizações, entidades sindicais e instituições públicas, numa metodologia participativa que incluiu, até mesmo, o uso do mecanismo da consulta pública via Internet sobre os termos do Pacto.
A adesão ao Pacto é outro indicador do acerto. Todo o setor público de transporte – Metrô, Companhia de Engenharia de Tráfego e São Paulo Transportes – aderiu, além de empresas como as Camisarias Colombo, Fersol, Gelre e setores da administração pública, como a Secretaria do Verde Meio Ambiente e a Secretaria da Coordenação das Subprefeituras, sob cujo comando estão as 31 Subprefeituras da Cidade de S. Paulo. Sem falar das entidades sindicais do porte do Sindicato dos Eletricitários e Sindicato dos Comerciários, cuja base é composta por 400 mil trabalhadores.
Não é difícil prever o poder de multiplicação que essas empresas e entidades têm, e mais do que isso: como podem rapidamente replicar essas experiências junto à sua cadeia de fornecedores e colaboradores.
No evento de entrega do Selo às empresas pioneiras pelo prefeito Gilberto Kassab, se pôde ter uma idéia do potencial de crescimento dessa iniciativa, que já começa a despertar interesse de cidades como Salvador e Campinas, por exemplo.
Criamos uma marca positiva que pode representar uma revolução silenciosa nos conceitos de responsabilidade social, tão caro às empresas, e ajudar na construção de novos paradigmas, de uma nova cultura, de valorização da diversidade e respeito às diferenças, condição fundamental para a construção de uma cultura de paz, numa sociedade traumatizada pelos indicadores de violência.
Criamos um indicador positivo que poderá se tornar referência do consumidor em um mercado que não está indiferente aos valores imateriais, muito pelo contrário. Por que negros e mulheres deixariam de comprar em lojas e estabelecimentos que ostentam a marca do indicador com as digitais em formato multicolorido, sinônimo de que “esta empresa/entidade/instituição/entidade aderiu ao Pacto pela Valorização e promoção da Diversidade”, para comprar em outro que ainda não se deu conta desta vantagem?
Não se trata, portanto, apenas de uma marca simpática. Mas, de um indicador de valor, que certamente fará a diferença.
O Selo, apesar da pouca visibilidade da grande mídia, que ainda não se deu conta do seu alcance, pode se tornar rapidamente uma experiência disseminada em todos os setores da sociedade, demonstrando que o Poder Público pode, e deve, induzir novas práticas, criar mecanismos que estimulem uma nova cultura e novos paradigmas, no caminho para a superação do racismo contra negros e do machismo contra mulheres que, em pleno século XXI, ainda são moeda corrente.
Munida de bons exemplos, a sociedade pode caminhar mais rápido para a superação de tais anacronismos.

Dojival Vieira