S. Paulo – O Coordenador Nacional de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), Reginaldo Bispo, disse que as lideranças negras que defendem apoio incondicional a candidata Dilma Rousseff, a candidata do Governo e do PT, “jamais se preocuparam com os negros, usam-nos para seus projetos e para os projetos de seus partidos e estão, na verdade, defendendo os seus próprios interesses”.
“A experiência que temos não nos permite confiar no silêncio da candidata. É necessário uma manifestação positiva em relação aos 25 pontos que divulgamos. Sem eles, não daremos cheque em branco a candidata do PT. Desafiamos quem quer que seja dizer que a pauta é incorreta ou inapropriada”, afirmou.
Na semana passada, ele e ativistas do Movimento Negro Unificado lançaram um esboço de manifesto em que rejeitam, sob qualquer hipótese, o voto no candidato tucano José Serra, porém, condicionam o voto em Dilma, a um posicionamento em relação aos temas de interesse da população negra brasileira, sob pena de negarem também a ela o voto.
Bispo anunciou que na próxima semana haverá reunião em S. Paulo com lideranças e ativistas que defendem a posição de não voto em Dilma sem pré-condições, e que não está descartado o pedido de uma audiência com a candidata para a entrega formal do Programa de reivindicações.
Veja, na íntegra, a entrevista do coordenador nacional do MNU para a Afropress.
Afropress – O que se pretende fazer para dar consequência a posição de cobrar compromisso, programa e projeto da candidata Dilma Rousseff?
Reginaldo Bispo – Pretendemos reunir os setores com posição semelhante e decidir o que fazer. Até lá vamos propagandear a correção desta posição e o descompromisso com nosso povo dos que apoiam incondicionalmente a candidatura oficial.
Afropress – Cogita-se um pedido de audiência para a entrega do Programa?
Bispo – Pretendemos discutir com os parceiros, o que fazer. A proposta é construir uma reunião na Capital [S. Paulo] para o meio da próxima semana.
Afropress – Como vê a posição da CONEN [Coordenação Nacional de Entidades Negras, ligada ao PT], e da UNEGRO [União de Negros pela Igualdade, ligada ao PC do B] que consideram essas posições divisionistas e não construtivas para o movimento negro e acham que não apoiar Dilma incondicionalmente é, indiretamente, apoiar Serra?
Bispo – A posição de ambos é maniqueísmo puro, é doença de fanático religioso. Acham que direito cidadão é seguí-los em suas escolhas. Eles jamais se preocuparam com os negros. Usam-nos para os seus e para os projetos de seus partidos. Assim fazem na Seppir [Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da Presidência da República], fizeram no Conapir [Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial] e no Conneb [Congresso de Nacional de Negros e Negras do Brasil]. Foi assim também com o Estatuto da Igualdade .
Nos acusavam, mas eram eles que tramavam e apoiavam a direita, os ruralistas e os evangélicos do DEM/PSDB/PR e PRB do Edir [Bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus]. Façam suas apostas. Vão continuar traindo os interesses e as expectativas dos negros, em busca da satisfação de seus próprios interesses.
Afropress – Faça as considerações que considerar pertinentes.
Bispo – A luta não se esgota nas eleições. Nós vivenciamos com o Governo Lula, uma experiência onde as questões concretas não avançaram. Não houve titulação de quilombos no Governo Lula, senão dois; não foi empregada a verba orçada para os quilombolas nos últimos cinco anos, mas reduzida, ano a ano.
O que mostra o pouco caso com as questões de negras e negros. Apoiaram o Estatuto do DEM [móstenes], depois se esconderam envergonhados, não querendo admitir parceria com a Rede Globo, os ruralistas e a direita para nos derrotar.
Mandaram dinheiro do Plano Nacional de Segurança Publica para os Estados, não cobraram a contrapartida do direito à cidadania, do combate ao racismo e do respeito aos Direitos Humanos. Nunca antes neste país, vimos maior matança de jovens negros na história. São insensíveis; isto para os tecnocratas do Governo e do PT é só estatística.
Recolheram e engavetaram o Plano Nacional Contra a Discriminação Religiosa e o decreto de desapropriação do Quilombo Invernada dos Negros-SC, a pedido da direita, dos ruralistas e dos evangélicos. Fomos à luta em ambos os casos, denunciamos e revertemos o decreto da Invernada dos Negros. O Plano Contra a Discriminação Religiosa não foi possível – parte dos religiosos de matriz africana capitularam à vontade da ex-ministra.
Esta experiência, não nos permite confiar no silêncio da candidata. É necessário uma manifestação positiva em relação aos 25 pontos que divulgamos. Sem eles, não daremos cheque em branco a candidata do PT. Desafiamos quem quer que seja dizer que a pauta é incorreta ou inapropriada.

Da Redacao