Quem é racista pratica o bullying? O bullying pode ser uma expressão direta de uma ação racista? A meu entendimento, sim. Para mim, o bullying é também a máxima expressão do racismo. O racismo é sim a intolerância a qualquer etnia que seja diferente entre si. No caso do nosso Brasil, multirracial e multicultural, ser racista representa não aceitar a presença de homens e mulheres da etnia negra em qualquer espaço.
A escola, como um espaço para o ensino da democracia e do convívio, virou um dramático palco de expressão para o racismo e toda a forma de intolerância.
A cada dia que passa, se intolera mais. A intolerância é presente em todas as formas. Seja pela violência, seja pela cordialidade. A que mais vemos nos telejornais e exposta na mídia é a violência, de uma forma coercitiva, quando um grupo impõe, pela força física, a sua superioridade em cima de um indíviduo ou de outro grupo.
Mas também conhecemos a intolerância cordial, a que se dá pelo silêncio e pela brincadeira. Na brincadeira, por exemplo, vende-se que todos nós somos iguais e que não há racismo. Tenho certeza que você que lê este texto já deve ter ouvido em algum momento a seguinte frase:
– Este rapaz é uma pessoa tão boa. Nem parece que é negro. Tem a alma branca.
O modelo do branco é vendido, desde a nossa formação sacra e cristã, como o modelo do alvo, do perfeito, do belo. A imagem de Jesus Cristo, a qual conhecemos ao entrar em qualquer templo católico é a de um homem magro, ruivo, de cabelos compridos e olhos azuis. Uma beleza alva, branca, pura. Branco é sinônimo de pureza. Se o branco é bom, é claro que ser de cor branca, de etnia ariana, é bom. Ter sobrenome estrangeiro é bom, muito bom. Ser negro, ser pardo, mestiço, índio não é bom. É diferente do modelo perfeito o qual conhecemos desde nosso berço.
O negro, jovem, velho, a mulher negra, estão fora do rol do perfeito. O que está fora do que se imagina através de nossos olhos, merece ser discriminado. O bullying, termo inglês que classifica a ação de um tirano ou valentão, utiliza da violência e da coragem para massificar a sua ideologia e seu pensamento. É o que vemos em nossas escolas, em nossos centros de convívio. É o uso da violência para tentar construir um padrão físico e comportamental, difundido por um imaginário alvo que nos foi injetado em nossas mentes: o imaginário da beleza do branco, da tez branca, do olhar branco, dos cabelos claros, corpo magro, esguio, perfeito. Perfeito, para os olhos que não são nossos, são os olhos de quem construiu em nós uma forma de discriminar. Vale dizer que é o discriminar de modo negativo, porque a discriminação faz parte de um processo natural do ser humano. Discriminar é escolher, apontar a diferença. Mas não necessariamente a diferença como vista em um ângulo de rejeição.
Voltando a falar da oportunidade de conversar com alunos da Escola Municipal Nelson Paim Terra, localizado no bairro Rio Branco, a experiência foi interessante. Nós, educadores, comunicadores e também militantes do Movimento Social Negro, temos que aproveitar a oportunidade de falar para os jovens e transformar estes momentos em manás de riqueza. Falar sobre racismo e a sua perversa relação com o bullying vale para mostrar que a valentia é irracional.
Que não mostra a força e a superioridade, mas sim o mais brutal de nossos instintos. O instinto da violência e da eliminação. Jovens já morreram vítimas do bullying em nosso país. O bullying pode levar a uma morte lenta. O preconceito e a rejeição levam a destruição da auto-estima. Sem a estima, vem a perda da fé e da confiança. E vem o desejo de se eliminar, tirar a própria vida.
É hora e momento de plantarmos, junto aos pré-adolescentes e adolescentes, uma consciência multiétnica. Somos um país multiétnico desde a nossa formação. Somos brancos, negros, índios, orientais, europeus, árabes. Das mais variadas origens e, combinadamente e não por acaso, todos nós estamos em um mesmo território. Nosso país é um caldeirão de etnias e de culturas e todos devem viver de forma pacífica e comum. Este direito nos é assegurado na nossa Carta Magna, a Constituição de 1988.
Mais do que um direito humano, conviver em paz e intercambear culturas e formas de vida é algo salutar. O Brasil é uma nação saudável por ter todos os grupos étnicos. Infelizmente, nossa saúde não vai tão bem porque ainda as desigualdades sociais são esteriotipadas pela cor da pele e pela origem regional. Nosso território é imenso, mas irmãos do norte valem menos que os do sudeste e os brasileiros do sul tem uma qualidade de vida superior aos brasileiros do nordeste. Tanta desigualdade só aumenta o racismo, o bullying e outras formas de intolerância correlatas.
Nosso compromisso é falar, conscientizar, conversar. Conversar com nossos jovens, invadir salas de aula, reuniões de grupos religiosos, espaços de convivência. É realmente abrir a discussão e orientar nossos jovens para que construam um Brasil real. O que queremos é um país que cultue e conviva com todas as realidades e com todas as cores. Cores que tornam o país belo e fazem com que cada brasileiro e brasileira seja especial. Único ao redor deste imenso planeta.
Que em próximas edições deste projeto, único e criativo, possamos conversar mais sobre como eliminar e acabar com o bullying, enfraquecendo o racismo como sua pior manifestação. Uma sociedade que é racista não é uma sociedade evoluída. Não possui uma distribuição justa de riquezas e seus cidadãos não colhem os dividendos. Onde há o racismo há o atraso social, a má distribuição de renda. A pobreza, a miséria e a exclusão social incrementam o analfabetismo e a infelicidade.

Oscar Henrique Cardoso