Geralmente, o negro costuma ficar com papéis secundários na TV brasileira, ora como escravos, ora como empregados e não raro como bandidos. Para se ter uma idéia, só em 2003, a Rede Globo exibiu um folhetim com uma protagonista negra, a Preta (vivida por Taís Araújo) de A cor do pecado, aliás do mesmo autor de A Favorita. Na época, a novela foi contestada tanto pelo título que carregava uma idéia negativa quanto pela linguagem racista de alguns personagens da trama.
A mídia vem reafirmando estereótipos historicamente associados aos negros, como o da sexualidade, da força e da ginga. Essas fórmulas criam um falso consenso na sociedade, como se os afro-descendentes não pudessem assumir outros papéis, a não ser de jogadores de futebol e passistas. A ausência de pretos na TV reforça a “ideologia do branqueamento”. Uma geração inteira cresceu vendo Xuxa e suas paquitas como um padrão de beleza a ser seguido.
No entanto, pior que ocultar, é tentar convencer o público de que o Brasil é uma verdadeira democracia racial. O programa Big Brother Brasil (Rede Globo) em todas suas edições sempre conta com a participação de pelo menos um negro. A publicidade também vem colocando afro-descendentes em seus comerciais. Mas isso está longe de ser uma mudança estrutural, na verdade, esse espaço foi reivindicado por um público que consome, dá audiência e quer se vê nos meios de comunicação.
Mas aos poucos, a mídia está se tornando mais multiracial e quebrando paradigmas. O telejornal de maior audiência no país já foi apresentado por um jornalista negro. O cantor Netinho de Paula já teve um programa de sucesso aos domingos. O ator Lázaro Ramos pode ser considerado uma das maiores estrelas do cinema da retomada, interpretando papéis marcantes como em Madame Satã e O Homem que Copiava. Um exemplo mais recente é a atração Manos e Minas (TV Cultura), comandada pelo rapper Rappin Hood, que abre espaço para as comunidades e movimentos sociais.
Os ativistas podem até se posicionar contra João Emanuel, mas quando um ator do know-how de Milton Gonçalves vive um dos principais personagens de uma novela das oito é motivo para comemoração, afinal se o papel fosse de um branco não suscitaria todo esse debate ético-racial. Acusar o autor simplesmente de preconceito é recorrer à vitimização, até porque por uma questão de coerência, a história do deputado Romildo Rosa é bem verossímil, que o diga o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta.

Michel Carvalho