S. Paulo – A crise aberta com as manifestações de indignação às declarações do Secretário de Relações Institucionais do Governo do Estado, José Henrique Reis Lobo (foto), na semana passada, de que embora simpatize com o tema, ações afirmativas “só em 500 anos”, bateu as portas do Palácio dos Bandeirantes.
A coordenação política do Governo do Estado entrou em ação e aconselhou Lobo a moderar declarações que envolvam o tema e, paralelamente, chamou ao Palácio a presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado, professora Elisa Lucas Rodrigues, e negros tucanos graduados, como o presidente do Tucanafro no Estado, Carlos Augusto, e a coordenadora Especial de Assuntos da População Negra (CONE/SP), Maria Aparecida de Laia.
As conversas se deram em saparado e os convidados não souberam – entre si – préviamente da convocação nem da pauta. A conversa de Elisa, de mais de 40 minutos, foi com o secretário adjunto de Lobo, Marcos Antonio de Albuquerque.
Renúncia coletiva
Além do anúncio dos primeiros pedidos de desfiliação de negros do PSDB, cresceu no interior do Estado, a indignação com a postura do Governo Serra. O conselheiro, presidente do Grupo Orunmilá de Ribeirão Preto e sacerdote de religião de matriz africana, Paulo César Pereira de Oliveira, pediu a renúncia coletiva de todo o Colegiado. “Em nome da história de luta dos nossos ancestrais nesse país, em respeito ao povo negro e suas lutas cotidianas pela vida e pela dignidade, enfim, pelo sangue derramado em abundância no passado e nos dias atuais, só resta à nós representantes da população no Conselho da Comunidade Negra, uma única saída, além da inevitável desfiliação partidária: a renúncia coletiva já. Fico no aguardo”, disse ele numa Carta enviada à presidente Elisa Lucas e aos demais 32 membros do Colegiado – 22 representantes da sociedade civil e 10 designados pelo Estado.
Desastre
A área política do Governo considera que a repercussão das declarações de Lobo são “um desastre” em um ano pré-eleitoral, especialmente, para a candidatura do Governador José Serra, a Presidência da República, em 2.010. São Paulo é o Estado com maior população negra do país com 12,5 milhões de afro-brasileiros. Os negros representam estimadamente um terço do eleitorado paulista – o maior do país.
Por outro lado, embora as conversas não tenham vazado, sabe-se que há uma disputa interna e alguns setores do Governo – em especial, ligados ao secretário Aloysio Nunes Ferreira, também candidato a tucano a disputar o Palácio dos Bandeirantes – defende a exoneração de Lobo seria a melhor saída.
Teme-se que o mal estar, iniciado com artigo publicado por Serra na Folha de S. Paulo, em que, à pretexto de lembrar a tragédia do nazismo contra os judeus e do genocídio contra os armênios pelos turcos, condena os que “insistem em ressuscitar o conceito de raça e criar legislações baseadas na premissa de que elas merecem tratamento diferenciado pelo Estado”, provoque a revolta dos dos 800 delegados paulistas que estarão reunidos entre os dias 10 e 12 na Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial, no Largo de S. Francisco, promovidas pelas Secretarias da Justiça e das Relações Institucionais, do qual Lobo é titular, e não terá como estar ausente.
Enquanto o Palácio dos Bandeirantes atua para botar panos quentes, os setores negros do PT – em especial a Frente da Igualdade Racial, criada na Assembléia Legislativa e coordenada pelo deputado Vicente Cândidato (PT/SP), se articula com entidades do Movimento Negro e anti-racista de S. Paulo e deve anunciar nesta semana, uma reação às declarações de Serra e de Lobo. Uma reunião para tratar do tema está prevista para acontecer na terça-feira, no Plenário da Assembléia com a participação de dezenas de entidades negras de todo o Estado.
Panos quentes
As declarações de Lobo, que provocaram a saída de tucanos negros do Partido – como João Carlos Benício, coordenador da Comissão da Diversidade da Secretaria do Trabalho do Município, e de Paulo César Pereira de Oliveira, de Ribeirão Preto, que defende a renúncia coletiva dos membros do Conselho (veja matéria) – ocorreram durante as comemorações dos 25 anos do Conselho. A indignação de alguns conselheiros, é que são consideradas parte de sua postura à frente da Secretaria de Relações Institucionais, no trato da questão étnico-racial e outros grupos como indígenas e nordestinos, que resvalariam, com frequência, para o deboche.
A presidente Elisa Lucas não quis falar sobre o que ouviu no Palácio, porém, a coordenadora da CONE/SP, Maria Aparecida de Laia, antes da conversa disse à Afropress que, embora tenha achado infeliz a declaração, considera ter sido uma manifestação pontual. “Foi sim, uma declaração infeliz, que causou estranheza a todos, mas pontual. Nunca vi uma atitude dele radical nessa questão. Ele tem tido reuniões normais e frequentes com negros do Partido. E nenhum momento demonstrou uma atitude assim. Ao contrário. Foi apenas isso: uma atitude infeliz, não uma fala do Governo”, afirmou Laia.

Da Redacao