A natureza não pôs ninguém em servidão, mas em companhia. Porém, através de algumas formas de governos e técnicas de adestramento, o homem foi sujeitado à servidão. Para Boétie há – até mesmo no reino dos bichos – uma resistência à servidão. Os bichos capturados demonstram “mais langor que vida e que continuam vivendo mais para lamentar sua liberdade perdida do que para se comprazer na servidão”. O desejo é permanecer livre, pois as reações dos animais à servidão revelam-nos que eles servem não por sua vontade, mas por uma imposição dos homens. Assim, “todas as coisas que têm sentimento, sentem o mal da sujeição e procuram a liberdade”. Os bichos, mesmo feitos para o serviço dos homens, somente conseguem a costumar-se a servi-los com o protesto de um desejo contrário.
Antropologicamente, o homem foi desnaturalizado de sua liberdade. Ou seja, ele perdeu a lembrança do seu primeiro ser e o desejo de viver francamente a liberdade. Isso somente foi possível a partir do momento em que o homem foi submetido à três tipos de tiranos: monárquicos, autoritários e democráticos. Pois a obtenção do reino, por parte desses tiranos, deu-se via: ums por eleição do povo; outros pela força das armas; e ainda outros por sucessão de sua raça. Esses estados de coisas fizeram com que os homens perdessem a lembrança de sua liberdade, uma vez que os tiranos trataram-nos como “seus servos naturais”. Estes vencidos pela força, foram obrigados a servir. Temos, portanto, a instituição do costume, e a perpetuação dos tiranos no poder garantiu a servidão, afastando seus súditos da liberdade.
No Brasil Colônia foi instituída a “oficina da tirania”, “uma estrutura autoritária”, contra o negro escravo. As práticas violentas foram executadas através de técnicas que, destruindo a lembrança dos antepassados, imprimiram uma “nova” memória nos sujeitos escravizados. Estes, para se submeterem à servidão, tiveram que passar por um alto grau de violência, através das mnemotécnicas. Frente ao medo da dor, o escravo negava não somente a sua cultura, como também a si mesmo.
Mas por que milhões de escravos serviram, miseravelmente, “com o pescoço sob o jugo”? Tratava-se de corvardia? Por que deixaram abater sobre si tal infortúnio?
Então, como os homens nascem de posse de sua franquia e com a disposição para defendê-la, os escravos, a pesar de terem vivido sob o jugo da escravidão, eram conscientes de que amarga seria a sujeição e aprazível ser livres. Por conta disso, muitos opunham-se à servidão por meio de várias formas de resistência. Eles fugiam para os quilombos; quebravam os instrumentos de trabalho; ateiavam fogo nos canaviais; mulheres abortavam para que seus filhos não nascessem escravos; outras envenenavam seus senhores e/ou perfuravam com objetos pontiagudos os umbigos das crianças brancas. Morte imediata!
Enfim, por ser a liberdade uma franquia natural, o homem, para defendê-la, luta com “unhas e dentes”, pois não há uma servidão voluntária. O homem não existe para tal estado, mesmo que o seu corpo tenha sido treinado e adestrado para o jugo do servilismo. Os escravos, embora submetidos à servidão, ensaíaram o valor da liverdade nos quilombos, construíndo uma outra estrutura social. Então, se a primeira razão da servidão vonluntária é o costume, de igual forma, a primeira razão do homem quebrá-la está na sede de viver francamente em liberdade. E por meio das formas de resistência, ele reconquista a franquia de homem livre, pois a natureza fê-lo naturalmente livre. Eis, portanto, a “bravura que a liberdade põe no coração daqueles que a defendem” (LA BOÉTIE).

Frei Antonio Leandro da Silva