O motivo de tamanha indignação do reverendo era o fato de o jornal Extra ter veiculado algumas semanas atrás matérias demonstrando a vinculação entre determinadas igrejas evangélicas e o tráfico de drogas, surgindo, desta vinculação um monstruoso quadro de intolerância contra os praticantes da umbanda e do candomblé nos morros cariocas.
Em seu ódio santo, Silas Malafaia chamou o jornalista de safado, de covarde, o desafiou a provar quem são as igrejas e os pastores que fazem isso e, de público, disse que estas igrejas e estes pastores seriam débeis mentais, idiotas, caso estivessem fazendo tal vinculação, afinal, o poder do Evangelho, e tão somente ele, já basta para tirar as pessoas das drogas, da prostituição e do homossexualismo.
Em nenhum momento Malafaia tocou na questão da intolerância religiosa. Buscou apenas desqualificar a matéria e, ao mesmo tempo pontuar que o que existe é uma série de interesses políticos por trás, os dele, inclusive, como veremos mais à frente.
Silas Malafaia citou duas vezes a palavra umbanda, nenhuma vez a palavra candomblé, e em dado momento referiu-se a cultos afro. E parou aí. Nada mais disse. Não se referiu ao fato de que, independente de ser ou não débil mental o pastor que está ali “convertendo” o traficante, o fato real e objetivo é que há casos graves de violência e de intolerância religiosa contra pessoas não cristãs nessas comunidades.
De repente, não mais que de repente, o discurso do reverendo mudou e ele passou a falar da questão da homossexualidade. Reparem que acima eu grafei o sufixo ismo, quando ele, o Malafaia, refere-se ao “homossexualismo”. Ou seja, o sufixo ismo é o que determina doença, é o que se tornou uma das primeiras bandeiras do movimento GLBT que era dizer que a homossexualidade não é doença, mas uma condição que já nasce com a pessoa.
O reverendo Silas Malafaia é pessoa extremamente bem preparada. É um orador brilhante, profundo conhecedor da Bíblia, da hexegese, da hermenêutica e por aí vai. Pelo que deu a entender ontem, é ainda formado em psicologia. Portanto, não é um desses ignorantes fundamentalistas que lêem a Bíblia de qualquer maneira e saem interpretendo-a da forma mais absurda possível. Não. Silas é um pastor pentecostal que sabe falar e sabe o que quer. E não há dúvida que hoje a seara pentecostal é um grande império financeiro e político.
Quando Silas Malafaia deixa de falar como um pastor, um dirigente religioso e passa a falar como um doutrinador político ele acaba por revelar a verdadeira face do seu discurso, que é, nada mais, nada menos, que conduzir as massas evangélicas naquilo que virou a grande bandeira de luta dele e de seu grupo político: o combate à homossexualidade e pelo espaço político-ideológico-doutrinário.
Quando ele diz que a sociedade brasileira não deve temer uma república evangélica, no fundo, no fundo, ele está dando a dica do desejo inconsciente dessa massa que cresce e grassa na ignorância da maioria da população brasileira.
Infelizmente o pentecostalismo e seu irmão mais pernicioso, o fundamentalismo, visceja nos espaços onde a falta de educação formal, o subemprego, a pobreza e a violência estão mais presentes. E, coincidentemente, por um desses mistérios que os Kamels e Maggies da vida respondem rapidinho, são espaços também frequentados por uma população negra, desamparada, desassistida. É triste, portanto, ver essa população negra rejeitar sua história, sua raíz, sua tradição, em nome de uma concepção teológica equivocada que busca dizer às pessoas que elas têm que se santificar quando o Cordeiro de Deus, com seu sacrifício, já tirou o pecado de toda a humanidade.
O que está posto, na verdade, é uma disputa. Uma disputa por cabeças, uma disputa por rebanho, uma disputa por mais e mais gente. Gente que esteja disposta a seguir líderes religiosos em suas guerras santas contra tudo aquilo que eles definem como imoral, como não aceitável, a partir de suas próprias perspectivas.
Em verdade, a fala de Silas Malafaia reforça a idéia de que um embate está sendo travado, que uma guerra está prestes a explodir e que ele, como um general de exército, está dando as palavras de ordem, a voz de comando para os seus soldados.
No entanto temos que romper a lógica de guerra. Temos que buscar reforçar a laicidade do estado. Temos que buscar garantir os mecanismos constitucionais e jurídicos que garantem a liberdade de culto. Temos que reforçar o diálogo com setores evangélicos que estejam dispostos a contribuir para essa compreensão e não fecharmos os canais a partir da fala de Malafaia ou de outros que possam vir depois.
Tenho a firme convicção de que o reverendo Silas Malafaia acredita em cada palavra que diz. Acredito na fé que o move e acredito na pureza de sua alma e nas boas intenções de seu coração. No entanto, problematizo esta fala a partir da percepção de que ela nao ajuda no combate à intolerância, mas a reforça a idéia de que há um mundo puro e correto (o cristão, evangélico) e a um outro errado, perdido e impuro que precisa ser convertido. E é essa lógica que precisa ser modificada. As perguntas são: estarão os evangélicos dispostos a travar este debate? Estarão eles dispostos a compreender que Deus em sua grandeza pode se manifestar de diferentes formas a diferentes culturas? Ou estarão dispostos a manterem a lógica de que a eles a verdade pertence?
São algumas questões que precisamos ter em mente para começar esse debate num outro patamar.
* O título original do artigo é “O vociferante Silas Malafaia e a Intolerância Religiosa”.

Marcio Alexandre Martins Gualberto