Ao contrário do que pensam certos setores do Movimento Negro Brasileiro, que parecem não ter dado a devida importância à eleição do primeiro presidente negro dos EUA, para o etnólogo, professor e ativista cubano Carlos Moore, que vive exilado na Bahia desde que passou a ser perseguido na Ilha de Fidel por combater o racismo, tem um alto significado para todos os negros do mundo.
Em entrevista, por e-mail ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, Moore falou sobre o manifesto que divulgou quando da visita do chefe de Estado cubano, Raul Castro, à Bahia para a Cúpula das Américas, encerrada há 10 dias. Revelou que o documento não chegou às mãos do novo chefe de Estado cubano porque “teria sido inútil tentar entregar essa carta a um membro da comitiva do presidente Raúl Castro Ruz, pois ela nunca teria sido entregue a ele”. “A única maneira que tem um cubano de ser ouvido pelos dirigentes desse país, considerando que Cuba é uma ditadura, é de publicar uma carta aberta no estrangeiro”, afirmou.
A população negra em Cuba é calculada entre 62% e 64% dos cubanos, porém, os negros estão ausentes dos principais cargos do Partido Comunista e da direção do Estado.
Moore, que estava em Nova York para palestras e conferências, defendeu o levantamento do embargo dos EUA à Ilha, iniciado desde o início da década de 60 e alertou que o mesmo só beneficia a elite dominante cubana. “O embargo deve ser levantado; só afeta o povo, que é predominantemente de origem africana”, acrescentou.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida por Moore, por e-mail ao editor de Afropress
Afropress – O documento Carta Aberta ao Presidente de Cuba chegou às mãos do Presidente Raul Castro ou a algum assessor destacado de sua comitiva?
Carlos Moore – A carta somente foi publicada online. Teria sido inútil tentar entregar essa carta a um membro da comitiva do presidente Raúl Castro Ruz, pois ela nunca teria sido entregue a ele. A única maneira que tem um cubano de ser ouvido pelos dirigentes desse país, considerando que Cuba é uma ditadura, é de publicar uma carta aberta no estrangeiro. Em Cuba isso seria impossível, e aquele que o intentaria sería preso imediatamente. Além disso, a imprensa libre é algo inexistente em Cuba; todos os méios de informação estão nas mãos do Partido Comunista e do Estado cubano. Não há como fugir disso.
Afropress – O senhor pretendia ter algum encontro com a delegação cubana que participou da Cúpula?
Moore – Não. A intenção não era essa. Em primeiro lugar, os membros do regime cubano não aceitam encontros com aqueles cubanos que não concordam com as suas políticas, e muito menos com negros cubanos dissidentes. O movimento negro cubano – fenômeno recente e emergente – é visto com o maior receio pelas autoridades. Ele é considerado como uma ameaça. Asssim, a intenção da Carta era levar para o domínio público essa questão que em Cuba é tabu: a discriminação racial contra os negros cubanos e a existência de um racismo profundo contra a população negra.
Afropress – Qual a sua expectativa em relação ao diagnóstico feito no texto da Carta Aberta?
Moore – A intenção da Carta é dar voz às demandas dos diferentes grupos de dissidentes negros, e chamar a atenção das autoridades cubanas ao perigo crescente que o crescimento do racismo faz correr à Nação.
Afropress – Como o senhor define a situação dos negros em Cuba hoje e as perspectivas que se abrem com a eleição de Obama, e o possível fim do embargo econômico contra a Ilha?
Moore – O embargo deve ser levantado, simplesmente porque ele não afeta a elite dominante; só afeta o povo, que é predominantemente de origem africana. As elites governantes utilizam o embargo para fins de propaganda, mas não se veem afetadas por ele de jeito algum. Pelo contrário, o regime castrista quer que se mantenha a tensão com os Estados Unidos. Nesse sentido, a vitória de Obama os inquieta muito. Obama quer negociar e terminar com a tensão, mas o regime cubano precisa da tensão para manter a repressão interna.
Eu me pronuncio contra o levantamento dos dois bloqueios: o dos Estados Unidos contra Cuba, que afeta ao povo de Cuba, e, por outro lado, o bloqueio e embargo do regime castrista contra sua própria população negra majoritária. Os dois embargos e bloqueios devem desaparecer, pois lesam os interesses do povo cubano.
Afropress – Qual a repercussão que, para o senhor, teve, tem e terá na Diáspora a eleição de Barack Obama na presidência dos EUA?
Moore – A eleição de Obama tem uma influencia positiva em escala mundial, na medida em que traz para frente toda a problemática da opressão racial e do racismo. Daqui para a frente, nenhum país no mundo poderá continuar a sustentar que tem instituído uma “democracia racial”, nem que tenha superado, com o socialismo, o racismo ou a discriminação racial. A vitória de Obama vai encorajar e alentar a luta de todos os povos do mundo que sofrem do racismo, partricularmente na chamada América Latina, no Oriente Médio, na India e na Ásia.
Afropress – Faça faça um breve balanço de como vê a situação na Ilha, com a chegada de Raul Castro ao Poder?
Moore – O regime cubano já não pode continuar a sustentar as mentiras que ele tem contado ao mundo durante os últimos cinqüenta anos sobre a suposta implantação de uma “democracia pós-racial socialista” em Cuba.
Ou o regime castrista começa a tomar medidas sérias no sentido do empoderamento da população majoritária de Cuba, ou haverá uma explosão social, tarde ou cedo. Aqueles que realmente se preocupam pelo bem-estar do povo cubano, ou que admiram a gesta revolucionária cubana, devem pressionar o regime cubano no sentido dessas reformas.

Carlos Moore em entrevista ao editor de Afropress.