Numa altura em que uns celebram e outros questionam o verdadeiro papel de Zumbi dos Palmares nas historia e historiografia brasileiras, vale a pena traçar aqui algumas linhas a propósito do cumprimento geralmente respeitoso com que a nação inglesa trata da sua memória colectiva, de seus símbolos, mártires e heróis conhecidos e desconhecidos.
Um exercício de comparação quase impossível e, de certa forma provocativo, que se torna alarmante quando facilmente se compreende a razão da mensagem de Biko aplicada ao Brasil: um país construído no mito de uma harmonia racial às expensas da negação de duas de suas matrizes de fundação, a indígena original e a africana.
Neste Novembro de positivo orgulho negro, o raro sol do cada vez mais rigoroso inverno londrino me permitiu um passeio dominical por St. James Park, um dos meus preferidos parques da capital britânica. Gosto de contemplar o seus lago artificial, cisnes, gansos, esquilos, gramado sempre verde, jardins floridos e bem cuidados. Situa-se entre a parte frontal do Palácio de Buckingham e as traseiras de Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro. Nesta parte do parque existe uma estátua erguida em memória de soldados tombados na Primeira Grande Guerra.
Na minha caminhada pelo local fui surpreendido por uma cena que me deixou completamente estupefacto! Tratou-se da rispidez e da incontida indignação com que um cidadão britânico de meia-idade se dirigiu a uma jovem turista de origem eslava. O motivo de tão intolerante investida foi o gesto da jovem de se pendurar no monumento em busca de uma pose que resultasse numa foto mais espectacular.
Abordada de forma tão abrupta num país cujos cidadãos costumam primar pela cortesia, a pobre turista só teve tempo de, com um salto felino, abandonar o seu intento e, quase sem respirar, desdobrar-se em mil desculpas perante tão zeloso e indignado cidadão. Este não se cansava de a verberar, alto e bom som para que todos o ouvissem, lembrando o significado histórico da estátua e o respeito a ela devido.
Esse episódio me trouxe à memória minha primeira e subsequentes visitas ao Brasil, particularmente a Salvador da Bahia, a mais africana das cidades brasileiras. Chego sempre como turista comum mas o meu bichinho de jornalista e a minha condição de afro-descendente me fazem afastar dos tradicionais circuitos desenhados para turista ver. Opto antes por vaguear pelas ruas da cidade e suas periferias, descobrir suas similaridades com outros locais de minhas raízes afro-europeias, conviver com o chamado povão, com faces que me parecem muitos familiares e conhecer caminhos e lugares tornados destino trágico para milhões de menos afortunados africanos e afro-descendentes.
Desde a primeira vez, já lá vão meia-dúzia anos, não consigo conter em mim a revolta de ver o estado de desprezo e total abandono em que se encontram os lugares que, para nós que somos filhos ou descendentes de África, têm um significado muito sagrado. Das ilhas próximas de Salvador ao bairro do Comércio, de toda a orla da cidade ao Pelourinho, não tem nada assinalando a memória dos que de uma forma desumana e trágica por séculos aportaram para ajudar a construir a nação brasileira.
Pelo contrário, o que se nota é um apagamento da memória do passado. Por exemplo, aonde pára o pelourinho (tronco) do Pelourinho (bairro) onde os escravos eram barbaramente punidos ou torturados até ao último suspiro? O famigerado instrumento de tortura parece ter desaparecido, mas nao desapareceu o sofrimento e a miséria que continuam bem presentes nos negros do Pelô. A excepção à amnésia histórica ou, por outras palavras, à violência contra a memória e factos históricos, se chama Igreja do Rosário dos Pretos, ela que foi construída por escravos e negros livres ao longo do século XVIII. Mas mesmo esta tem o seu estado de conservação deixando muito a desejar.
Um local que merece uma boa reflexão e histórica e reavaliacão de seu uso é o hoje popular Mercado Modelo. Um nome pomposo e no mínimo insultuoso para um local em cujos subterrâneos ainda se pode sentir, de forma arrepiante, os horrores da escravatura. Talvez se devesse transformar o espaço num Museu da Escravatura, designacão mais apropriada para um lugar onde outrora se comercializava escravos em grande escala. Um local que, ao invés de ser principalmente uma feira de artesanato para turista consumir, servisse simultaneamente como ponto de reflexão e reverência para com todas as vítimas do holocausto negro e como instrumento de pesquisa para alunos, professores e investigadores.
Tem o Museu Afro-Brasileiro de Salvador que em parte cumpre esta função. Todavia, o seu objectivo é bem mais académico visando o estudo e pesquisa de temas histórico-culturais afro-brasileiros. Não é propriamente um local de reverência da memória das vítimas da escravatura.
Numa altura em que o governo estadual se esforça por divulgar e beneficiar com o chamado turismo étnico, a memória dos escravos ainda não foi reparada com singelos mas muito simbólicos e pedagógicos gestos de reconhecimento e homenagem na capital baiana.
Na catadupa da literatura que é distribuída aos turistas que desembarcam em Salvador não são incluídos locais como depósitos e refúgios de escravos, lugares de seu desembarque, locais de revoltas e resistências, cemitérios, etc. Não tem, por exemplo, um único monumento ou memorial lembrando as incontáveis vítimas do comércio transatlântico de escravos. Se tem, não o vi pelo imenso Brasil que percorri e, desde já, me penitencio se estiver errado.
Tomei conhecimento que a Anceabra (Associação Nacional dos Empresários Afro-Brasileiros) tem um programa chamado de “Rota das Raízes Afrobrasileiras” que se destina a promoção do turismo étnico. Espero que o corpo directivo da Anceabra seja muito mais sensível à memória dos nossos antepassados e pressione para o resgate de sua memória em termos patrimoniais. Não se pode conceber, nem tem como se promover, um turismo étnico quando não existe verdade histórica nem respeito por um património que inclua, para além de igrejas e fortalezas, outros locais como os acima referidos para o cumprimento de um dever de memória.
Recentemente o conservador mayor (prefeito) de Londres, Boris Johnson, deu o seu apoio total a uma campanha que visa criar uma permanente estátua-memorial da escravatura para homenagear os milhões de africanos traficados e escravizados durante o comércio transatlântico. O maior e mais famoso parque de Londres, o Hyde Park, foi o local escolhido para enquadrar o memorial. Johnson justificou a escolha argumentando ser muito importante que a era da escravatura na história britânica jamais seja esquecida. Portugal, por exemplo, que teve parte activa na famigerada empreitada, ainda não prestou simbólica, enaltecedora e reparadora homenagem.
Tanto a atitude do extremamente zeloso cidadão britânico como a frontal e despreconceituosa compreensão histórica do prefeito londrino mostram como por aqui se honra e se respeita a memória de um passado, seja ele glorioso ou não tanto assim.
Aqui na Inglaterra, durante as primeiras semanas de Novembro, é comum ver-se muitos britânicos exibirem em público papoilas sempre do lado do coração nos seus vestuários. No Dia do Armistício ou Dia da Memória (Remembrance Day) até estrangeiros que são figuras públicas, como o técnico de futebol brasileiro Felipe Scolari, são levados a se apresentarem rigorosamente vestidos em estrito respeito pelo cumprimento de um dever de memória que a nação inglesa presta aos seus heróis e mártires tombados durante a Primeira Guerra Mundial e guerras subsequentes.
A Família Real britânica, mesmo não sendo consensual entre os súbditos de sua majestade, é respeitada por quase todos porque ela representa a sua tradição histórica, o seu símbolo de referência social. Mesmo apesar dos turbulentos anos de impopularidade em consequência de escândalos que a atingiram nas últimas duas décadas, as sondagens mais recentes mostram que Isabel II continua uma figura simbólica de referência com muita popularidade e respeito entre os britânicos.
Inimigos de outrora também têm seus lugares de destaque e reverencia por aqui. Gandhi, o símbolo da resistência pela não-violência que derrubou o império britânico, o pequeno grande homem a quem um político do calibre de Churchill um dia chamou, com um imperial desprezo, de “faquir sedicioso”, tem desde 1967 sua estátua numa praça significativa da capital britânica. Trata-se da Tavistok Square, situada nas proximidades dos vários pólos universitários da Universidade de Londres.
Mandela, a quem há pouco mais de duas décadas passadas a então primeira-ministra britânica Margareth Thatcher qualificava de terrorista, tem desde Agosto de 2007 a sua estátua na famosa praça do Parlamento de Westminster, no mesmo local onde a figura de Churchill é dominante. Por ironia do destino, no mesmo lugar também está a estátua de Jan Smuts, o político que se tornou primeiro-ministro da Africa do Sul em 1919 e a quem se atribuiu a utilização, pela primeira vez em 1917, do termo apartheid. Tanto Mandela quanto Gandhi poderiam pura e simplesmente ser ignorados ou diminuídos pelos britânicos. Mas, pelo contrário, são reverenciados como símbolos maiores de resistência e liberdade e de, certa forma, também adoptados como heróis pelos britânicos.
Castro Alves, o celebrado “poeta dos escravos” tem sua presença marcante nos bairros nobres e históricos de Salvador dando nome, entre outros, a uma praça, monumento, teatro e faculdade. Homenagem justa para quem ousou usar a poesia como grande arma de combate contra a escravidão. Mas um outro poeta baiano não menos gigante mas muito menos celebrado, o ex-escravo, jornalista e abolicionista Luiz Gama, cognominado como o “advogado dos escravos”, ainda não mereceu igual reconhecimento público em zonas nobres e turísticas da africana capital da Bahia.
Espero ter contribuído, com esse outro olhar, para mais reflexão e debate sobre símbolos, heróis e mártires. Custa-me compreender (ou compreendo) como parte do Brasil não aceita a versão do oprimido no resgate de uma história a todos comum e questiona obscenamente Zumbi dos Palmares como herói nacional brasileiro e não o celebra como tal. O simples facto de ele se ter revoltado e liderado uma revolta contra um sistema desumanamente opressor legitima, em si, a elevação a essa categoria.

Alberto Castro