Barretos/SP – Ao invés de apurar a denúncia feita pela médica anestesista Carolina Bernardes,  que afirma ter sido vítima de injúria racial praticada por um colega, o obstetra Fernando de Carvalho Jorge, a Comissão de Sindicância criada pelo interventor da Santa Casa de Misericórdia de Barretos, Eduardo Petrov, optou por silenciar em relação à denúncia e responsabilizar a vítima que teria violado resolução do Conselho Federal de Medicina.

O caso aconteceu no dia 07 do mês passado. A anestesista, segundo denunciou em depoimentos à Polícia e ao Conselho Regional de Medicina, foi chamada depreciativamente de “negrinha” por não ter atendido a uma ordem de Jorge para que anestesiasse uma paciente que entrara em trabalho de parto. Para atendê-lo, ele teria deixar um paciente com fratura exposta na tíbia, que estava sendo socorrido. 

Endereço certo

A Sindicância aconselha o interventor a abrir processo administrativo para apurar suposta violação ao conteúdo da Resolução CFM 1.363/93 do Conselho Federal de Medicina (CFM). O conselho tem endereço certo. A Resolução, que não é a 1.363/93, já revogada, mas a 1.802/2006, “dispõe sobre o ato anestésico”, ou seja, o processo administrativo tem um alvo: a anestesista que fez a denúncia.

O inciso II do artigo 1º da Resolução estabelece que o médico “anestesista deve estar sempre junto ao paciente”; e  o IV diz que “é ato atentatório à Ética Médica a realização simultânea de anestesias em pacientes distintos pelo mesmo profissional, ainda que seja no mesmo ambiente cirúrgico”.

É exatamente este o inciso que foi frisado pela Comissão de Sindicância como tendo sido violado pela médica. Pressionada pelo agressor e diante de uma situação de stress extremo ela “acompanhou as duas cirurgias simultâneamente”, conforme o relatório frisa no item oito das conclusões, o que a enquadra como tendo praticado “ato atentatório à ética médica”.

Segundo advogados ouvidos por Afropress, que acompanham o caso, essa foi a brecha encontrada pela Comissão de Sindicância para ignorar a denúncia de injúria racial e enquadrar a anestesista, transformando a vítima em ré de um provável processo administrativo. O processo poderá resultar no afastamento da anestesista do Hospital.

A Afropress tenta há dias falar com Petrov, e encaminhou pedido de entrevista por intermédio de sua assessora de imprensa, Vera Godoy, porém, não teve retorno. A partir da denúncia o caso teve repercussão nacional e a denúncia foi reproduzida pelos principais meios de comunicação do país.

Sem isenção

A providência de pedir a substituição da médica já havia sido pedida pelo interventor, que é amigo pessoal e de infância do denunciado, à Cooperativa de Anestesistas de Ribeirão Preto (COOPANESP/RP), antes mesmo da criação da Comissão de Sindicância.

Petrov, porém, recuou e alegou que teriam fraudado o pedido. "Não foi pedido [o afastamento da médica]. A carta foi retirada do meu gabinete de má fé e leviandade. O fato é que ela ainda está prestando serviços e vai continuar até o final da sindicância", afirmou em entrevista coletiva convocada por ele próprio, com a presença de jornalistas dos principais jornais de Barretos, para explicar o ofício em que a direção do Hospital pedia à Cooperativa a substituição da médica.

No mais a Comissão presidida por Edson Flausino Silva Júnior e integrada por Chafei Ansei Neto, Helly Pimenta Neto e Rogério da Silva Teodósio – todos da confiança do interventor – ficou em generalidades recomendando o envio do relatório ao Conselho Regional de Medicina e ao Ministério Publico de S. Paulo, bem como ao Conselho de Ética do Hospital.

Da Redacao