As políticas e ideologias do Movimento Negro do Brasil, em geral, (as entidades, as instituições e até mesmo a militância universitária, mais independente), parecem voltadas, quase que inteiramente, a manter os negros num lugar próprio, particular, um gueto chic, digamos assim.

Os equívocos do afrocentrismo acadêmico (ora, se o eurocentrismo já foi reconhecido como um equívoco acadêmico grosseiro, por que o afrocentrismo seria menos equivocado?) a priorização de pautas voltadas para a assimilação pontual de negros em postos sociais de segunda classe, a indiferença ou a subestimação flagrante de pautas mais voltadas para o desenvolvimento social amplo da imensa comunidade negra do país, a indiferença pela sobrevivência e a segurança da população mais desvalida, maioria negra absoluta, são sinais inequívocos de que se instalou no Brasil uma liderança negra arrivista, subalterna, de intenções pequeno burguesas e traço ideológico constrangedoramente "pai joão".

É preciso reconhecer que no âmbito de uma estratégia de promoção sóciorracial, o separatismo artificial do gueto – mesmo um gueto chic e fashion – será sempre mais do mesmo: a perpetuação de uma classe hegemônica branca, ocupando os melhores lugares do topo da sociedade, estimulando e mantendo com migalhas uma micro-elite negra, como válvula de escape, enquanto a vida da sociedade racista segue seu rumo sem percalços.

Ora, "o negro em seu lugar" é, exatamente, tudo que o sistema mais deseja e sempre quis. O clássico ramerrão da acomodação de uma minoria submissa, de uma micro elite cúmplice, dócil ao status quo. É preciso chutar logo o pau desta barraca.

Trata-se de um muito conhecido instrumento de perpetuação do racismo, da exclusão sóciorracial vigente desde os tempos coloniais. Chama-se na África este eficiente instrumento de controle social de "Assimilacionismo". Racismo reciclado, uma colher de chá apenas para os "negros da Casa Grande", não deveria ser, não é uma estratégia decente de ascensão social de uma comunidade ou população tão majoritária como os negros do Brasil.

Oportunismo, arrivismo, traição, é do que se trata. Estratégia de ratazanas na ocupação de nichos e galerias do esgoto. Alguma coisa não bate bem nesta história deste "protagonismo negro" de fachada.

Qualquer sociologia reconhece como normal a existência de setores assimilacionistas no âmbito de uma sociedade racista. O arrivismo é um componente fundamental à estratificação em sociedades coloniais ou capitalistas, por razões estruturais divididas em classes e supostas raças.

O que não pode ser tolerado por um grupo social com necessidades urgentes de libertação e ascensão é ser liderado, representado por trânsfugas, raposas no galinheiro, gente mancomunada com os "senhores", "capachos de branco" como se fala no curto e grosso dito popular.

Lutar para que negros ocupem todos os lugares e posições de uma sociedade. Esta é a única pauta com jeito de luta negra de verdade. Eu acho. É preciso fazer o desmonte urgente de toda esta estrutura de secretarias de promoção da igualdade racial tuteladas, criadas para serem, com sua fidelidade canina ao PT, aparelhos populistas, como feitores cínicos a serviço do governo e do partido no poder.

Sem um Movimento Negro audacioso e independente, a escravidão reciclada, perpetuada jamais será abolida. Podem esquecer.

Lembram daqueles judeus colaboracionistas dos nazistas no gueto de Varsóvia, na Segunda Guerra mundial, arrogantes, presunçosos, sórdidos, davam cacetetadas nos irmãos da fila para pegar sopa aguada e batatas podres. Ganhavam em troca da traição nacos de queijo, garrafas de vinho. No final empurravam os conterrâneos para os vagões dos trens da morte, julgando que, ao final seriam poupados pelos algozes. Qual o que! Logo chegava a vez deles também serem trancados numa câmara de gás. (Ah, como adoro estes exageros conceituais!)

Sai do gueto, galera! O gueto é prisão existencial, uma extensão doentia da senzala vexatória, vergonhosa. Sejam homens, sejam mulheres de verdade! Quebrem a porra desta muralha mental da submissão oportunista e ganhem vergonha na cara. Não existe porta de saída ou escada para cima que não seja a que você abrir ou subir na marra, arrombando com o pé que seja, como senhor de si mesmo.

Chutem o balde e, por favor, parem de nos envergonhar!

 

 

Spírito Santo