Só uma intervenção divina (e se é verdade que os deuses do futebol existem, eles devem imediatamente entrar em campo) salva o Brasil do desastre: a eliminação nas quartas de final ou nas semifinais, caso consiga passar pelo bom time da Colômbia nesta sexta (04/07).

E não se trata de torcida contra. Não acho que a vitória ou a derrota na Copa servirão de combustível a um ou outro lado – oposição ou Governo nas eleições de outubro. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Vejo com os olhos de um dos 200 milhões de técnicos, que somos nós todos os brasileiros, ainda que parte deles, como sempre embarque costumeiramente na onda patrioteira alimentada pelo marketing – a história de “amarrar o amor na chuteira” e outras baboseiras cantadas na música da propaganda de um grande banco.

Na “Copa das Copas”, temos a pior das seleções das últimas três Copas. Temos 11 jogadores, mas não temos um time, com padrão de jogo e esquema tático. Emocionalmente instáveis – do gol, onde nos salvou a estrela de Júlio César, ao incrível Hulk – no quesito criatividade, conjunto, a seleção brasileira está próxima do zero.

Considerada favorita, sob pressão do hexa, o time foi sofrível mesmo contra a fraca Croácia – quando venceu graças a um pênalti inventado pelo juiz japonês – e e enfrentando uma seleção de Camarões, já eliminada com jogadores dando cabeçadas entre si, literalmente.

A defesa é fraca no conjunto, salvando-se apenas Thiago Silva, o capitão, prá não falar das duas avenidas pela direita e pela esquerda que levam o nome de Marcelo e Daniel Alves. Estrelas no Real Madri e no Barcelona, os dois dão vexame jogo após jogo.

David Luiz, frequentemente, tenta fazer o que seria a função de um bom meio de campo – se tivéssemos: a ligação entre a defesa e o ataque. Na defesa mesmo, o recurso são os chutões, como se viu no sufoco que foi a partida contra o Chile, em que o Brasil, foi salvo, literalmente, na marca de pênalti.

No ataque, Oscar, depois da partida contra a Croácia, em que foi um dos melhores em campo, desapareceu. E Fred, durante os 120 minutos – 90 do jogo e 30 da prorrogação – se pegou na bola duas vezes, foi muito. Ora, é muito pouco para um centroavante, cuja função é brigar na área e marcar gols.

A seleção vive das explosões do talento de Neymar, mas mesmo este, ficou claro, pode ser neutralizado e, quando isso acontece, torna-se irritadiço e tenta resolver sozinho. É muito pouco para um time, tido favorito desde a abertura da Copa, segundo as palavras de Felipão, seu próprio técnico.

O problema da seleção brasileira não se explica pelo fator campo. São os fatores extra-campo que explicam a ausência de criatividade, de padrão de jogo, de conjunto.

Esta é a seleção que tem menos ligação com o país. Dos jogadores que tem atuado, apenas Fred joga num time brasileiro – o Fluminense. Os demais brilham nos times europeus e alguns por terem se consagrado na Europa para onde foram ainda muito jovens, são ilustres desconhecidos da torcida brasileira. Quem já ouviu falar de um Fernandinho, de um William?

Por outro lado, nas arquibancadas das Arenas da FIFA, está uma torcida que não é a torcida costumeiramente frequentadora dos estádios. Pesquisa DataFolha realizada no jogo contra o Chile mostrou que 90% dos presentes pertencem as classes A e B, e 67% se auto-declara branca, o que contrasta com o perfil da população brasileira – 50,7% preta ou parda, de acordo com o Censo do IBGE 2010.

Basta ver o perfil mostrado nas imagens da TV para se chegar a conclusão óbvia de que além de deste time não ter nenhuma conexão com o país, quem está nas arquibancadas também não tem qualquer sintonia com o Brasil real. Não por acaso, as torcidas argentina e chilena, (enquanto o Chile esteve na competição), tem dado um show enquanto nós repetimos a sonolenta: “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”,  e ficamos por aí, e Thiago Leifert, da Globo tentando ensaiar seus convidados a puxarem coros mais criativos.

O Brasil que está em campo não é o Brasil, e o Brasil que está nas Arenas – os que podem pagar os caríssimos estádios com orçamentos superfaturados para ter ingresso nas arenas da FIFA – também não. Resultado: o Brasil real não se vê representado, nem por esse time, nem pelos que comparecem aos estádios.

É isso o que explica a fúria com que jogadores e torcida se esgoelam para cantar o Hino Nacional, a demonstrar um patriotismo fake que não resolve os nossos problemas, nem fora, nem dentro de campo. Que os deuses do futebol – se é que existem -, dêem o sinal de sua graça, porque senão, o chororô – com gosto de maracanazo – é certo.

Dojival Vieira