Oficialmente, Benedita estará, em tese, representando a “comunidade negra” brasileira – uma população de variadas origens, de variadas condições, de variadas culturas que representa nada menos que 49,3% da população brasileira, segundo a mais recente PNAD do IBGE – e que, por conta da herança do escravismo e de mais 120 anos de racismo pós-abolição, ocupa a base da pirâmide social, segundo todos os indicadores.
Benedita é negra, mulher, evangélica e, tendo a origem que teve, poderia levar ao presidente Barack Obama um retrato fiel de como “nunca antes neste país” chamado Brasil, a parte negra da população continua vivendo às margens e padecendo das aflições de uma abolição que não houve no plano real; poderia ser portadora de agenda mínima que apontasse formas de colaboração entre os governos brasileiro e norte-americano, a exemplo do que já propõe os muitos tratados aprovados em conferências pomposas que nunca passam da letra fria da lei.
Entretanto, ela não falará por nós. Por nenhum de nós. E por uma razão muito simples: para ocupar todos os cargos que ocupou na vida (e que possivelmente ainda ocupará) Benedita fez o caminho inverso ao de Barack Obama – aceitou, a exemplo de outros negros ilustres, “o puxadinho” que o sistema racista lhe reservou; transformou-se em um símbolo vazio, porém, útil: o Estado que pratica racismo institucional precisa destes símbolos para perpetuar para dentro e para fora o mito da democracia racial que, ao contrário do que apregoam alguns afoitos, segue firme e desfruta de boa saúde.
O processo pelo qual o sistema racista transforma negros ilustres em símbolos desses valores para justamente perpetuar o sistema é velho e conhecido. Não é preciso ser sociólogo, nem ostentar o título de “doutor” como muitos desses negros o fazem nas conferências e mesas redondas.
Benedita fez exatamente o que Barack Obama se negou a fazer. Aceitou – como negra e como mulher – se transformar em símbolo, de uma inclusão que nunca houve; de um modelo de inclusão subalterna que, na prática, é só o outro nome de subalternidade, de falta de altivez, jamais de inclusão.
Com a infinidade de cargos que ocupou, nunca jamais se soube do que tenha feito em defesa da população negra e pobre, marginalizada, inclusive das favelas cariocas. Alguém lembra aí de um projeto de lei seu como deputada, como senadora? Alguém se lembra de alguma ação na Assistência Social, quando foi ministra, que tocasse, de longe, no abismo da exclusão sócio-racial que faz com que o Brasil seja o que é?
Ao contrário. A ex-vereadora, ex-deputada, ex-senadora, ex-governada, ex-ministra e agora Secretária de Direitos Humanos no Rio, é lembrada por um fato que, em nada dignifica a sua passagem por esses cargos todos, nem pelos Palácios que ocupou: foi exonerada do Governo, do seu próprio Governo, a quem bajula e paparica – o Governo Lula – por ter usado dinheiro público para participar de um culto em Buenos Aires, com os membros da sua Igreja.
Alguns dirão, como sempre lançando mão do manjado recurso da vitimização e da autopiedade piegas, que isso se deveu ao racismo. Que a mídia isso, que a mídia aquilo… Bobagem. Nada se destaca em sua obra, porque nada fez digno de nota.
Nem no passado, nem no presente.
Vejamos: Benedita é secretaria de Estado do Rio de Janeiro. É casada com o ator Antonio Pitanga, pai da Camila Pitanga. Ocupa o cargo de secretária dos Direitos Humanos do Rio. Pois bem: no ano passado, três meninos negros foram presos e entregues pelo Exército a traficantes de uma favela carioca, em um episódio que, de tão chocante, fez com que Lula mandasse o ministro da defesa Nelson Jobim, conhecido pela arrogância e postura de chefão, deslocar-se para ensaiar um pedido de desculpas às famílias. Não se ouviu uma palavra de Benedita.
Em março de 2.006, vai fazer três anos, o educador Roberto Dellanne, conhecido da militância negra carioca, simplesmente desapareceu. É isso: desapareceu, sem deixar vestígios. As versões são muitas, mas o fato é este: Dellanne desapareceu, sem que sua família tenha tido do Estado qualquer satisfação a respeito do seu paradeiro; se está morto, se está vivo; o que fizeram dos seus restos mortais.
De Benedita, ninguém ouviu que se mexesse da cadeira para ensaiar um pedido de explicação do seu chefe, o governador Sérgio Cabral.
Mais recentemente, um crime chocou o Rio pela gratuidade e pela futilidade: o ex-jornaleiro Jonas Eduardo Souza Santos, foi simplesmente executado ao tentar entrar em uma agência do Banco Itaú, em pleno centro do Rio. O assassino, primeiro foi absolvido, num verdadeiro deboche a qualquer senso de Justiça; depois o júri foi anulado e expedido mandado de prisão. Até hoje!
Todo o aparato da Polícia carioca, que semanal e quase diariamente invade morros e mata inocentes, inclusive crianças – a pretexto da guerra movida por Cabral contra o tráfico – não se mexeu para a prisão de um assassino que tirou a vida de um trabalhador negro, por nada.
De Benedita, secretária de Direitos Humanos, não se ouviu palavra.
É por tudo isso, que boa parte dos negros e negras que não participamos desses clubes fechados – em que o sistema racista celebra a inclusão subalterna dos que aceitam os restos para se tornarem símbolos vazios e úteis; os que não aceitam os tristes papéis do “negro bom”, o “negro bem mandado”, “o negro submisso”, “o negro do meio”, que em troca das sobras – e títulos e comendas – aceita o triste papel se símbolo de um modelo de” inclusão prá inglês ver”, não estaremos representados.
A ex-vereadora, ex-deputada, ex-senadora, ex-ministra e Secretária dos Direitos Humanos do Rio, Benedita da Silva sabe que, ao pisar na Casa Branca nesta quinta-feira estará apenas protagonizando mais um lance de marketing. Mais um, como o que a fez anunciar que trabalha há muitos anos com o Congresso dos Estados Unidos “em políticias sociais e raciais”, sem apontar um único resultado desse “trabalho”.
Mistura de marketing e esperteza só úteis para quem optou pelo papel de símbolo de algo a que não representa mais, nem pelo qual fala, nem representa, inclusive porque passou a fazer parte de outra classe social. Tudo muito inútil e vazio para nós. Só útil para si própria.
Os bajuladores – que não são poucos e estão sempre de plantão – não tardarão a buscar para o encontro Benedita/Obama os significados que lhe faltam. Da nossa parte, não vemos novidade: é só marketing.