S. Paulo – Pressionado pela repercussão pública e política do assassinato de dois motoboys negros, num espaço inferior a 30 dias, o governador de S. Paulo, Alberto Goldman, (PSDB) recebeu José Aparecido dos Santos e Jonas Santana – respectivamente, pais do motoboy, Eduardo Luiz Pinheiro dos Santos, 30 anos, – morto sob tortura num quartel da PM na Zona Norte – e do dentista Flávio Santana, assassinado em 2003 também por policiais militares, depois de ser confundido com um ladrão de carros.
O encontro aconteceu na última quarta-feira (23/06) às 18h15, no próprio gabinete do governador, e durou cerca de uma hora e meia e está sendo mantido em sigilo pelo Palácio dos Bandeirantes, que teme repercussões políticas negativas provocadas pelas mortes na campanha do ex-governador José Serra à Presidência da República.
Afropress apurou que, do encontro que aconteceu por iniciativa do próprio Goldman, participaram os secretários da Casa Civil, Luiz Antonio Marrey, e da Justiça e Cidadania, Ricardo Dias Leme.
Sigilo
Além dos pais de Eduardo e Flávio, e dos secretários Marrey e Leme, estiveram presentes a presidente do Conselho Estadual da Comunidade Negra, professora Elisa Lucas Rodrigues, e um dos irmãos do motoboy assassinado, Cláudio Roberto Pinheiro dos Santos.
Procurada por Afropress, Elisa confirmou o encontro, porém, negou-se a falar sobre os temas da reunião, alegando que caberá ao Palácio divulgar – se julgar conveniente, ou os familiares das vítimas.
Cláudio, irmão do motoboy disse que Goldman ouviu com atenção o que foi dito a respeito da violência sofrida pelo irmão – jogado na rua praticamente morto, depois de ser submetido à torturas, e mostrou-se otimista. “O governador tem informações sobre muita coisa. Nos pareceu que ele tem uma posição mais de fazer e menos de falar. Foi muito proveitosa a reunião”, disse.
O advogado que acompanha o caso do motoboy, Marcos Nogueira da Silva, disse que soube da reunião, porém, não participou porque a família não achou necessária sua presença. Ele acrescentou que, após o decreto de Goldman criando o Grupo de Estudos que vai definir o valor da indenização a ser paga pelo Estado, vai se manifestar no processo administrativo. “Não há nenhuma novidade na parte criminal”, afirmou.
Os doze policiais envolvidos na morte cumprem prisão preventiva decretada pela Justiça de S. Paulo.
Pressão
A audiência de Goldman (na foto em primeiro plano recebendo o cargo de governador do ex-José Serra) com os pais das vítimas acontece, menos de 20 dias depois de entidades do Movimento Negro paulista – lideradas pela UNEAFRO/Brasil, Movimento Negro Unificado (MNU) e Círculo Palmarino -, reunidas na Assembléia Legislativa em audiência convocada pela Comissão de Direitos Humanos, denunciarem a matança de negros por parte da Polícia e pedirem a exoneração do coronel, Álvaro Camilo, comandante geral da PM e do secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto.
Justiça
A iniciativa de Goldman teria sido aconselhada pelo chefe da Casa Civil e ex-Secretário de Justiça, Luiz Antonio Marrey, homem muito próximo de Serra e visto como de maior sensibilidade no Palácio ao tema da discriminação racial.
Há cerca de 15 dias, o seu substituto na Secretaria, Ricardo Paes Leme, protagonizou um bate-boca com os advogados Eduardo Pereira da Silva e Dojival Vieira dos Santos (o primeiro representando a OAB de S. Paulo), que lhe cobraram uma atitude diante das mortes de jovens negros pela PM e queixaram-se da “reação tíbia do governador diante das mortes seguidas de jovens negros pela PM”.
Nervoso, o secretário só recuou depois que o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), Ivan Seixas, o lembrou que a reação de Goldman às mortes tinha ficado muito aquém aquém do que se esperava, especialmente, em função da biografia do governador e de sua história de compromissos com a defesa dos direitos humanos “por ser judeu e ter tido militância comunista no passado”.

Da Redacao