Em um domingo qualquer de março, liguei o computador, entrei no Facebook e dei de cara com uma ilustração de chipanzé no avatar de um grande amigo. Mandei uma mensagem perguntando o motivo da brincadeira e descobri que se tratava de uma força à campanha iniciada por um conhecido comum, no Rio de Janeiro, cujo mote era “Somos Todos Macacos”.

Na época estávamos sob o impacto do caso Tinga, que foi ofendido em uma partida de futebol na Bolívia. Pois bem, em solidariedade a estes dois amigos, passei alguns dias trocando meu avatar por fotos de gorilas e chipanzés não negros. Foi a forma que encontrei de mostrar que a diversidade da cor da pele também é comum entre estes primatas. Prossegui nesta vibe por quase uma semana. 

No entanto, ao assistir no noticiário a resignação de Tinga e o seu discurso conciliador “de que trocaria todas as medalhas e títulos, pelo fim do racismo”, senti um baque. Afinal, estava diante de um caso gravíssimo no qual mesmo sendo uma vítima famosa, com prestígio, dinheiro e espaço nos meios de comunicação, ele decidiu aderir ao “a vida segue”.

Pior, a Conmebol, entidade que dirige o futebol sul-americano, também passou “panos quentes” na situação, aplicando apenas uma multa simbólica ao clube da torcida racista. No post, falei sobre as consequências que este recuo traria, e trará, não para astros milionários dos esportes, com Tinga, mas para jovens da periferia, crianças sem a mesma estrutura psicossocial e financeira que, diuturnamente, são massacradas apenas pela cor de sua pele ou o tipo de seu cabelo. Isso tudo em uma sociedade pluraracial como a brasileira. 

Agora, o assunto racismo/preconceito/racial/intolerância volta à cena, com a reação midiática do jogador Daniel Alves, o enésimo atleta negro a ser atacado de forma covarde nos gramados da civilizada Europa. A reação do astro do Barcelona (que aqui não será enfocada porque, ao que parece foi legítima!) detonou uma campanha que, de cara, me pareceu estranha. Tanto que escrevi sobre isso, alertando que simbolismo não resolve uma questão grave que deve ser tratada com a lei, e seus rigores, e também com um sistema educacional que valorize e fortaleça a diversidade.

Hoje, a dúvida se tornou certeza de que, à exceção da vítima, o Daniel Alves, estar diante de uma grande cafagestagem! Se não, vejamos. A apropriação de bandeiras de luta tem sido vista como um passaporte para “tornar verde” a imagem de empresas e celebridades em geral.

Muitas vezes, sua participação ajuda a chamar atenção para ações nobres, como acontece no caso da inteligente ação “O Câncer no Alvo da Moda” e outros tantos exemplos. Mas o uso de celebridades por uma causa, processo iniciado em 1971, com o Concerto para Bangladesh, organizado e liderado pelo ex-Beatle George Harry e o músico indiano Ravi Shankar, tem limites claros e nada tênues.

É muito fácil separar o que é ativismo, reação coletiva a uma ofensa grave ou o combate sem trégua a iniquidades daquilo que é a mais rasteira, covarde e pura empulhação destinada a enquadrar amigos ou associados de negócios numa moldura dourada de “gente série e preocupada com o social”. O brasileiro é, na essência, um brincalhão. E isso fica patente no nada elegante ditado usado para pontuar nossa diferença e capacidade de avacalhar qualquer instituição: “No Brasil, prostituta goza, cafetão se apaixona e traficante se vicia em pó!”. 

A menção a este arrazoado de incongruências é para entrar, mais especificamente, na recente campanha o-por-tu-nis-ta que gerou a rashtag #SomosTodosMacacos. Afinal, nela estão celebridades às pencas, cuja grande maioria sempre se pautou por um “silêncio ensurdecedor” ou sequer mexeu uma palha contra o racismo praticado de forma contínua e avassaladora contra os afrabrasileiros! A lista dos que posaram para “fotos espontâneas” mais parece um desfile de páginas da revista Caras. Celebridades em profusão.

Como no Brasil o buraco é sempre mais embaixo, não duvido que nesta relação descubramos notórios racistas ou aqueles que já foram flagrados em atos ou posturas preconceituosas contra minorias. Confesso que ainda não os identifiquei, mas como tudo hoje acontece em rede, conto com a ajuda dos demais brasileiros sérios, comprometidos, de fato, com a solução dos problemas graves para ajudar a nominá-los. Mas não é porque eles ainda não foram identificados que eles não estejam lá Afinal, aqui é o único país do mundo qual “prostitua goza” … 

Nesta profusão de selfies vemos pessoas cuja trajetória profissional e a práxis diária colaboram para ampliar o fosso que separa o Brasil dos brancos do Brasil dos afrobrasileiros. Falo, especificamente, do apresentador e empresário Luciano Huck e mesmo dos publicitários que idealizaram a campanha. Uma zapeada na TV, especialmente na líder de audiência, a TV Globo, no faz chegar a conclusão de que estamos na Suécia tropical.

No curto período no qual morei em Londres, e nas minhas andanças pelo mundo, sempre assisto aos programas de TV. À exceção de Chile, Argentina e Japão o único país no qual estive e onde você liga a TV e raramente vê um negro em propagandas, filmes, novelas ou programas de auditório é o Brasil. Ironicamente, o país que possui a segunda maior população de afrodescendentes do planeta e onde 52% se declaram negros, pretos, pardos e mulatos, de acordo com o IBGE.

Mas com bem pontuam diversos intelectuais negros, da extirpe do saudoso geógrafo Milton Santos, passando pelo antropólogo africano radicado por aqui, Kabengele Munanga e até o antropólogo branco, Roberto da Matta, o “racismo no Brasil é um crime perfeito! É que ao contrário da África do Sul do apartheid, dos estados segregacionistas do sul dos Estados Unidos, que adotaram leis de exclusão racial na letra da lei, aqui criamos a insólita situação do racismo sem racistas. 

É por isso que episódios de racismo envolvendo o jogador Antonio Carlos, branco, que à época no Caxias do Sul ofendeu um colega negro, ou o caso envolvendo Grafite, do São Paulo, ou o vivido por Tinga e o árbitro, do Rio Grande do Sul, ganham alguma projeção e depois são abandonados. Não sem antes ajudar-nos a expor o que passa pela cabeça doentia de alguns brasileiros. O Grafite, por exemplo, foi acusado por parte da imprensa esportiva, branca, de criar um tumulto “desnecessário”.

Outros insistiram para que ele deixasse a história para lá. Os menos tímidos chegaram a acusar Grafite, na rádio Transamérica SP, de ter sido seu próprio algoz ao ter aceitado, no início da carreira, o epíteto de Grafite! É neste contexto torpe e dúbio que se encaixa a defesa do apresentador Faustão, também da Globo, no último domingo, na qual repeliu com veemência, por meio de uma verborragia tosca, as acusações de ter adotado uma “atitude racista”, recentemente, em seu programa.

O caso foi denunciado nos sites do movimento negro, como o do Geledés. Disse Fustão, com ar solene, que a prova maior que ele não é racista seria o fato de ter amigos negros, e de metade de seu staff ser formado por negros. Beleza. Só que nas coxias pode. 

No palco, temos de conviver por 20 anos com uma ou duas bailarinas negras. E só! Aliás, uma das maiores saias justas de seu programa foi ter levado o veterano Milton Gonçalves para falar sobre o preconceito racial no Brasil e ter sido confrontado com o fato de que na plateia e no palco existirem apenas um ou outro afrobrasleiro. Apesar da “saia justa” e do visível mal estar. Nada mudou desde então. E olha que isso faz uns 15 anos, hein! Mas, de fato, não acredito que Faustão seja racista.

Contudo, pesa contra ele o fato de ter passado os últimos vinte poucos anos insultando as mulheres loiras, naturais ou de coloração, com epítetos nada dignos, vinculando à cor de seu cabelo a falta de inteligência ou atitudes negativas. Não, meus queridos, não se trata de uma questão de interpretação, com ele alegou no último domingo para justificar o “cabelo vassoura de bruxa!”. 

As ofensas contra as louras estão gravadas e são fartas e recorrentes. Domingo após domingo. A propósito, quantas loiras existem no staff dele mesmo, hein?! Ao excluir os afrobrasileiros da televisão, deliberadamente, a Globo, a Record e Rede TV e a Bandeirantes seguem um script desenhado sob medida pelo status quo que pariu um racismo ardiloso e sob medida para as conveniências tropicais. Como não há leis de segregação, quem reclama normalmente é taxado de “negro revoltado”. Em se tratando de uma sociedade midiática como a nossa, aparecer na TV e nos filmes é vital. 

Primeiro porque ajuda na construção de uma identidade brasileira, com nossa beleza e nossas características. Um país que gera tanto Gisele Bündchen quanto Erika Januza, Helena Ranaldi, Camila Pitanga e Débora Bloch. Todas, sem abrir mão de seus traços, cor da pele e tipo de cabelo sintetizam o que temos de melhor. Você já reparou a quantidade de negros que aparecem nas produções da Globo Filmes? Experimente assistir um de seus mais novos sucessos “Até que a Sorte nos Separe”.

Tirando o Aílton Graça, o mundo retratado no filme, da academia de bairro à praia na Zona Sul, passando pela escola e as ruas do Rio de Janeiro, uma das cinco cidades mais negras do País, era formado quase que exclusivamente por pessoas não negras! E o que dizer dos comerciais de cerveja filmados nas praias, inclusive da quase 100% negra Bahia! O caso Daniel Alves, o futebol, a Copa do Mundo e a forma como vimos construindo a sociedade que vivemos, fala muito sobre os nossos valores. 

Ao negro, coube e ainda cabe o papel terciário, onde uma ou outra “peça” é escolhida para vencer, mas somente até o limite no qual é permitido pelo status quo. Se ameaçar ir muito longe, “cortam-lhe as asinhas”. Por isso é que Pelé se divorciou institucionalmente de Edson Arantes do Nascimento. O ídolo não tem cor. Ele dialoga com todos e cumpre o papel de ídolo. O Edson se perdeu pelo caminho. Tinga, casado com uma loura, deve sofrer, como imaginamos, o racismo duplo. Primeiro por ser negro e ousar querer ir além das quatro linhas do gramado, frequentando lugares sobre os quais deve ter ouvido que não foram feitos para ele. Depois, suprema ofensa, ser casado com uma mulher branca e acima de tudo, bela. O racismo do crime perfeito nos enquadra em um figurino no qual é normal estarmos alijados de todos os espaços de poder. Isso vale para o Tinga, para mim e para tantos outros que sofremos diuturnamente um massacre covarde. 

E por isso que não dá para culpar a vítima, muito menos o Pelé ou Ronaldo Fenômeno, que instado a se manifestar sobre o racismo nos gramados da Europa, disse saber a gravidade desse problema, pois “tem amigos negros”. Aliás, ele não era o único que não se via como negro. Sua namorada no início de carreira, a bela Suzana Werner, questionada em uma reportagem sobre relacionamento inter-racial saiu-se com algo na seguinte linha: “Negro? Mas Ronaldinho é branco. Acho que o pai dele é um pouco negro, mas ele não”. A política de negação da cor também se deve à bem engendrada teoria racista que move as relações no Brasil. Quanto mais você sobe na pirâmide social, menos negro você deve se considerar. Afinal, você é a prova de que com esforço e dedicação qualquer um pode subir, até os negros.

E isso vem sendo pregado com tamanha intensidade que gerações e gerações foram contaminados pela “Síndrome de Estocolmo” na qual as vítimas acabam dando razão aos seus algozes, considerando-se merecedores do suplício que lhes é imposto! É por isso que considero a presente campanha midiática talvez o maior e mais canalha ato de racismo já praticado de forma institucionalizada no Brasil. 

Ao espetacularizarem a desgraça e a covardia cotidiana, fogem do debate e deixam os tantos Danieis Alves massacrados no dia a dia, sem vez e sem voz. Isso é pior e mais deletério que insistir na tese igualmente canalha de que não temos racismo, mas sim preconceito social! Tudo acabará em pizza, como os incidentes recentes e do passado, sobre os quais os políticos, as celebridades e outros oportunistas fizeram seu instante de glória. O Luciano Huk deu o tom. Iniciou um rico e próspero negócio de venda de camisetas sobre o tema. Flagrado vai jurar que o dinheiro arrecadado será usado para blá-bláblá … Nem celebridades, nem políticos, nem publicitários vão mover, de verdade, uma palha para livrar o Brasil do racismo. 

O que têm feito até hoje vai na direção contrária. Os políticos que fazem farra com a mídia espontânea, são os primeiros a soltar o famoso “Falar em racismo só divide, ninguém gosta de falar de problemas!” As agências de propaganda citam a “liberdade criativa” para excluir os afrobrasileiros do cast dos comerciais. Os produtores de moda e estilistas seguem considerando dispensável ter negros na passarela do Fashion Week, porque já os têm no evento como faxineiros, costureiras, etc. Huck e Faustão continuarão negando emprego nos palcos de seus programas a negros. Aliás, muitas vezes eles não estão nem na plateia. 

Para finalizar, gostaria de deixar uma reflexão e uma pergunta: – Por que será que 90% das pessoas que aplaudiram a campanha oportunista, para dizer o mínimo, são brancas, enquanto 110% dos que a repudiaram são negros? 

– Alguém aí viu o Faustão comendo uma banana?

Rosenildo Gomes Ferreira