Minha Avó, Hedit dos Santos, partiu este ano. Centenária, não exigia flores, apenas uma vela e algumas cantigas que balbucio contra o vento. Seu corpo repousa na quadra onde enterraram Carlos Mariguela, mas não me atrevi a cantar nenhuma Internacional Socialista. Os cantos que acumulo são Yoruba e carregam os fragmentos de uma mágica que nos torna vivos, ainda que a morte nos ronde com coturnos, distintivos e brasão dos governos.
Falei em silêncio com os espíritos de meu pai e de meu querido irmão – supondo que eles ficam ali no cemitério perambulando no dia dos finados – os homens de minha família morrem muito cedo, às vezes muito tristes. Estamos querendo romper essa lógica …nós que sobrevivemos, aprendemos a lidar com a morte lá em casa, nenhuma lágrima nos féretros: “ENGULA O CHORO “, dizia minha avó quando seguíamos com o caixão de um familiar. Com exceção de minha avó, só vi enterro de homens lá em casa. Os homens morrem mais, morrem mais cedo, vivem com medo.
Olhei o túmulo do Negro Blul. Acompanhei de longe o enterro de um adolescente da Santa Mônica, senti a presença dos mortos. Chamavam minha atenção, me observavam. Passei uma vela, um acaçá e uma moeda corrente no corpo. Saí sem olhar para trás. Evangivaldo, Ricardo Matos, Aurina, Blul, Marcelo, Carroça, André, os meninos e meninas mortos na Pero Vaz, os meninos e meninas mortas em Vitória da Conquista pela conduta genocida da Rondesp, Rotamo,Choque, Olhar Noturno e Cezar Nunes me exigem este contato permanente com os mortos.
Neste dia de finados meus defuntos caseiros juntam-se aos que cultivo nas ruas: exigem luz e justiça.
Luxo Por Nós
Ângelo Flávio é um grandioso ator e diretor baiano negro e insubmisso. Ele trata em sua arte do combate ao racismo, paga seu preço entre os boçais.
Exibiu-se neste sábado, 30/10 na festa do Festival Internacional de Artes Cênicas, o FIAC, uma festa com tons europeus, com negros bons e invisíveis desfilando sua ausência dos palcos. Ângelo luta contra essa ausência.
Ângelo Flávio vomitou contra todos, rompeu com o bom-mocismo eurocentrado da dramaturgia medíocre baiana. Com seu holocausto, oferecia sua cabeça(cabeça cara, impagável) e seu sangue como sacrifício.
Fina ironia. Ao oferecer-se Ângelo Flavio demolia a cena baiana carcomida pelo racismo e o fetiche de estrela que sustenta nosso teatro dividido entre a Casa Grande e a Senzala. Ângelo é QUILOMBO!
Ângelo Flavio aterrorizou aqueles patrícios imundos e chapados de pó e “êxtase”.
Meus Mortos, os Mortos do holocausto de Ângelo Flavio, nossa dignidade perseguida.
Estamos num tempo difícil acostumaram-nos ao contentamento submisso do consenso, a tolerância burguesa sem debate, ao comportamento silencioso frente aos nossos algozes. Ângelo Flávio paga seu preço por não negociar seus princípios com quem comanda a panelada da política cultural baiana. Sai redivivo como um Macunaíma não embranquecido, rebelando-se, reagindo.
Eu junto minhas armas e um bocado de mariô. Racismo e genocídio, tortura e colonialismo são inegociáveis. Espero como uma Zeferina* pela força de Oxossi organizar um quilombo por onde passe, porque agora sou apenas um vencido. Mas não me sinto só.
*Quilombola dos Lados de Pirajá, hoje Cajazeiras, que em 1826 foi morta por uma ação da Brigada Militar nome dada a Policia Militar baiana que foi fundada com o propósito de combater quilombos e negros rebelados. Zeferina era uma arqueira por certo filha de Oxossi.
**O título original do artigo é “Sobre Finados, Sobre Findados e dos Princípios Preservados”.

Hamilton Borges (D’ogum)