No apagar das luzes, mais precisamente na calada da noite de sexta-feira dia 11/06, duas entidades privadas de São Paulo, a saber as ONGs Educafro e o Centro Santos Dias de Direitos Humanos, como informado na matéria do Afropress – Agência Afroétnica de Notícias, no dia de ontem sábado (12/06), com destaque para o seguinte tópico e comemorado pelos protagonistas desse acordo, entidades privadas de SP, como algumas muitas que chafurdam na lama dos lucros e dividendos com a desgraça da maioria.

” …”S. Paulo – Pouco antes da meia noite desta sexta-feira (11/06), o Carrefour anunciou o fechamento de acordo com o Ministério Público e as Defensorias Públicas do Rio Grande do Sul e da União, o Ministério Público do Trabalho, e as Ongs Educafro e o Centro Santo Dias dos Direitos Humanos, de S. Paulo, e aceitou pagar R$ 115 milhões pela morte do soldador João Alberto Freitas, assassinado barbaramente por seguranças numa loja do hipermercado em Porto Alegre, em novembro do ano passado…”

https://www.afropress.com/acordo-de-entidades-com-carrefour-ignora-familia/ ;

O tópico da matéria identifica um dos aspectos de ausências fundamentais aos quais acrescento outras pois, por exemplo, as nove Comunidades Quilombolas em contexto urbano de Porto Alegre, algumas impactadas diretamente, ou indiretamente por empreendimentos como o Carrefour e outros, não deram procuração para as referidas ONGs Paulistas negociar em nosso nome, pois o Termo de Ajuste refere-se a medidas “antirracistas” etc nem, tampouco, temos notícia de que entidades e representações societárias negras locais para conclusão de tal Termo.

Frise-se ainda que segundo as informações da matéria as referidas ONGs estavam pleiteando para R$ 5.000.000 (Cinco Milhões de Reais) a título de Honorários somente para si em honorários advocatícios e que no dia anterior ao malfadado “Termo de Ajuste” estariam ainda embaçando o mesmo.

Os termos blindam a multinacional francesa de ações referente à futuros malfeitos, bem como, sedimentam a lógica de que tais empreendimentos não mantém a sua essência colonial/racista pela sua simples existência entre nós, como se o bem viver e perspectivas comunitárias dos Povos Originários e descendentes de Africanos Escravizados se compatibilizassem com essa lógica.

Nossos territórios são inegociáveis e muito menos os corpos que os acompanham.

Mesclo a presente manifestação, com a lembrança em destaque envolvendo as manifestações nos EUA referentes ao Assassinato de George Floyd para a distância abissal entre os protagonistas profundos e a elite negra como observa o griot Yedo Ferreira em suas constatações :

“…(A causa do Povo Negro é revolucionária mas a militância negra não é revolucionária, é integracionista. O Movimento Negro é Movimento de Elite Negra, apóia as ações Afirmativas para se ampliar enquanto Elite Negra… )”.

Sendo assim uma captura, meramente estética, que se apropria, para negociar em seu nome próprio, ávida por “empoderamento” corpos e territórios caídos pela guerra cotidiana movida secularmente contra os mesmos. Ou seja , vergonhosamente, uns lucram com a desgraça da maioria de nós.

Tais práticas sabotam cotidianamente, a serviço do rentismo/colonialismo, o necessário processo de auto-organização política/econômica/social a partir de nossos referenciais, tempos e experiências acumuladas ao longo de cinco séculos enfrentando o sistema.

Não reconhecemos nenhum acordo que se refira a nossa pauta histórica sem nós, na calada da noite e sem nós, tal acordo privado, em nome da luta “antirracista “, por mais que seja o maior da América Latina; não foi um Acordo do “Movimento Negro”, foi um acordo privado em benefício exclusivo das referidas ONGs, afronta, no caso dos Territórios Quilombolas, a Convenção 169 da OIT, além de desrespeitar, pelo modus operandi, a necessária boa prática de diálogo entre nós.

Onir de Araújo

Membro da Frente Quilombola RS /OLPN –
13 de junho de 2021.