O que é apresentado como uma “divisão do movimento negro”, entre outras questões pode ter outro significado e tentarei debater a seguir.
1. Antes de ser uma “divisão” ideológica “designar negros (as) em relação ao Congresso” esta caracterização não representa reconhecer e afirmar as lutas e a diversidade de gênero, além de fato já estabelecido e consagrado pelo Congresso?
2. A afirmação de que aqueles que não participam da construção do Congresso “tem como principais determinantes; a soberba e a indiferença” De quem ou de quais grupos/segmentos se está falando? Porque não estão participando? Certamente, existe um elenco de motivos para não participar do Congresso entre os grupos e pessoas que são competentes ou politicamente motivados, mas, se não o fazem, isto os desqualifica politicamente? Talvez o Congresso precise se desvencilhar de questões menos relevantes e definir sua abrangência, trabalhar para isto e adquirir uma posição de maior relevância e agregadora para poder ampliar sua representatividade.
3. A questão da retirada da pauta de votação do Estatuto da Igualdade Racial por não haver sido suficientemente discutido com o movimento negro e por não conter dispositivos que assegurem recursos é positiva e favorece ao debate. Mas ao contrapor o Estatuto da Igualdade Racial ao Congresso de Negras e Negras para afirmá-lo como “único fórum de decisão coletiva legítima” favorece mais a divisão política e ideológica porque insiste em desqualificar quem não participa dele. E não sugere qual será o papel do Congresso com relação ao Estatuto. Oposição ou aperfeiçoamento?
O Congresso ‘vir a ser’ um eixo das lutas do movimento negro é uma justa aspiração, porém sua meta neste primeiro momento não deveria ser articular as linhas de ação política existentes no movimento negro e tratar das formas, meios e recursos para efetivá-las? Não é mais objetivo focar melhor no inimigo?
4. A crítica feita sobre a denominação conceitual do Estatuto da Igualdade Racial corrobora o ‘equívoco’ de Militão e da oposição ‘frente conservadora anti-cotista’ (além de suas ‘curiosas fusões’ com o movimento pardo-mestiço nitidamente fascista). O que esta crítica conservadora carrega entre outros significados talvez até mais importantes mas, ainda pouco nítidos é abalar os fundamentos de definição do próprio movimento negro. Ou seja, a identidade do movimento negro está apoiada num conceito de ‘raça’ não-racista. Discutir este paradoxo em relação ao ‘racismo à brasileira’ e o que ele representa não traz à luz o seu papel na construção da subordinação dos negros para a formação do Estado no Brasil? E como questão: o que pode representar uma ‘lei geral de garantias de direitos para os negros’ como o Estatuto da Igualdade Racial pretende/deveria representar?
E ainda, a questão da identidade do movimento negro não está articulada com a compreensão de um significado ‘funcional’ do conceito de raça que se articula com as classes sociais?
Esta questão é básica e precisa estar explicitada nas pré-teses para que se possa pretender chegar às propostas políticas para o ‘povo negro’.
5. Outra questão para ser debatida do texto é a afirmação da “total deficiência política da militância negra que apóia ser tutelada por um estatuto” compreendido que ele “vai resultar numa política de Estado para negros”.
Para quem compreende conceitualmente e politicamente o Estado como uma síntese de múltiplas determinações, seu papel regulador como o resultado das lutas políticas e sociais além das suas próprias contradições, não há aí qualquer deficiência política.
Ao contrário, a ‘soberba’ pode estar em afirmar um equívoco como se verdade fosse. O Estatuto como uma segunda lei Áurea é uma bonita figura de retórica, mas, mas não representa a realidade, a não ser também como paródia.
Se o Estatuto com as discussões necessárias pudera acolher e representar as aspirações do movimento negro terá o Estado como seu condutor e certamente criado novas competências para exigir seu cumprimento, sem esgotar o papel autônomo do movimento negro.
Por conclusão, faço coro à pergunta onde estão/quais são as pré-teses do Congresso? Creio que através do debate público de suas premissas e propostas se chegará a um conjunto diverso e representativo do que deve ser este Congresso.
Referente à questão do Seminário de São Paulo “em total desacordo com o pensamento predominante…” entre outros seminários que se façam necessários pelo país com a função de ampliar o conhecimento e a interlocução com “notáveis” cumpre registrar que a crítica feita foi tão bem recebida que o crítico se tornou palestrante.
Obs. Quanto à qualidade do texto referido do companheiro Yêdo Ferreira só a pressa explica.

José Ricardo d´Almeida