Meu pensamento do dia sobre as polêmicas acerca do Programa de Miguel Falabela, "O sexo e as Nega", que ainda será lançado mas já provoca polêmicas.

Não sou daqueles que seguem o dito "não vi, nem quero ver", "não li, nem quero ler". Ao contrário, vejo, leio e penso muito. Por isso, sobre o programa "O sexo e as Nega" vou querer ver sim, ler seus jogos de imagens e enquadramentos que mergulham na alma dos telespectadores instalando desejos e verdades não percebidas pelo senso comum. Quero verificar o que rola no âmbito profundo da alma negra do brasileiro e como isto é usado pela máquina midiática…

Se será mais um "Regina Casé" (que a maioria do povo e a minha familia adora) que segue a essência do discurso do Pelé (que a maioria do povo brasileiro pensa igualzinho) ou se validará a argumentação de Elisa Lucinda que coloca a questão da estética como uma questão pessoal: "Pô, o Miguel sempre empregou todas nós negrxs".

E, neste caminho, todos estes projetos e argumentos são atalhos melhorados do LUSOTROPICALISMO de Gilberto Freire que já é um melhoramento da dissimulação colonial Lusa, a poderosa arma racial que, no Brasil, virou biologia já que naturalizou-se no modo de pensar do brasileiro, de tal modo que pensar fora desta banalização é romper com o silêncio e atuar de modo profano e provocador da ordem pacífica.

E atuar fora desta blindagem ocorre quando se explicita alguma crítica como na estética do filme "Cronicamente Inviável" ou em "Quanto Vale ou é Por Quilo" ou se age com uma ação pró-ativa como a do goleiro Aranha ou com a postura de um grande INTELECTUAL ORGÂNICO que se manifesta em poesia como o rapper Emicida (http://trivela.uol.com.br/emicida-estava-vendo-gremio-x-santos-e-veja-o-que-ele-tem-dizer-sobre-o-caso-aranha/) de quem sou fã incondicional. 

Eu não creio que a indignação de algumas mulheres e homens contra a continuidade da presença da imagem sexualizada do corpo [email protected] seja exclusivamente MORAL. Há uma forte indignação quanto ao modo com que esta imagem sexualidade aparece e é agenciada como mercadoria. O que vejo em um grupo crescente de profissionais negros, em todos os setores (artistas, profissonais liberais, atletas, professores, etc), é uma crítica ao padrão estético (isto é, ao modo de apresentação deste sujeito [email protected] no mundo) e ao modelo político (o modo como esta presença negra negocia seus posicionamento, quase sempre de um lugar de subalterno). Quer-se mais autoposionamento, autoidentidades e confrontos contra a corrosão do caráter.

Portanto, não podemos reduzir ao emocional e negar o trabalho de uma reflexão mais profunda sobre um tão caro, extenso e profundo problema como a sexualidade. E o pior é acreditar que uma atitude anti-intelectual lhe poderia ser util. É assim que a mentalidade colonial se apodera de nossas consciência tornando-a limitada ao acreditar que o ato intelectual só é possível no corpo branco e na academia. E daí a critica ao intelectual como se não existisse um intelectual negro que cada vez mais cria e recria um espaço de reflexão em terreno minado. Esta é a potência das ações afirmativas, inclusive política negada por muitos negros como relevante.
 

Muitos debates estão ocorrendo entre os negros mas de forma pulverizada e em um momento de confronto eleitoral como o que agora vivemos, e isto é saudável. Em especial, entre nós mesmos, este debate se torna importante já que o racismo não entra na agenda politico-eleitoral. Resta-nos encaminharmos este debate, e ele segue pelas franjas, pelos fragmentos do que nos aparece, até porque não temos também uma agenda efetiva e sólida sobre como ele se estende por todo o tecido social.

Mas se torna gradativamente mais revelador e não podemos fazê-lo de modo emocional até porque tem sido assim que temos agido em grande parte. Trata-se de libertarmos nossas mentes dos preconceitos em relação a nós mesmos e admitirmos a diversidade de pensamento que entre nós habita e floresce como um exemplo de prática libertária que favorece a esta vanguarda negra. Aliás, o que muito nos falta. E é ai que a estética e a política convergem: na liberdade e na libertação !

 

Júlio Tavares