Membro ativo da Comissão de Familiares dos Desaparecidos, que prepara juntamente com o Ministério Público Federal, entidades de defesa dos direitos humanos e o Fórum de Entidades Sociais, Raciais e Religiosas, o Ato em que serão entregues a família os restos mortais do comandante da ALN, Luiz José da Cunha, o comandante Crioulo, Ivan Seixas, é um sobrevivente. Ele foi preso pelos militares aos 16 anos, junto com o pai, dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), uma das organizações armadas de esquerda que combateram o regime. No dia seguinte à prisão soube da notícia que o pai havia sido morto sob tortura.
Ivan, no momento, trabalha na elaboração do Relatório Final da Comissão de Mortos e Desaparecidos, que está encerrando seus trabalhos. Depois do Ato Inter-Religioso que acontece nesta sexta-feira, às 09h30, na Catedral da Sé, viaja para Recife, onde participará da cerimônia de recebimento e enterro dos restos mortais do Comandante Crioulo, morto em julho de 1.973, também sob tortura, e cujo reconhecimento demorou 15 anos.
O cadáver do ex-guerrilheiro negro foi jogado na cova clandestina do Cemitério de Perus, e encontrado, sem a cabeça.
Para Ivan, foram inúmeros os atos de heroísmo e bravura de líderes negros na história recente do país, que se destacaram no combate à ditadura, inclusive pegando em armas. Confira a entrevista.
Afropress Fale um pouco da sua história como militante de uma organização armada de combate à ditadura.
Ivan Minha história é a seguinte: fui preso junto com meu pai quando militávamos no MRT – Movimento Revolucionário Tiradentes -, organização de luta armada contra a ditadura, composta basicamente por operários e camponeses e coim baixíssima participação de estudantes.
Quando fomos capturados, eu tinha 16 anos e meu pai, dirigente da organização, tinha 49 anos. Fomos presos juntos e torturados juntos. Meu pai foi torturadopor dois dias seguidos e assassinado sob torturas, tendo sua morte anunciada pelos jornais quando ainda estava vivo.
Passei 6 anos preso, sendo que os 3 últimos anos me mantiveram na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, presídio de segurança máxima, misto de manicômiuo com penitenciária.
Após sair da cadeia, voltei a estudar e trabalhei como inspetor de qualidade em soldagem. Fiz Faculdade de Jornalismo e hoje sou jornalista.
Afropress – Há quem limite apenas a militantes da classe média branca incluída participação ativa na luta contra a ditadura (período de 1964/1985). Como foi a participação dos militantes negros na luta contra o regime?
Ivan – Isso é uma grossa besteira cantada em prosa e verso pela classe média, principalmente carioca, sobre a luta contra a ditadura militar. Houve um contingente considerável que aderiu à luta no processo de passeatas estudantis, que participou depois da luta clandestina. Só que é preciso lembrar que a luta acontecia antes do golpe com militantes de longa formação comunista e socialista, sem esse contingente oriundo das passeatas. As várias vertentes de organizações podem ser divididas assim: 1- Militantes dos partidos comunistas e socialistas;2- Militares (cabos, soldados e sargentos) do movimento pré-golpe;3- Militantes de movimentos operários e camponeses espalhados pelo Brasil;4- Esquerda católica, que se forma antes do golpe e toma corpo na resistência ao regime militar;5- Militantes de movimentos estudantis e operários pós-64.
Dentro desses movimentos havia gente de todas as raças e origens sociais. É falso afirmar que era um movimento branco, de classe média e do sul/sudeste.
Marighella era negro (filho de um italiano com uma negra filha de escravos recém libertos). Lamarca era filho de sapateiro e nascido no Estácio, Rio de Janeiro. Marco Antônio Silva Lima, um dos líderes da revolta dos marinheiros, e Osvaldão (comandante da guerrilha do Araguaia), eram negros e, Yoshitane Fugimore, pelo nome dá para ver que era nissei, foi um dos comandantes mais destacados da luta. Todos esses são filhos do povo pobre de nosso país e nenhum é, portanto de classe média, branco ou sulista 100%
Afropress – Como a esquerda armada brasileira lidava com a questão do racismo presente na sociedade e que, naturalmente, se refletia nas organizações?
Ivan – Todas as organizações foram pegas de surpresa com a deflagração do golpe. Foram poucos os que não caíram na história propagada pelo Partidão de que o esquema militar de Jango reverteria qualquer tentativa de golpe. Por causa disso, se partiu para a resistência ao regime militar e, ao mesmo, na construção de uma luta revolucionária.
Dentro dessa perspectiva, as organizações superavam os problemas com sua coerência e disposição de fazer a revolução ideológica no dia-a-dia. Racismo, feminismo e questões de choque de gerações foram incorporados ao ideário de todos nós e a crítica se fazia no ato, bem como manifestações de preconceitos vários eram combatidos de imediato.
A participação das mulheres aconteceu de forma natural e decisiva, com destaques para o comportamento de valorosas companheiras na luta e no enfrentamento nas torturas.
A primeira questão a ser resolvida foi a prevençaõ contra a igreja (o chamado ópio do povo), principalemente a Católica por sua participação na arregimentação e adesão ao golpe. Padres foram aceitos entre nós e houve tolerância com os que conciliavam religião com a luta revolucionária. Lembremos que a prática dos partidos comunistas, de onde nossa maioria saiu, teve confrontos ideológicos sérios com essa Igreja, culminando com sua participação no golpe de 64.
A única questão que não houve tolerância foi a questão do homossexalismo. A militância não fazia distinção de raça, fosse branca, negra ou oriental. Pode-se destacar os nomes de alguns militantes de cada raça, que são nossos heróis.
O racismo não era tolerado de forma alguma. Nunca tivemos notícia de que tenha havido manisfestação de racismo ou alguém tenha sido preterido em suas responsabilidades militantes por ser negro ou oriental. Do mesmo modo, não houve privilégio por ser branco ou excluído por ser mulher ou idoso.
Afropress – Quem foram as principais figuras negras que se destacaram na luta contra a ditadura, além do Comandante Crioulo?
Ivan – Comandante Osvaldão – Osvaldo Orlando da Costa – militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B), nascido em Passa Quatro, Minas Gerais, desaparecido desde abril de 1.974.
Negro, forte, com quase dois metros de altura, era uma figura inconfundível.
Marco Antônio da Silva Lima, militante do Movimento Armado Revolucionário (MAR), ex-sargento da Marinha, foi fuzilado aos 29 anos de idade, no dia 14 de janeiro de 1970, pela Polícia do Exército (PE) do Rio de Janeiro, em Copacabana, ao resistir à voz de prisão.
Foi um dos líderes do comando que invadiu a Penitenciária Lemos de Brito e resgatou um grande número de combatentes presos.
Após ser fuzilado pela repressão, foi deixado como desconhecido no Hospital Souza Aguiar, já em estado de coma, com uma bala na cabeça, vindo a falecer 15 minutos depois.
José Milton Barbosa – Comandante Castro – dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), nascido em Bonito, Pernambuco. Era Sargento radiotelegrafista do Exército, formado pela Escola de Sargento das Armas, sendo cassado em 1964 com o golpe militar. Foi militante do PCB, do PCBR, do MR-8 e, por fim, da ALN, da qual se tornou dirigente regional. Assassinado em 5 de dezembro de 1971, pela repressão política no bairro do Sumaré, em São Paulo e enterrado com nome falso Hélio José da Silva, no Cemitério Dom Bosco, em Perus.
Carlos Marighella, que dispensa apresentações.
Itair José Veloso, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), desaparecido desde 1.975, aos 45 anos. Saiu de casa no dia 25 de maio de 1975, às 7h30 para um encontro às 8h, dizendo que voltaria ao meio-dia para ir ao médico. Desde então, nunca mais sua família recebeu notícias.
Ieda Santos Delgado, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), desaparecida desde 1974 quando contava 29 anos.
Gerson Theodoro de Oliveira, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), morto aos 23 anos no dia 22 de março de 1971, juntamente com Maurício Guilherme da Silveira, à Rua Barão de Mesquita, 425, por agentes do DOI-CODI/RJ. Segundo o boletim de março de 1974 da “Amnesty Internacional”, ambos foram fuzilados.
Afropress – Faça os comentários e observações que julgar pertinentes.
Ivan – Como é possível notar pelos históricos desses companheiros acima, que são apenas alguns entre muitos militantes negros, não eram de classe média ou sulistas. Muitos outros participaram da luta, foram capturados, torturados e não recuaram ou vacilaram.

Ivan Seixas