E a política? A política é outra responsabilidade, existe como jogo de manutenção e tomada do poder, tem seus artifícios, suas lógicas, suas regras… seus enganos.
Num mundo como o nosso globalizado e instantâneo, perverso e escasso para a maioria, tudo parece miragem.
Querem nos fazer crer que nada importa além do brilho efêmero que lampeja sobre nossas cabeças, nossos olhos inflamados pela poluição ética que acompanha os discursos torpes da corte.
Por tanto se bombardeiam Gaza e emasculam crianças palestinas e suas famílias que tem o direito natural a seu território, se trancafiam seres humanos nas pocilgas assépticas de Guatanamo e espalham esse padrão de encarceramento pelo mundo. Se apresentam os corpos decepados de Nairobi como um excesso desproporcional de selvagens, não nos resta nada além de assistirmos os comentários da CNN espalhadas pelas agências de comunicação pois a política tornou-se isso. Um bem estruturado espetáculo pára fruição mundial. Um adereço do mercado.
O Advogado Sergio São Bernardo nos blindou recentemente com uma bela reflexão sobre política na “Era da Liquidez” veja que liquidez é um conceito de mercado que serve para explicar a facilidade em ter valor. “Liquidez” é a facilidade com que um ativo pode ser convertido em dinheiro, então temos que agregar valor rapidamente, uma pauta só tem valor se for ágil, uma luta só ganha espaço se for como uma musa do carnaval que surgiu no último reality show, desfila na Sapucaí e amanhã não será nem mencionada nos programas de fofocas.
Mais para agente né não!
Continuamos insistindo nos velhos temas posto que baseiam-se em nossa própria sobrevivencia, nos valores históricos que herdamos com muita luta acumulada em nossos inúmeras comunidades ancestrais espalhadas pelo Brasuil que se rebelaram.
Solidez e solidariedade é o que nos move.
Por isso para além do espetacular e midiático que possa parecer a certos ativistas, a luta por um outro modelo de segurança e um outro modelo de justiça não será vitóriosa em uma temporada de verão com seus efeitos especiais.
O Governador da Bahia, Jaques Wagner, saiu satisfeito do Carnaval anunciando uma diminuição da violencia nos circuitos da folia, investiu milhões de reais em câmeras de monitoramento, dobrou o contigente policial perverso e violento que distribuia socos e bofetadas em meio a multidão mais saiu tudo certo, nenhum turista branco foi assassinado do alto de seus camarotes.
Na quinta-feira de Momo o Governador entregou a Secretaria Marilia Muricy as chaves do camarote dos presos, lá em Mata Escura, maior complexo Penitenciário Baiano, foram inaugurados os conteiners, reproduzidos ao pé da letra a fantazia dos tumbeiros um caixote, com tetos de zincos e toda sorte de doenças que não foram tratadas pois a SSP e SJCDH não decidiram sobre os direitos dos presos, apenas seu confinamento.
A noite o Governador entregou a chave da cidade ao Mono, um magérrimo e reconhecido membro da comunidade negra baiana e tudo ficou bem.
As morte de Dejair, de Ricardo, e de tantos outras vítimas da politica racista de segurança pública foi esquecida pelo jogo de luzes do carnaval. Nomearam outro Secretário de Segurança Pública, linha dura e preocupado com equipamentos e contratação de policias e um Delegado Chefe da polícia com 30 anos de serviços pelas delegacias da cidade, formado nos tempos da ditadura, podemos aferir como ele atuou no Bairro da Liberdade (maior bairro negro da América depois do Harlem). Mas o delegado Chefe é negro! Belo cosmético para distrair os “ativistas” ávidos por promoção de igualdade glacial, posto que essa igualdade está na geladeira junto com os corpos pretos depositados a cada final de semana nas gavetas do IML.
O martírio do ex-Superintendente do Procom já não é mais tema e toda essa fluidez domina a cena como era esperado.
E A gente… do lugar onde estamos muito vivos e acustumados com essas leis de mercado e da politica retomamos ao que nos interessa:
A defeza da vida!
O combate ao racismo!
E a unidade entre nós que o Presidente da Republica receita do alto de seu paternalismo de esquerda tacanho e simplista. Esquerdistas são esses que se mostram em cenas como a que vimos em Salvador, que sintetiza nossa razão de luta.
Uma alta funcionária da Prefeitura Municipal de Salvador, Katia Carmelo que ordenou a demolição de um terreiro de Candomblé em Salvador ignorando os esforços de uma Secretaria da mesma prefeitura em promover a igualdade, em operar reparação quando o mínimo não é feito….o combate ao racismo e ao ódio religioso no interior das instituições públicas da Bahia.
Do mesmo modo o Governo do Estado faz suas acrobacias ideológicas e diz pretender promover a igualdade (eta palavrinha repetida) mas o que vemos é a manifestação do racismo em estado bruto sem mediações pois tem seus subalternos entre nós para amortecer as pancadas que vem das ruas.
Dia 1° completou um ano do assassinato de Clodolado Souza, o Negro Blul, morto por suas atividades politicas e culturais de combate ao racismo, morto porque reagiu, morto poque era jovem negro e morava nos escombros dessa guerra de média intensidade que se pratica contra nós, morto pela omissão desse governo democrático participativo que nos ingnora politicamente. Mais vivo em nossa memoria, vivo em nosso propósito de continuar combatendo.
Blul agora é um ancestral, Oya é Orixá que comanda o mundo dos mortos e os vendavais como os que varreram Salvador no mesmo dia em que a Prefeitura invadia e destruia o Terreiro Oyá Unipó Neto
Tá tudo certo…não existe nada errado como dizem as mais velhas sacerdotisas do Axé.
O problema é se nos selenciassem, é o contrario como disse Hamilton Assis, um irmão do Circulo Palmarino, esses eventos tem servido para nos deixar juntos e juntas.
E não nos lançaram às árvores plantadas do esquecimento.

Hamilton Borges Walê