A indústria fonográfica ajudou a cristalizar o estereótipo de que todo cantor negro é necessariamente sambista e criador de ritmos alegres, feitos sob medida para empolgar multidões. Mas a partir da segunda metade do século 20, uma safra de cantoras talentosas fugiu desse padrão e investiu em repertório sofisticado e intimista, que incluía outras referências musicais, como o jazz e o blues.
A constatação inspirou o jornalista e historiador Ricardo Santhiago, a escrever o livro “Solistas Dissonantes – História (oral) de Cantoras Negras” (Letra e Voz, 296 págs., R$ 40). A obra traz entrevistas feitas pelo autor com Alaíde Costa, Zezé Motta, Izzy Gordon, Leila Maria, Rosa Marya Colin, Adyel Silva, Virgínia Rosa, entre outras intérpretes.
Em comum, elas enfrentaram preconceitos por três razões: a cor da pele, o fato de serem mulheres e por interpretarem melodias rebuscadas e pouco digeríveis segundo os padrões do showbusiness.
“Comecei a perceber certa insatisfação diante dessa associação entre artistas negros e sambistas. Estava fazendo pesquisa biográfica sobre a Alaíde Costa e vi que isso era muito presente na narrativa e nas colocações dela, que pertence à linhagem de cantoras que não eram sambistas e tiveram pouca visibilidade na mídia. Por isso, resolvi investigar as razões disso”, explica Santhiago.
No processo de produção do livro, o autor encontrou outras peculiaridades das entrevistadas. “Apesar de artisticamente serem marcadas pela diferença, todas vieram de famílias humildes e têm histórias de vida fantásticas”, frisa o escritor.
Santhiago ressalta ainda que não faz oposição ao samba, mas à discriminação étnica e à visão folclórica das artistas negras. “A questão do preconceito contra o gênero feminino também é importante. Um diferencial dessas cantoras é o controle sobre o próprio trabalho, o que pode ser incômodo em um mercado de música popular predominantemente masculino.”
Destaques
Há diversos destaques no livro de Santhiago, como o sensível depoimento da cantora Rosa Maria Colyn. que se cansou de ouvir a expressão “negra de alma branca”.
Alaíde Costa, que participou ativamente da bossa nova no fim da década de 1960, também demonstra firmeza e coerência ao falar sobre o rótulo de “cantora difícil” atribuído a ela.
“Não me arrependo de jeito nenhum da minha opção. Só é triste saber que o mercado não tenha me dado mais chances de mostrar meus trabalhos”, lamenta Alaíde.
Nota da Redação
O jornalista Dojival Filho é repórter da Editoria de Cultura do Jornal Diário do Grande ABC, em S. Paulo e escreve para a Afropress.