S. Paulo – O S.O.S Racismo da Assembléia Legislativa de S. Paulo – que tem como objetivo o combate a discriminação e a intolerância racial –  e o deputado Adriano Diogo (PT/SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos, pedirão audiência ao Secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, para tratar do caso do guarda municipal Roberto Carlos Ribeiro dos Santos, de Itaquatecetuba, morto por um policial militar, porque teria sido confundido com um ladrão na versão do assassino.

Segundo o deputado, a morte do guarda demonstra como negros, ao serem tratados como "suspeitos-padrão", se tornam alvos naturais da violência policial. “Este caso é emblemático. Demonstra como é preciso erradicar essa prática hedionda que torna a pessoa suspeita só pelo fato de ser negra. O GCM foi morto por um policial militar por ter sido confundido com um ladrão, quando, na verdade, perseguia ladrões”, afirma.

A família do GCM – incluindo a viúva Vanessa dos Santos de Paula, e os irmãos Osvaldo e Vivaldo – se reuniram esta semana na Assembléia com o deputado e com o coordenador do SOS Racismo, Cícero Almeida.

Segundo os irmãos de Ribeiro, que também era professor de matemática numa Escola pública, não há dúvida de que o tiro disparado pelo PM aconteceu porque Roberto Carlos era negro. “Ele não faleceu, foi assassinado por uma Polícia Militar infelizmente despreparada, negligente preconceituosa e racista. Mais um jovem trabalhador negro da periferia que foi assassinado”, afirmou Osvaldo.

Osvaldo é estudante de Direito e como ator representou João Cândido na peça “João Cândido do Brasil, a Revolta da Chibata”, encenada pelo Teatro Teatro Popular União e Olho Vivo, fundado por César Vieira, pseudônimo do advogado Idibal Piveta.

Indignado e emocionado ele comoveu os presentes à reunião, lembrando uma parte da sua fala na peça para pedir justiça: “Onde está você Lima Barreto? Onde está você Castro Alves? Por favor me responde, meu irmão de cor”.

Veja matéria da TV Record:

http://noticias.r7.com/sao-paulo/gcm-foi-confundido-com-ladrao-diz-pm-apos-policial-matar-guarda-municipal-a-paisana-08092014

Como foi

O crime aconteceu no dia 06 de setembro. O GCM acompanhava o Secretário de Cultura da cidade, de quem era segurança , em um evento na Câmara Municipal, quando foi chamado por uma mulher que acabara de ter o carro roubado por assaltantes. O GCM que estava à paina saiu em socorro da vítima, porém, na perseguição foi alcançado por uma viatura da PM e atingido por um disparo – não no abdomem, conforme a versão oficial difundida por alguns veículos da grande mídia -, mas de lado, “mas para as costas”, segundo a família.

A posição e o local da perfuração à bala, segundo a família, prova que o assassino fez o disparo "para matar" por julgar que Ribeiro, sendo negro e com uma arma na mão, era um dos assaltantes, quando na verdade, perseguia os ladrões. "Se eles o tivessem abordado, claro, ele teria se identificado como GCM", comenta Vivaldo, que também é guarda municipal da Prefeitura de S. Paulo.  

Segundo os irmãos da vítima, Ribeiro não foi socorrido pelo atirador e permaneceu por cerca de meia hora agonizando no chão. Só depois disso, é que vizinhos o socorreram e o levaram ao Hospital Santa Marcelina, onde já chegou praticamente morto.

Versão do PM

O PM Domingos Dias de Souza, o cabo Dias, autor do disparo, alegou, por meio de advogados, “legítima defesa putativa”, a figura jurídica que justificaria o disparo feito pela alegação de que o autor imaginou que a vítima fosse atirar.

Um outro dado que a família contestou na reunião com o deputado foi o fato, de a Polícia ter se apressado em fazer uma reconstituição da própria cena do crime, reforçando a versão de que teria havido uma “fatalidade”. Nova reconstituição deverá ser pedida na investigação.

Segundo o advogado Dojival Vieira, que participou da reunião a convite do SOS Racismo, o caso demonstra como a condição de "suspeito-padrão" coloca o negro em situação de vulnerabilidade, até mesmo quando está na condição de agente de segurança como era o caso de Ribeiro – um guarda municipal, no exercício de suas funções, portando uma arma legal e na perseguição a assaltantes.

Para a defesa da família, não há dúvida de que, a versão de acidente e ou de fatalidade, é uma forma de garantir a impunidade. “O que houve foi um assassinato. Não acidente. Quem atirou, no mínino, agiu com dolo eventual, que é quando se assume o risco pelo resultado morte”, afirmou o advogado.

O deputado Adriano disse que vai pedir ao Secretário Fernando Grella, que designe um delegado para acompanhar a investigação pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Diogo considera estranhas as circunstâncias do crime e disse que o caso precisa ser apurado com rigor. Ele também quer o acompanhamento do inquérito pelo Ministério Público e uma reunião com o diretor de Polícia Comunitária e Direitos Humanos da PM, coronal Glauco Silva de Carvalho, para tratar do caso.

 

Da Redacao