S. Paulo – São Paulo assistiu nesta segunda-feira (20/11), a maior manifestação negra e anti-racista de sua história, com 20 mil pessoas ocupando todas as faixas da Avenida Paulista, o maior centro financeiro do país por vários quilômetros. Na Brigadeiro Luiz Antonio, por onde passou em direção ao Parque do Ibirapuera, ativistas da Parada Negra e da Marcha da Consciência Negra eram saudados dos prédios pelas pessoas das janelas dos apartamentos.
“Está muito bonito, gente!”, diziam alguns militantes emocionados. Outros mais experientes celebravam a maturidade das lideranças que deixaram de lado a disputa de espaço político, para colocar a Causa do Combate ao Racismo em primeiro lugar, conseguindo unificar todas as entidades em torno de uma agenda comum de atividades e de um mesmo roteiro para a Marcha.
Faixas condenando o racismo e a discriminação e exigindo a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e de Ações Afirmativas e Cotas foram estendidas por ativistas vindos de várias regiões de S. Paulo e até de algumas cidades do interior, como S. Vicente, de onde vieram caravanas.
A manifestação começou às 12h, no vão do Masp da Avenida Paulista com apresentações culturais e um culto inter-religioso. Aos poucos, as pessoas foram chegando. De ônibus, de metrô, de carro, a pé, a massa anônima foi crescendo, até começar a lotar o vão do MASP
Em um caminhão de som cedido pela CUT, Sônia Leite, Flávio Jorge, Juliano Vieira e Dojival Vieira – respectivamente do Fórum de Mulheres Negras, Conen, Unegro e Movimento Brasil Afirmativo – assumiram a organização do evento.
O ato inter-religioso reuniu representantes das religiões de matriz africana, pastores evangélicos, padres da Igreja Católica. Deputados, como Jamil Murad, Nivaldo Santana, Simão Pedro, Vicente Cândido, Ivan Valente e José Cândido – o único deputado negro eleito em S. Paulo nas eleições de outubro – condenaram o racismo e a discriminação.
Um dos momentos mais emocionantes foi quando o professor Eduardo de Oliveira, do Congresso Nacional Afro-Brasileiro, cantou o “Hino à Negritude” de sua autoria exaltando “os negros de altivez”. Manifestantes, alguns de punho cerrado e outros de mãos dadas acompanharam a execução do Hino. O professor Antonio Jacinto dos Santos, um dos dirigentes do Movimento Brasil Afirmativo, denunciou as dificuldades colocadas para que a Paulista fôsse utilizada. “Tentaram nos levar para todos os lugares porque não queriam que usássemos a Paulista. Mas, nós estamos aqui”, disse lembrando as tensas reuniões com o coordenador da CONE, Mário Côrtes.
Por volta das 14h, chegou Mano Brown, líder dos Racionais MCs que, no entanto, preferiu não subir ao palanque, embora anunciado. Pouco depois, todas as faixas da Avenida foram tomadas, com a chegada dos estudantes da Rede Educafro que, pela manhã fizeram inauguração simbólica de um busto de Zumbi, próximo a Estação do Anhangabaú. Chegaram acompanhados de Frei David, diretor executivo da Rede de Cursinhos pré-vestibulares para negros.
A Parada reuniu também personalidades brancas anti-racistas como Ana Letícia, do Instituto Ethos, o empresário Michel Haradon, presidente da Fersol e o procurador da Justiça, Pedro Falabella Tavares de Lima, que acampanhou os manifestantes em um trecho da Paulista.
Pouco depois das 15h começou a passeata em direção ao Ibirapuera, onde os manifestantes chegaram por por volta das 17h. Lá, representantes de todas as entidades falaram. Em meio a manifestações de alegria, depois de uma apresentação de poetas da Cooperifa, por volta das 18h, terminava a manifestação histórica que marcou o Dia Nacional da Consciência Negra, com uma celebração de religiosos de matriz africana – pais e mães de Santo.
“A preparação para o próximo Dia Nacional da Consciência e para a próxima Parada Negra começa amanhã mesmo”, disse o jornalista Dojival Vieira, editor de Afropress e ativista do Movimento Brasil Afirmativo. “Vamos nos manter todos unidos porque é desta forma que vamos derrotar o racismo e mudar São Paulo e o Brasil”, concuiu.

Da Redacao