Rio – O músico e ativista antirracista Spirito Santo (Antonio José do Espírito Santo) é destaque na revista francesa Télérma.fr, de propriedade do Le Monde, numa série especial sobe o Brasil. Na matéria, assinada por Hélène Marzolf, intitulada “Spírito Santo. Da luta armada à luteria étnica”, a revista descreve a trajetória do ativista e músico de 67 anos, da luta armada à "luteria étnica (a arte de fabricar instrumentos musicais) numa sociedade que ele considera “paralisada”.

Segundo a revista, Spírito, que é colunista eventual de Afropress, “encarna uma forma radical de inconformismo”. Pesquisador, músico, arte educador, ele faz campanha desde a juventude contra o racismo e pelo reconhecimento e afirmação da identidade afro-brasileira”, relata a matéria ilustrada por foto do ativista, da sua oficina de trabalho e com a reprodução de sua música.

Descendente, por parte de pai, de escravos angolanos de Minas Gerais, o ativista desde cedo manifestou o desejo de retomar as raízes de sua cultura familiar. “Eu queria retornar a música africana cantada por meus pais e avós e que não tocava no rádio, não era gravada nos discos e não penetrava nos meios de comunicação. Era também quase impossível reproduzir esta música com os instrumentos existentes. Isto levou-me a buscar os meus próprios sons”, conta Spirito.

Musikfabrik

Com formação em luteria (fabricação de instrumentos musicais), Spirito Santo realiza nos últimos 20 anos na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), u projeto especial de pesquisa e criação musical, o Musikfabrik, no qual também inicia alunos em etnomusicologia, por meio da fabricação de instrumentos musicais com cabaças e outros materiais, tais como banjos, caixas percussivas, xilofones, marimbas, tambores feitos de materiais reciclados, máquistas de sons futuristas feitas com objetiso inusitados.

“Eu gosto de incentivar os alunos a recriar instrumentos tradicionais, ou até mesmo a inventar objetos sonoros incomuns que nunca existiram. A idéia é repassar-lhes os fundamentos da fisiologia do som – ou seja, a forma como o som é produzido de acordo com os materiais que são utilizados, trabalhando eu mesmo com eles o resultado estético final, depois de desenvolver nos instrumentos as suas características acústicas. Um dos meus alunos, por exemplo, criou um alaúde de três cordas, feito a partir de material orgânico, um fruto seco (neste caso, uma cabaça), inspirado em instrumentos tradicionalmente usados na China e na África”, relata.

A jornalista francesa relata que ao misturar a experimentação e a análise da linguagem musical, a oficina criada por Spirito reviveu a riqueza e a alma da música afro-brasileira, enquanto enveredava por um campo de investigação cultural e social bem amplo. “A música pode ser uma pode ser uma poderosa ferramenta para a transformação social, uma excelente maneira de dar aos jovens uma visão do mundo, permitindo-lhes compreender o contexto em que vivem”, afirma o músico.

Ativismo e luta armada

Ativista pela igualdade, Spirito Santo, criado no suburbano bairro de Padre Miguel, foi militante na luta contra a ditadura militar (1.964/1985). “No fim dos anos 60, início dos 70, estive envolvido com uma organização armada”, relata, sem dizer qual. Preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), ficou dois anos na prisão de Ilha Grande.

“A prisão é uma experiência muito boa de vida. Eu pude ter uma formação política de base, com os outros detentos. Isso me permitiu adquirir algumas ferramentas de análise da sociedade. A saída da prisão foi muito difícil. Eu precisei de uns quatro ou cinco anos para me recuperar. Tudo havia mudado durante a minha detenção. Minha mãe era viúva, não tínhamos dinheiro”, relembra.

Em 1.975, quando estudava desenho de arquitetura criou o grupo Vissungo, cujo nome retoma o de canções de língua Bantu relacionadas ao trabalho escravo), misturando o pop africano, o afro-beat, soul, funk e a música tradicional. O grupo tornou-se uma das pontas de lança do movimento pela redemocratização, com canções de protesto, como forma de afirmação do orgulho negro.

Além da música, o ativista hoje se vale da escrita como forma de combate ao racismo. “Para mim, o racismo no Brasil é sistêmico. É uma experiência terrível. Você não pode dizer ao outro que ele é racista, porque ele irá se recusar a reconhece-lo. No mês passado, por exemplo, recebi na UERJ uma delegação de uma universidade de S. Paulo. Eles visitaram o meu atelier e ao se deparar com os belos instrumentos, um professor me perguntou: você é o zelador aqui? Eu tive que responder: “Não. Eu sou o professor… É sempre assim…”.

Veja a matéria na íntegra e com tradução do próprio Spirito e postada no seu blog.

http://spiritosanto.wordpress.com/2014/06/14/telerama-fr-especial-brasil-spirito-santo-da-luta-armada-a-luteria-etnica/

Também no original em francês.

http://www.telerama.fr/musique/special-bresil-spirito-santo-de-la-lutte-armee-a-la-lutherie-ethnique,113271.php#

Da Redação