“Na primeira vez que me enganar, a culpa será sua; na segunda vez, a culpa será minha” (provérbio árabe)

Terra de ninguém, as redes sociais têm sido invadidas nas últimas semanas por arautos da ditadura. Vídeos e textos que disseminam a ideia de uma “intervenção militar, não um golpe” no País, sob o pretexto de varrer a corrupção no Governo Federal, estão despertando dois tipos de cidadãos, até há pouco retraídos: os saudosos da ditadura civil-militar (1964-1985) e pessoas que não viveram aquela época, mas se dizem convictas de que somente as Forças Armadas darão jeito no Brasil.

É preciso combater esse engano. Brasileiros foram ludibriados pela falácia de que a Nação estava prestes a se transformar numa ditadura comunista, da qual Deus estaria excluído e, com Ele, seriam expulsos a família e a liberdade. Derrubou-se um governo eleito democraticamente.

Santos sofreu mais do que outras cidades. O Porto sustentava a maioria da população naquele tempo. Graças à organização e à força dos sindicatos, o trabalho diário no cais garantia bons ganhos. Esse dinheiro movimentava o comércio local. O Município era o maior do Estado em população e dimensões econômicas, depois da Capital.

Havia, porém, os que diziam ter o propósito de “devolver o País aos braços da democracia”. Com sua colaboração, logo em 1964 os militares recém-instalados no poder cassaram o prefeito José Gomes, filiado ao PTB do presidente deposto, João Goulart. E atracou no Porto o "Raul Soares", transformado em navio-prisão, para o qual foram levados sindicalistas e opositores do novo regime.

Por que, então, este artigo não está sendo publicado em 31 de março, mas hoje, dia 13? O motivo: nesta data, em 1969 – há 45 anos –, aquela ditadura cassou os direitos políticos de Esmeraldo Tarquínio (1927-1982). Foi o político de origem popular mais importante de Santos no século 20. Único negro a ser escolhido prefeito de Santos, era deputado estadual em seu segundo mandato quando foi eleito. Mas se opôs ao Golpe e à ditadura. Filiou-se ao MDB, partido de oposição.

Impediu-se Tarquínio de tomar posse na Prefeitura, cassado enquanto deputado e com os direitos políticos suspensos por dez anos. Em seu lugar, foi declarado interventor (e, meses depois, oficializado prefeito) um general da reserva, Clóvis Bandeira Brasil. Seus dois primeiros atos após a posse foram mandar pintar o mastro do Paço Municipal e aumentar em seis vezes o próprio salário.

Ainda enquanto governante, o nomeado indicou à Secretaria de Turismo um filho, que cogitou pôr uma baleia no Aquário Municipal; aceitou, de uma Câmara subserviente em sua maioria, uma verba de mordomia complementar aos vencimentos (equivalente a 16 salários mínimos da época); gastou dinheiro público em aluguéis de apartamentos, viagens ao Exterior, lavagens de veículos.

Ao se comparar um governo imposto e os planos de Tarquínio para a Cidade – como a construção de um distrito industrial na Área Continental (idealizada pelo antecessor, Sílvio Fernandes Lopes), estimular ligações com Bertioga, incentivar o turismo de classe média e transformar velhos armazéns portuários em complexo cinematográfico –, vê-se o quanto se perdeu.

Se Tarquínio não tivesse cumprido seus planos, o eleitorado botaria um ponto final em sua carreira política. Quando o general governou, não se pôde contestar: a Câmara chegou a ser fechada.

Santos é apenas um exemplo do que pode ter acontecido País afora na ditadura. Não temos por que carregar a culpa de nos enganar novamente.

 

Rafael Motta