Em muitos momentos na minha infância e no período escolar, fizeram-me elogios que ofendiam não só a mim, mas toda a população negra. Foi comum e bem corriqueiro escutar: – “que moreninha estudiosa, inteligente, ela tem a alma branca!”. Imediatamente eu pensava: "alma tem cor?" E hoje continuo questionando: "inteligência tem cor?"

Outra frase bem popular foi: “essa menina é tão bonita, tem traços finos como branca, mas o cabelo é ruim!”Bom, nesse caso eu chorava imediatamente, muitas vezes escondida no banheiro da escola. Isso foi muito agressivo! Penso que devemos falar sobre as experiências que o racismo nos proporciona. E mais do que isto, buscar compreendê-las e superá-las tendo a consciência de que precisamos entender o racismo em suas bases epistemológicas, superando o sortilégio da cor, o fetichismo das feições e aparências e o essencialismo racial, como retrata Moore (2007).

Como disse Elie Wiesel, prêmio Nobel da Paz: “o carrasco mata sempre duas vezes, a segunda pelo silêncio”. Pois bem, não me calei, sugiro que nossa voz ecoe em liberdade com libertação frente à ditadura imposta aos nossos corpos, muitas vezes censurados pelo racismo. Frases racistas como essas acima são expressões da desumanização contra a corporeidade negra. Que padrão de beleza, de estética e que forma de racionalizar que estão por trás dessas expressões? Que visão de mundo elas apresentam? Os processos educativos dessa ou de outros tipos de afirmações semelhantes contribuem de que forma para a (des)construção de uma identidade negra?

Semelhante a outras realidades nesse sistema-mundo em que vivemos na América Latina, a colonização e escravidão utilizadas como instrumentos de “conquista” e expansão européias nos violentou profundamente, na tentativa de impor por meio da institucionalização da ideologia eurocêntrica, uma única forma, um modelo, um padrão homogêneo de pensar, ser, sentir e estar no mundo, sobretudo de compreender a realidade e de se interagir com ela, com as pessoas, com a diversidade e com as diferenças.

Sendo eu negra, só teria minha dignidade reconhecida se possuísse algo próximo a humanidade considerada branca por pessoas brancas? Meu corpo não era branco, meu cabelo não era liso e muito menos cacheado, definitivamente não era parecida com a Monalisa ou com a Brigitte Bardot. Minha aparência se aproximava de outras pessoas, muitas vezes igualmente discriminadas e inferiorizadas por serem negras.

Meu corpo era o motivo de chacota e de desprezo por parte daqueles que se sentiam e acreditavam superiores! Gente, isso beira a loucura! Esse complexo de superioridade e inferioridade é no mínimo patológico, mas muito usual na mentalidade das pessoas. Essa visão etnocêntrica resvala pela sociedade e dita a conduta não somente individual, mas coletiva e institucional das ações empreendidas pelo estado e entre os indivíduos. Toda essa construção se aplica na prática, na trama social.

A priori, devido ao projeto ocidental de expansão universalista, instrumentos e teorias foram criados para estudar tais diferenças, para miná-las em seus aspectos positivos e aculturá-las, incluindo-as, assimilando-as num padrão homogêneo, considerado superior e universal. Foram muitas as falácias oriundas desse mito de perfeição européia que acabaram se naturalizando nas relações étnico-raciais, no cotidiano e em vários espaços, conseqüentemente, entre outros, na literatura, na ciência, na educação, na teologia.

Assim, supervalorizar a brancura e inferiorizar a negritude se constituiu numa educação que se processa dentro e fora das escolas. Não é a toa que visualizamos tantos casos de racismo, discriminação e preconceito em nossa sociedade. Tais violências foram institucionalmente ensinadas e essas expressões de ódio são resultados e conseqüência de processos educativos cotidianamente aprendidos. Nesse sentido, até a fé foi racionalmente e irracionalmente racionalizada por essa lógica, ao ponto de acreditar que o bom êxito de uma pessoa negra ocorre porque ela tem a alma branca.

Pois bem, se alma tem cor, inteligência também e se os traços belos de uma criança negra são compatíveis com o modelo europeu a ser seguido, o que de fato eu represento ou o que eles querem que eu represente? De que forma? O que pode ser negativo e/ou positivo nesse processo de (des)construção da identidade negra?

Não contei aqui o outro lado da minha história, não contei ainda o lado da história que é narrada por pessoas semelhantes a mim e que nutrem, vivem e idealizam um sentimento de pertença e que buscam combater concepções eurocêntricas e fortalecer concepções africanas.

Africanas no sentido filosófico, de raiz cultural, epistêmica, emancipadora, de território de resistências e centralidade de identidades, não no sentido da sobreposição ou inversão dos pólos como reza práticas etnocêntricas, mas com o intuito de constituir formas de racionalizar, de viver, teorizar, estar e se relacionar com o mundo próprio, próximo, referencial de positividades para a população negra enraizados no pensamento do mundo africano. Teorias outras, teorias que trazem também aportes do mundo observado, observável, simbólico, empírico, experenciado, vivido.

Se teorizar também é observar, compreender, refletir e interpretar a realidade para nela intervir e gerar conhecimentos, indago: como me olhar não mais como objeto (para a ciência), mas como sujeito de uma própria história? Como protagonista dela? Como pesquisar e teorizar a partir da perspectiva africana e das africanidades no Brasil? Como estudar as tradições africanas na diáspora e no continente não mais com o olhar etnocentrista? Como se posicionar e ir à busca da libertação constante de nossas mentalidades colonialistas e ocidentais? Queremos reproduzir à lógica que aí está ou aos poucos, na medida do possível, encadear outras formas de gerar conhecimentos teóricos, científicos e/ou acadêmicos?

Que somos nós, pretos, humanamente? Podemos aceitar que nos estudem como seres primitivos? Como classe social, confundida com todos os outros componentes da classe economicamente rebaixada, como querem muitos? Pergunto em termos de estudo. Podemos, ao ser estudados, ser confundidos com os nordestinos pobres? Com os brancos pobres? Com os índios? Pode-se ainda confundir nossa vivência racial com a do povo judeu, porque ambos sofremos discriminação? Diz Beatriz Nascimento (RATS, 2006, 94).

O que almejamos? Agir enquanto sujeitos ou permanecer objeto e até nos confundirmos como tal. Ser negro no Brasil é também emancipar-se dos grilhões mentais que tenta nos aprisionar, enclausurando nossos corpos.

 

 

Tatiane de Souza Silvério