Quando Bento XVI, ungido pelo poder de Deus, renunciou ao cargo vitalício de papa, em fevereiro deste ano, consolidou-se uma onda iniciada nesta segunda década do século, que se caracteriza pelo fim da geração de lideranças que governam de costas para os anseios populares. Não por acaso, seu sucessor, Francisco, surpreendeu ao demonstrar postura social mais simples, popular e humana.

Essa onda, que começou com a manifestação de milhares de jovens no Oriente Médio e foi chamada de “Primavera Árabe”, já varreu do mapa mais de duas dezenas de lideres mundiais. Além do Oriente Médio, o fenômeno impulsionado por gritos e protestos já se espalhou pelo Velho Continente, onde se estende às urnas.

O que mais chama a atenção nesses tensos e incertos momentos que vivemos é que a mudança – simbolizada na posse de um novo líder – não mais significa tempos fáceis para o novo governante. A pressão e as cobranças vindas das ruas fizeram líderes recém-empossados deixarem o poder sem mesmo esquentar a cadeira, como aconteceu no Egito e na Grécia, só para citar casos recentes.

O Brasil viu  despencar a popularidade de lideranças em início de mandato, ou no meio dele, como a presidente Dilma, de um momento para o outro, após os gritos das ruas. O congresso e outras instâncias de poder se apressaram em responder rapidamente aos clamores das emblemáticas massas sem lideranças.

Neste novo cenário, tudo é questionado, até mesmo o futebol, paixão nacional. As vaias monumentais que sofreram o presidente da FIFA, Joseph Blatter, e a presidente da república no estádio Mané Garrincha, por uma torcida branca, bem nutrida, de classe média e dentro do “padrão FIFA”, não se diferenciavam dos protestos daqueles manifestantes “sem educação” do lado de fora do estádio, das estruturas de poder e do próprio “padrão FIFA”.

Não obstante, a questão racial ganhou um novo contorno nesta nebulosa atmosfera. Sempre fomos criticados no mundo político branco pela falta de lideranças negras que mobilizassem as massas no Brasil, que em sua maioria nunca foram brancas. É chegada a hora de perguntarmos: que cor tinham os líderes da mobilização que sacudiu o país nos últimos meses? Não eram só negros, nem só brancos, e sim azuis como o Facebook, ou como as vigilâncias teleguiadas do hemisfério norte.

Se existe uma lição que as ruas deram nos últimos meses, é que slogans pelo fim da corrupção, por saúde, educação e transportes decentes podem ecoar e unir muito mais pessoas nos dias atuais do que uma voz e um carro de som instrumentalizado. Isso significa que a próxima onda pode perfeitamente ser outro conjunto de slogans, como “igualdade racial”, “fim do extermínio de juventude negra”, “fim da discriminação racial no mercado de trabalho e nos meios de comunicação”. E quando isso acontecer, não será uma onda, e sim uma tsunami, até porque o epicentro deste tremor já pode ser sentido se movimentando há mais de um século, nas periferias das grandes cidades.

Maurício Pestana