S. Paulo – "Negritude em rede: discursos de identidade, conhecimento e militância – Um estudo de caso da comunidade Negros do Orkut (2004-2011)", foi o tema da tese de mestrado apresentada pela estudante Melissa Andrade, na Faculdade de Educação da Universidade de S. Paulo (USP), e que já está disponível para leitura e consulta no site de teses e dissertações da Universidade.

O trabalho obteve avaliação positiva da banca integrada pelos professores Paula Perin Vicentini, orientadora, Rafael dos Santos e Kabengele Munanga, que ressaltou “a originalidade do trabalho e a sua contribuição numa área pouco explorada”. A banca recomendou sua publicação.

Melissa, porém, não pensa em publicar a tese. “Ela já está disponível no site de teses e dissertações da USP, onde qualquer um pode baixar. E também há a questão de eu achar que não está suficientemente boa para publicar: coletei muito material, mas pelo tempo disponível para defender, tive que me restringir nas análises”, pondera. Ela começou o Curso de Mestrado em 2009 e a defesa da tese aconteceu em julho do ano passado. A investigação da comunidade Orkut, à época, a preferida pelos internautas, começou em 2010.

Segundo a estudante, que fez licenciatura em Letras e cursou as disciplinas básicas de formação de professor, o objetivo foi o estudo das atividades relacionadas às comunidades de temática racial negra, verificando como os membros se apropriavam do espaço e quais eram as discussões. Para realizar o trabalho, Melissa se valeu de entrevistas com a professora Luzia Souza – a entrevista ponto zero, pois foi ela quem a colocou em contato com os outros dois entrevistados: Francisco Antero, ativista e funcionário público federal, e o editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

“O Francisco Antero foi o segundo e me chamou atenção pelo fato de ser branco e estar numa comunidade com o nome NEGROS. Quando a Luzia indicou, fiquei curiosa em compreender o que tinha o levado a ingressar. Você [o editor de Afropress] foi o último, também indicado pela Luzia. Quando ela passou seu nome, busquei na Internet e achei um perfil interessante para entrevistar, pois tinha um histórico de atuação fora dali", comentou. 

Interesse

O interesse da estudante pelo tema se deu a partir das leituras feitas no Curso do Centro de Estudos Africanos, do professor Kabengele Munanga, em 2007. “Era meu últino ano de Graduação e eu fui fazer o curso “Aspectos da Cultura e da História do Negro no Brasil”. Uma leitura que me intrigou muito foi o “Raça como retórica”, de Yvonne Maggie. Ela lançava uma dúvida se a raça não era um problema só de acadêmicos, se a discussão sobre raça era mesmo um problema brasileiro", lembra.

Para Melissa a questão racial é pouco discutida no ambiente acadêmico brasileiro. “O Prof. Kabengele observou uma vez, em aula, que praticamente só a disciplina dele e de alguns poucos, como o Antonio Sergio Alfredo Guimarães, discutem o tema. Tanto que eu fui ver o assunto num curso, não nas disciplinas obrigatórias. E olha que fiz licenciatura e há a Lei 10.639. É um quadro bem desanimador. Eu fui monitora dessa disciplina Didática, com a Paula, minha orientadora, por três semestres consecutivos. Ela sempre perguntava para a sala quem ali queria mesmo a carreira docente. Sempre poucas mãos se erguiam. O problema é bem complexo. Eu vejo como muitos fazendo a licenciatura como um plano B, tipo "se não der certo, dou aula". Eu falo isso para contextualizar que a apatia se dá em todos os temas discutidos nas aulas, praticamente", acrescenta.

Leia, na íntegra, a entrevista.

Afropress – Quais as conclusões mais importantes a que você chegou na sua tese?

Melissa Andrade – Acredito que tive a comprovação de que o "estatuto da raça" é uma questão discutida sim pelos não acadêmicos, meio que respondendo à pergunta do livro da Yvonne [Maggie]. Essa discussão muitas vezes, por questões óbvias, não vai ter a mesma profundidade (não sei se essa palavra é pedante) da discussão acadêmica, mas ela existe. Também verifiquei o que o Ricardo Franklin Ferreira aponta no estudo dele: uma visão romantizada da identidade negra.

Afropress – Que consequências isso tem para o debate da questão racial no Brasil?

MA – Acredito que a formação dessas redes, reunindo pessoas interessadas no debate, faz com que cheguem a mais pessoas informações sobre esse tema. Talvez, sem esse capital social, as informações não chegassem porque é certo que a Internet é um mar de informações, mas se a pessoa não tiver claro o que procura, pode se perder. O fato, creio eu, é que a rede potencializa a construção de conhecimentos a respeito do tema, não que apenas estar nela, desencadeie o conhecimento. E aí, as pessoas melhor informadas podem trazer qualidade às discussões, fugindo dos achismos.

Afropress – O  que você destaca como mais importante para quem quiser conhecer o conteúdo do seu trabalho?

MA – Eu diria que atentar para como se dão as discussões sobre o estatuto de raça pelas pessoas comuns, não acadêmicas e nem especialistas no assunto. Acho que a luta antirracista deve entender como as bases populares pensam o tema. A revolução necessária não vai acontecer nos bancos das universidades.

 

 

Da Redação